A lembrança não é tão distante, mas por diversas vezes, ao iniciar um papo sobre literatura com pessoas mais velhas, era muito comum o assunto sobre clubes de livros. O mais conhecido era o Círculo do Livro. Um esquema muito parecido com os clubes de hoje: pague um valor mensal e receba em sua casa um livro novo! E as pessoas que comentaram isso comigo, ao longo dos últimos anos, tinham um brilho no olhar, um suspiro profundo de nostalgia.

    Hoje em dia, há diversos clubes de livros espalhados por aí, com diversas temáticas, para jovens, adultos, crianças e até nichos mais específicos, como aqueles que só mandam livros inéditos ou apenas de autoras.

    Por um certo período, eu considerei a proposta muito boa, uma vez que sabemos das dificuldades de espalhar o hábito da leitura por aí. É uma iniciativa muito válida, porém, algumas coisas neste meio me incomodam profundamente.

    Recentemente, assisti a uma palestra de Marilena Chauí. O assunto era sobre a vida digital e o quanto, por meio das redes e todo o capitalismo que a cerca, somos tirados de nossas identidades (mesmo que opostas ao consumo excessivo) ao ponto de sermos meros instrumentos de propaganda – de um produto ou de si próprio.

    Assim, no universo dos livros, infelizmente, é possível perceber essa descaracterização, pois, de repente, mostrar-se como um leitor passa a ser mais importante do que realizar a deliciosa tarefa de se tornar um leitor.

    A formação do leitor

    A formação de um leitor é um caminho longo e delicioso que passa por diversas etapas. Um encantamento, um interesse, uma pesquisa, um livro lido ali, outro acolá. As dúvidas, as incertezas, as frustrações e a libertação quando se encontra algum livro que ilumina (ou mostra quanto há de escuridão à nossa volta, já dizia um poeta). E todos esses processos são de extrema importância, mas considero um muito especial, que é, justamente, a busca pelo livro ideal, pelo livro que se quer ler – na livraria, em um site, com os amigos, acessando outras artes etc. E neste sentido, os clubes de livros chegaram para transformar essa tarefa tão rica e importante na formação do leitor em uma terceirização de suas escolhas.

    Virginia Woolf escreveu diversos artigos sobre a leitura e o leitor. No texto “Horas na biblioteca” (presente no livro “A leitora incomum“), ela comenta sobre a construção do leitor. De suas escolhas de quando se é um jovem leitor e as transformações a qual ele passa conforme o passar do tempo. Então, ao assinar um clube de livros, é muito importante que o leitor não use apenas este formato para chegar em suas leituras. O universo literário é muito rico para ficar preso apenas em uma fonte. Ir à livraria, à biblioteca, ler artigos, ver vídeos de diversos canais e pedir dicas para amigos são ações que contribuem para a autonomia de um leitor.

    Não podemos deixar que, de repente, a leitura se transforme em mais um produto do capital. Terceirizando nossas escolhas, podemos nos sentir como os livros distópicos que mostram pessoas em diversas situações confortáveis, mas sem autonomia, como robôs, iludidas pela felicidade plástica.

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