Criação de personagem: 6 textos básicos para se aprofundar

A criação de personagem é um tema essencial para quem deseja escrever literatura, afinal, esse ser construído por meio das palavras é o coração da história. 

De acordo com Assis Brasil, escritor e professor de escrita, o personagem deve ser irradiador da narrativa. Essa ideia também aparece em um texto do crítico literário Antonio Candido e no livro clássico de E. M. Forster, em que o escritor inglês afirma: “a personagem é tudo”.

Então, se você quer escrever boas histórias, é importante criar personagens consistentes, que geram identificação no leitor e, ao mesmo tempo, não reproduzam clichês e preconceitos.

Neste post, vou apresentar alguns caminhos para quem deseja escrever ficção e também compartilhar a bibliografia básica que estudei para aprofundar neste tema.

Criação de personagem: Por onde começar?

Para se tornar um criador competente de personagens, você precisa de 3 práticas cotidianas: ler, treinar e estudar.

1. Leitura

A leitura é necessária para conhecer diferentes tipos de personagens e observar como escritores  memoráveis usaram técnicas diversas para construir essas figuras ficcionais marcantes. 

Por isso, leia de tudo um pouco. Quando encontrar um autor ou um gênero mais atraente, que gera mais curiosidade e desejo, se entregue e devore tudo que encontrar.

Inclusive, também é recomendável ler literatura contemporânea para entender as técnicas mais utilizadas atualmente.

2. Treino

Para treinar, você precisa dedicar tempo à escrita. E neste caso não existe fórmula mágica, o jeito é encontrar o que melhor se encaixa na sua realidade.

Para mim, em cada projeto existe um ciclo de criação com uma etapa de estudo, pesquisa, planejamento; outra etapa com o processo de escrita; e outra de revisão e reescrita (este último costuma ser o mais longo). Às vezes vou e volto no ciclo, de acordo com as demandas da criação.

Mas esta é a minha forma de lidar com a escrita literária. Você pode, e deve, trilhar seu próprio caminho. 

3. Estudo

Deixei o estudo por último na lista, mas ele é tão importante quanto os demais itens, viu? 

Estudar livros que tratam sobre assuntos específicos dentro do universo da escrita vai ajudar você a encontrar direcionamento nos períodos mais confusos do processo criativo.

Sem contar que pode ser uma alternativa viável para quem não tem dinheiro para pagar por cursos e oficinas on-line; não tem acesso a cursos e oficinas gratuitas em sua cidade; ou tem dificuldade de participar de eventos presenciais por diversos motivos.

E aqui vou compartilhar com você os melhores livros que encontrei sobre criação de personagens na ficção. 

Alguns destes títulos são voltados para a crítica literária, com uma boa dose de teoria. Pode ser meio chato no começo, mas depois vai render muitas ideias e soluções na hora de criar personagens. Vale a pena, vai por mim.

1. Escrever ficção: Um manual de criação literária, por Luiz Antonio Assis Brasil

Este livro foi escrito por Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor e professor com mais de 30 anos de experiência na Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e também no programa de pós-graduação em escrita criativa na mesma instituição.

O livro toca vários temas, mas possui um capítulo inteiro dedicado à questão da personagem e sua criação. 

No restante do livro, o autor vira e mexe retorna a questão da personagem, pois, como já citei anteriormente, Assis defende a ideia de que esta é a figura irradiadora da narrativa. Neste sentido, para o livro funcionar, a personagem central precisa funcionar.

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2. A personagem, por Beth Brait

Beth Brait é doutora e livre-docente em linguística pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS).

Este livro é mais voltado para a introdução à teoria literária do que para a criação de fato. Porém, indico a leitura dele porque apresenta um apanhado histórico sobre a criação de personagens desde Aristóteles até muito recentemente.

Sem contar que no final há um capítulo chamado: “De onde vêm esses seres?”, no qual 12 escritores brasileiros compartilham um pouco sobre seu processo de criação de personagens. 

3. A personagem de ficção, vários autores

Este livro é bem teórico. Resultado de atividades realizadas na Universidade  de São Paulo (USP) em meados dos anos 1960, na qual acadêmicos da literatura, teatro e cinema falaram sobre o personagem, é uma leitura importante para aprender sobre técnicas e também para começar a compreender como a crítica recebe obras artísticas.

Em especial, indico o texto de Antonio Candido, A personagem do Romance, onde é possível ver pontos de referência comuns a várias vertentes da criação literária.

Caso você não conheça, Antonio Candido (1918-2017) era sociólogo, foi crítico literário e professor universitário. Se eu fosse você, ia procurar saber mais sobre esse velhinho.

4. O herói, de Flávio R. Kothe

Amo quando não dou nada para um livro e ele me surpreende positivamente. Esse é um deles.  Uma pepita dourada do bom e velho garimpo em sebos.

Não é voltado para quem escreve, mas seu poder de síntese pode ser muito útil para quem deseja escrever.

É bastante centrado na literatura grega, parte dessas obras para trabalhar conceitos. Apesar dessa limitação eurocêntrica, entrega o que promete: um belo catadão dos tipos de heróis que compõem a ficção (ocidental) desde a clássica até outras do século passado.

A perspectiva do autor pode gerar estranhamento no começo, mas a forma como ele explica o enredo a partir das tensões sociais e pessoais do herói é valiosa.

Flávio R. Kothe é professor na Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada.

5. Aspectos do romance, de E. M. Forster 

Você já ouviu falar daquela classificação entre personagens planos e personagens esféricos? 

Pois é, quem criou essa analogia foi o nosso amigão Forster.

A edição que li é antiga, não sei se há novas, mas é possível que você encontre as partes 3 e 4 em PDF por aí. É nesse trecho do livro que ele trata sobre o tema dos personagens. 

Ele fala sobre as personagens planas e redondas, mas vai além disso: comenta sobre as peculiaridades da personagem de ficção em relação às pessoas reais, também comenta sobre o processo de criação e cita alguns livros como exemplo.

Um clássico desses é sempre bom ler para conhecer a ideia além do que a gente pegou de orelhada, não é mesmo?

E. M. Forster (1879 – 1970) foi um romancista inglês, estudou letras clássicas e história em Cambridge. Lançou  cinco romances e depois se dedicou à crítica literária.

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6. A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004, de Regina Dalcastagnè

Esse artigo é muito importante para a formação de escritores e escritoras no Brasil. Não é sobre técnica exatamente, mas também não se trata de um manual sobre teoria literária. Ele é muito mais importante que isso.

Regina Dalcastagnè é escritora, pesquisadora e crítica literária. Doutora em teoria literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professora titular da Universidade de Brasília (UnB).

Seu artigo apresenta e discute uma pesquisa sobre mais de 250 romances de autores brasileiros publicados pelas três mais importantes editoras do país (Companhia das Letras, Rocco e Record)  entre 1990 e 2004. 

Os dados mostram que o romance brasileiro contemporâneo possui uma representação muito restrita. Com personagens, em sua maioria, brancas, do sexo masculino e das classes médias, tais obras, quando apresentam outros grupos, o fazem reproduzindo estereótipos. 

Enquanto as mulheres brancas aparecem como donas-de-casa; as negras, como empregadas domésticas ou prostitutas; os homens negros, como bandidos. 

Embora não seja um texto sobre técnicas de escrita, ele será vital para você refletir sobre o que quer escrever e também sobre quais padrões de exclusão da sociedade brasileira a produção literária reproduz sem sequer notar.

O artigo está disponível em PDF gratuitamente no acervo eletrônico da Universidade de Brasília (UnB).

Para quem deseja ir mais a fundo nas reflexões sobre essa e outras temáticas cruciais para nossa produção literária brasileira, confira o livro Literatura Brasileira Contemporânea: Um território Contestado.

E aí, o que você achou desse listão? Dá pro gasto? Se você gostou, compartilhe com outras pessoas, vamos fazer essas referências circularem! 

E caso tenha mais referências sobre criação de personagem para enriquecer nossa bibliografia básica, coloque nos comentários: prometo ler as indicações para ampliar nossa lista aos poucos.

Veja outros textos aqui na L&C sobre personagens:

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