Leitura atenta: um pequeno roteiro

A leitura atenta ou close reading é uma técnica de estudo ou leitura aprofundada, que nos ajuda a entender melhor o texto e ter mais informações para analisar a obra.

Para quem escreve, seja ficção ou não-ficção, a leitura atenta é uma ferramenta básica para aprender sobre técnicas de escrita com os textos que mais amamos.

Neste artigo, vou compartilhar com você a leitura atenta que me tirou de um bloqueio criativo.

Além disso, apresento três passos para orientar o início de sua prática de LA. Por fim, indico três leituras sobre o assunto.

Bora?

Leitura atenta para romper o bloqueio criativo

Estava completamente travada na escrita.

Queria olhar a ocupação Vale do Sol, esse lugar fictício onde se passa minha história, com a perspectiva de um drone.

Como a ocupação acorda? Quais são os movimentos?

Desenhei um croqui mal acabado. Mas não foi suficiente.

Foi aí que me lembrei de Francine Prose: leitura atenta. Mas onde eu poderia beber? Quem poderia me dar essa aula de movimento e descrição dinâmicos?

Aluísio Azevedo em O Cortiço, com certeza!

Foto: Acervo pessoal/Mariana Mendes

Eu havia lido esse livro em algum momento e agora ele seria minha salvação em meio a esse bloqueio maldito.

Nos primeiros dois capítulos, o autor apresenta a história daquela moradia popular precária, conta como ela foi construída pelo português de ética duvidosa e como passou a ser ocupada por aquela gente.

E, no capítulo III, é onde ele mostra o cortiço acordando. Há movimento, uma construção narrativa que leva até o ápice da efervescência.

Perfeito. Decidi fazer a leitura atenta deste trecho: o capítulo III.

Peguei meu exemplar de vestibulando, aquele mastigadinho, com o significado das palavras difíceis no rodapé de cada página.

Li palavra por palavra. Parágrafo por parágrafo. Com calma.

E anotei minhas impressões sobre quais elementos narrativos foram usados pelo autor. Sublinhei os termos que se destacaram de alguma forma.

Foto: Acervo pessoal/Mariana Mendes

Observando as palavras

Foi um estudo mesmo. E agora vou descrever algumas de minhas impressões sobre esse capítulo, enquanto aproveito para exemplificar uma leitura atenta.

Se puder, pegue um exemplar que tiver aí na sua casa ou baixe um pdf no site do Domínio Público.

Tudo pronto? Então, vamos lá!

Na primeira frase, Aluísio já dá pistas sobre a premissa do capítulo, – que é central para o livro, – logo de cara:

“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.”

O Cortiço.

Aluísio começa o texto sugerindo, sem querer querendo, que o Cortiço é um ser. Ele faz um jogo para que isso não fique tão evidente quando afirma que “o cortiço acordava”, como um ser vivo, mas não abria seus olhos. Ele dá a entender que o cortiço é um ser que tem janelas e portas no lugar dos olhos. É uma afirmação poética até. Mas o pulo do gato está na forma como ele apenas deixa isso no ar. São pistas, entende? Elas criam o mistério do texto. E sua magia também.

No parágrafo seguinte:

“Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.”

O Cortiço.

Veja que o acordar é geral, não diz respeito a alguém em especial. É o conjunto do acordar de cada ser que compõe o todo. Ele está tomando o próprio cortiço como um personagem, formado por seus residentes, que criam em conjunto um certo organismo.

O sono é pesado, sono breve e profundo possível apenas aos que se cansam muito. E se cansam também porque ficaram até tarde em festa e dela sentem saudade.

A “luz loura e tenra da aurora” evoca a visão.

“A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.”

O Cortiço.

Aqui o autor começa a evocar cada vez mais nossos sentidos. Ele cria imagens e cheiros. O “farto acre de sabão ordinário” ocupa nosso imaginário e nós caminhamos com ele sobre o chão de pedras grisalhas. Nesse ponto já adentramos completamente no cortiço e começamos a observá-lo mais de perto.

O autor continua evocando os quatro sentidos na construção do texto: visão, olfato, audição, tato. São seis parágrafos de olhar amplo, só pegando movimentos e sensações. E você sente o texto crescer, da sonolência à efervescência, criando, mais uma vez, essa sensação do cortiço como um coletivo composto de suas partes.

O autor dá sugestões: “zunzum crescente”, “o rumor crescia”, “já se não falava, gritava-se”. Inclusive ele fala sobre o zunzum duas vezes, será uma referência a uma colmeia?

Note como ele utiliza termos específicos que remetem a uma caracterização animalesca: “alto do casco”, “fossando e fungando” e “despachavam-se ali mesmo” no parágrafo 5. E no sexto ele diz coisas como: “gula viçosa de plantas rasteiras” e “o prazer animal de existir”.

E crescendo, crescendo. Até que “o zunzum chegou ao seu apogeu”. Os sons do cortiço, da estalagem e da vizinhança se reunem. É um rugido, dá para sentir.

No sétimo parágrafo surge uma personagem, um diálogo pincelado. E então ele começa a apresentação dos moradores e termina com o “frege” no horário de almoço na estalagem do português safado.

Leia mais >> Notas sobre O Cortiço: a ressonância dos dias atuais

Além do texto em si

Aluísio fez visitas a cortiços no Rio de Janeiro como parte da pesquisa desse livro. Isso se torna perceptível não apenas pela descrição vívida, mas também pelo olhar do narrador.

Parece uma excursão, uma visita. Não nos sentimos parte, sentimos que somos diferentes, apartados. Mais do que isso: a voz narrativa objetiva nos coloca em um patamar elevado em relação àquela gente. E podemos refletir sobre a objetificação da voz narrativa… E sobre o lugar a partir do qual Aluísio de Azevedo escrevia.

Ele, um homem branco, que embora não fosse rico, era filho de portugueses, aprendeu francês em casa com a mãe e cujo pai comprava os lançamentos de literatura francesa logo após os lançamento e fundou o Gabinete de Leitura no Maranhão.

Aluísio Azevedo

Observar isso é importante para pegar nuances e manter uma perspectiva crítica em relação ao que se lê. Entenda: não é sobre cancelar, condenar ou deslegitimar. É sobre aprofundar nossas leituras.

Enfim, depois desse estudo, consegui engatar na escrita do primeiro capítulo da terceira parte do meu romance.

Aprendi com o mestre e tentei, espertinha que sou, dar meus pulos.

Pequeno roteiro para uma leitura atenta

Não há um passo a passo específico para uma leitura atenta. As etapas a seguir são para dar um norte a quem quer começar.

Falando em começar, indico que aplique essas etapas primeiramente em textos menores, como contos ou poemas.

Quando for pegar um texto mais longo, sugiro fazer a LA por capítulos ou por trechos. Isso vai te ajudar a não se perder.

Já vou avisando que a leitura atenta é um recurso muito interessante para se aprofundar em um texto. Principalmente aqueles que você já leu, gostou e quer aprender com eles.

1. PRIMEIRA LEITURA: PRINCIPAIS IDEIAS E IMPRESSÕES

Defina o objetivo da leitura. Isso é essencial. O que você quer aprender com esse mestre? Quais ferramentas você quer observar?

Seu objetivo pode ser bem específico, como encontrar formas de criar um fluxo de consciência, por exemplo. Mas também pode ser algo mais impreciso, partindo de uma pergunta: Como o autor cria a sensação de vertigem nesse texto?

Não perca seu objetivo de vista. Faça anotações, grife o que achar importante, o que se destacar ou gerar dúvidas.

2. SEGUNDA LEITURA: PERCEPÇÃO E IDENTIFICAÇÃO

Após a primeira leitura, dê um tempo para relaxar. Você pode fazer uma caminhada, comer alguma coisa ou tomar um banho. Em seguida, retorne às suas anotações e busque os pontos essenciais que você observou no texto.

Comece, então, a segunda leitura. Esse é o momento de perceber nuances, observar com calma e identificar elementos que contribuem para o efeito que o texto causa e constituem a técnica utilizada.

Nesse momento, escreva sobre o que o texto te faz sentir, pode ser uma lista de sentimentos em sequência. Escreva sobre os elementos utilizados pelo autor.

O que está escrito nas palavras e o que está nas entrelinhas?

Após as duas leituras, você pode buscar referências diferentes sobre as técnicas utilizadas pela pessoa que escreveu o texto. Assim como ler um pouco sobre o contexto em que foi escrito, bem como a biografia ou entrevistas com a pessoa que escreveu.

Isso pode te ajudar a fazer a imersão da terceira leitura.

3. TERCEIRA LEITURA: IMERSÃO E INVESTIGAÇÃO

A terceira leitura é o momento de imersão mais profunda no texto e investigação dos mecanismos técnicos utilizados.

A partir de suas anotações e trechos grifados, faça a releitura do texto e observe:

  • Como o texto constrói o efeito que ele causa?
  • Observe a escolha das palavras, a pontuação que produz o ritmo e a ordem em que os acontecimentos se apresentam.
  • Tente mapear a engenharia por trás do texto.

Anote livremente suas suposições, impressões, ideias sobre as técnicas utilizadas pelo autor e tudo o mais que for útil para você.

Três referências para ajudar você com a leitura atenta

A primeira referência que indico é a mais simples e rápida: um artigo em inglês, mas dá para ativar o próprio tradutor do navegador e ler tranquilamente.

A segunda é a mais aprofundada sobre o assunto que temos em português, até onde sei: Para Ler como um escritor, de Francine Prose.

Francine Prose

O livro é um curso de leitura atenta, que nos ensina a observar o texto palavra por palavra, frase por frase, parágrafo por parágrafo, capítulo por capítulo. E muito mais.

O único problema desse livro, a meu ver, é a insistência da autora de colocar a leitura atenta em um campo oposto à análise crítica do texto em relação ao contexto histórico, relações políticas e situações sociais.

Entendo que na academia essas duas formas de ler e interpretar textos têm seus atritos. Mas, como escritora, vejo que a questão vai além de uma polarização simplista.

Ao escrever, a pessoa se responsabiliza pela estética da linguagem e pelas técnicas que utiliza para causar determinado efeito. Ao mesmo tempo existe também uma responsabilidade política e social sobre como essa pessoa aborda questões essenciais para a sociedade.

Uma coisa não exclui a outra. Afinal, quem lê um livro contemporâneo, lê também a sociedade em que se vive. Pensando nessa questão, indico a terceira referência: A importância do ato de ler, de Paulo Freire.

Paulo Freire

Embora o autor esteja focado em falar sobre o processo de alfabetização, há um aspecto de sua explicação que pode ser muito valiosa para quem escreve.

Ao abordar o ato de ler, Paulo Freire conta que tal atividade vai além das palavras que estão no texto. Na verdade, antes mesmo que uma pessoa aprenda a ler e escrever, ela já sabe ler o mundo ao seu redor.

Assim, quando se lê um texto, essa leitura de palavras se relaciona com a leitura do mundo. São coisas indissociáveis.
Igualmente o ato de escrever. Ao escrever sua história, você também escreve sobre o mundo em que vive.

E ao ler ou escrever uma história, precisamos ter isso em mente.

Espero que esse artigo tenha te ajudado. Fique à vontade para escrever nos comentários sobre suas experiências com a leitura atenta. Aceito de tudo: dúvidas, desabafo, críticas, etc.

Leia mais >> 10 trechos do livro Pedagogia do Oprimido e a importância de Paulo Freire