A Hora da Essência (Pe. Fábio de Melo): uma análise da morte

No livro “A hora da essência”, Padre Fábio de Melo analisa a morte na perspectiva de uma paciente e sua relação com uma enfermeira para ensinar a viver melhor, não apenas às vésperas do fim.

De pé, Ana. Deitada, Sofia. Enfermeira e paciente. Uma, inteira. A outra, aos pedaços. É a partir deste encontro que o padre Fábio de Melo mergulha em profundas reflexões sobre a morte. O novo livro é, na verdade, uma ode à vida. Em A hora da essência, o sacerdote analisa a importância de reconciliar-se com si mesmo e valorizar a vida antes que seja tarde demais.

Morrer requer liturgia. Da verdade. Viver o rito que nos põe diante de nós. Caem as escamas, vedam-se os caminhos, não sobrando mais respiro para as caricaturas que criamos de nós mesmos. Morrer requer coerência. Fazer o caminho de volta, redescobrir o sabor do manancial da verdade, estar em si, inteiramente reconciliado com as escolhas que lhe tornaram quem é. (…) O resultado de quem sacrifica e celebra é a vida na essência. Nada pode ser mais realizador. Não espere a morte para conquistar tão nobre riqueza.

(A hora da essência, p. 3 )

Como a história começa

A história começa antes mesmo de Sofia conhecer sua companheira de quarto, que espontaneamente, sem mais explicações, decide dedicar parte de suas férias para cuidar da paciente recém-chegada. Internada às pressas, a protagonista se depara com a notícia de que não irá sobreviver ao câncer, dignosticado inicialmente no pâncreas, mas que acometeu também outros órgãos.

O que tenho é a vida, este tempo verbal enfadonhamente conjugado pelo meu corpo, fadado ao estreitamento que me leva a deixar de ser. O que tenho é o doído da solidão. Saber-se aprisionada em mim. Ninguém a notar o que no interior do coração se passa. O pensamento sem um espaço para a partilha. O todo da angústia no estreito do peito. A lágrima que ninguém vê, o grito que ninguém escuta, a dor que ninguém percebe. Passado e presente. É com eles que preciso me ajeitar. O futuro que me espera será tão breve quanto o respiro que agora realizo.

(A hora da essência, p. 38 )

Após estes momentos iniciais de solidão, já com a presença da enfermeira ao seu lado, Sofia passa a refletir sobre o passado, emergindo boas lembranças, mas também às cicatrizes deixadas por escolhas que hoje percebe equivocadas. Após um casamento de muitos anos terminar, ela passou erroneamente a culpar o único filho, que acabou fugindo de casa.

Por conta da doença inesperada, Sofia então não teve tempo de conseguir informações sobre o paradeiro do filho, aumentando o tormento naquele que seria seu leito de morte. Por fim, neste processo, ela toma atitudes para recuperar o que havia deixado para trás e encontrar sua verdadeira essência.

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Referência em Clarice Lispector?

O título da obra traz uma referência ao livro “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector que, de um modo geral, também analisa a vida e a morte. E nessa dança de novos livros, autores e a literatura de um modo geral, ter um padre escrevendo com tanta beleza estética e boas referências literárias, muito além dos livros como um manual de felicidade, é bonito de ver.

Sobre o Pe. Fábio de Melo

Padre Fábio de Melo é mineiro da cidade de Formiga, graduado em Filosofia e Teologia, pós-graduado em Educação e mestre em Teologia Sistemática. Ele se dedica ao trabalho de evangelização pela arte em diversas áreas de atuação: padre, professor universitário, escritor, cantor e compositor. É autor de vários livros, entre eles: Tempo de Esperas, Orfandades, É sagrado viver, Quem me roubou de mim e Por onde for o teu passo, que lá esteja o teu coração, todos lançados pela Editora Planeta.

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