20 frases do livro Mrs. Dalloway (Virginia Woolf)

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As frases do livro Mrs. Dalloway, da escritora inglesa Virginia Woolf, selecionadas aqui fazem parte da minha longa lista de momentos mais especiais da leitura. Elas foram retiradas da primeira leitura que fiz.
Durante a organização deste post descobri outra lindas frases, o que me fez perceber que cada leitura revela outras, pois o quanto mais atento o nosso olhar, mais belas citações encontramos. Então, vamos lá para as 20 frases do livro Mrs. Dalloway :

Referência: Frases do livro Mrs. Dalloway, tradução de Mário Quintana. Editora Nova Fronteira.

frases do livro Mrs. Dalloway
Há várias edições do livro disponíveis no Brasil. Conheça algumas delas aqui: A minha coleção Mrs. Dalloway

Sentia-se muito jovem; e, ao mesmo tempo, indizivelmente velha. Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse. (p. 12)

 Mas recordar, todos recordavam; o que ela amava era isto, aqui, agora, na sua frente; a senhora gorda no carro. Importava então, indagava consigo, encaminhando-se para Bond Street, importava mesmo que tivesse de desaparecer um dia, inevitavelmente? Tudo aquilo continuava sem ela. Sentia-o? Ou seria um consolo pensar que a morte acabava com tudo, absolutamente? (p. 12) 

Horrível, pensava, adivinhar mover-se nela aquele monstro brutal! ouvir ramos estralejando e sentir aqueles cascos nas profundezas dessa floresta cheia de folhas, a alma; nunca estar inteiramente alegre, nem inteiramente segura, pois a qualquer momento o animal podia estar movendo-se; ódio que, especialmente depois da sua doença, fazia-lhe sentir um doloroso arrepio na espinha; causava-lhe uma dor física, todo o prazer da beleza, da amizade, do bem-estar, de sentir-se amada, de tornar a casa deliciosamente acolhedora, tudo vacilava e pendia, como se na verdade houvesse um monstro a roer as raízes, como se toda a panóplia do contentamento não fosse mais que amor próprio! e aquele ódio! (p. 16)

 Mas não, Septimus não se mataria; e ela não podia falar com ninguém. “Septimus tem trabalhado em demasia” – era a única coisa que podia dizer, à sua própria mãe. O amor torna a gente solitária, pensou. (p. 25)

 Rosas, pensou, sarcasticamente. Bobagens, minha cara, Pois em verdade quando se tem de beber comer e deitar, tanto nos bons como nos mais dias, a vida não tem nada a ver com rosas. (p. 30)

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 Via o que lhe faltava. Não era beleza; não era inteligência. Era essa coisa central, que se comunica; alguma coisa de cálido que quebra a superfície e encrespa o frio contato de homens e mulheres, ou de mulheres entre si. (p. 34)

A verdade é que às vezes não podia resistir ao encanto de uma mulher, não de uma menina, de uma mulher que lhe confessava, como às vezes acontecia, alguma aventura, algum deslize. Ou fosse por piedade, ou pela beleza, ou por ser mais velha que a outra, ou por algum acidente fortuito – como um suave perfume, ou um violino na sala próxima (tão estranho é o poder do som em certos momentos), ela então sentia indubitavelmente o que os homens sentem. Só por um momento; mas era bastante. Era uma súbita revelação, como um rubor que se quisesse deter, mas a quem a gente se abandonasse, sentindo-o estender-se; e vai-se até o último limite, e tem-se uma vertigem, e sente-se que o mundo se aproxima carregado de assombrosas significações; um concentrado êxtase que oprime, até que enfim se rompe, derramando-se com extraordinário alívio sobre as dores e as chagas! (p. 34)

 Assim, num dia de verão, as ondas se juntam, balançam e tombam; e o mundo inteiro parece dizer: “Isso é tudo”, cada vez mais forte, até que o coração, no corpo estendido sob o sol da praia, também diz: “Isso é tudo”. “Não mais temas”, diz o coração. “Não mais temas”, diz o coração, confiando a sua carga a algum mar que suspira coletivamente por todas as dores, e recomeça, ergue-se, tomba. E o corpo sozinho ouve a abelha que passa; a onda se quebra; o cão, lá ao longe, ladrando, ladrando… (p. 41)

 Como uma nuvem que atravessa o sol, o silêncio caiu sobre Londres, e caiu sobre o espírito. Todo esforço é findo. Pende o tempo, do mastro. Rígido, somente o esqueleto do hábito sustenta a forma humana. E onde não há nada, disse Peter Walsh para si mesmo; o sentimento escava-se, oco, completamente oco. (p. 51)

 Bem, diverti-me; sempre foi alguma coisa, pensou, olhando para os oscilantes vasos de pálidos gerânios. Um prazer desfeito em pó, pois era meio inventado, como muito bem o sabia; inventada aquela aventura com a moça; fabricada, como se fabrica a melhor parte da vida, pensou – como a gente se fabrica a si mesmo; a vida; como se inventa uma deliciosa diversão, e qualquer coisa mais. Era esquisito, e inteiramente verdade; tudo o que não se podia compartilhar… esvaía-se em pó. (p. 55 e 56)

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O fumo do bom charuto penetrou-lhe friamente a garganta; ele o expeliu, em anéis que afrontaram bravamente o ar, por um momento; azuis, circulares […], começaram depois a ondear, a esvair-se; que esquisitas formas vão tomando, pensou. De súbito fechou os olhos, ergueu a mão com grande esforço, e lançou longe a ponta do charuto. Um grande sopro atravessou-lhe a mente, varrendo ramos trêmulos, vozes de crianças, o rumor dos passos, a gente que passava, o tráfego, que crescia e decrescia. Tombou entre as plumas e as penas do sono, afundou-se, sumiu-se. (p. 57)

 Foi uma noite horrível! Ele se tornou cada vez mais sombrio, não por causa daquilo, apenas; por causa de tudo. E não podia vê-la; não podia explicar-se com ela; não podia esclarecer nada. Sempre havia gente… e ela continuava como se nada houvesse acontecido. Esse era o seu lado diabólico – aquela frieza, aquela dureza, algo de muito profundo que ele de novo sentira naquela manhã, ao falar-lhe; aquela impenetrabilidade. Mas Deus sabia como ele a amava. Tinha ela o estranho poder de vibrar os nervos da gente, como se fossem cordas, sim. (p. 61)

 A verdade é que os seres humanos não têm bondade, nem fé, nem caridade, senão o necessário para aumentar o prazer do momento. Caçam em matilhas. Suas matilhas percorrem o deserto e dispersam-se, ladrando, pelos ermos. Abandonam os que tombam. Estão caiados, disfarçados. (p. 87)

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 De modo que não havia mesmo desculpa; não tinha absolutamente nada, exceto o pecado pelo qual a natureza humana o condenava à morte, o pecado de não sentir. (p. 89)

 (…) – este é um privilégio da solidão: pode a gente fazer o que bem nos parece. Pode-se até chorar, se ninguém está olhando. Essa impressionabilidade, tal fora o seu mal na sociedade anglo-indiana: sempre chorava, ou ria, no momento inadequado. Tenho alguma coisa em mim, pensou, parado junto à caixa postal, que poderia agora dissolver-se em lágrimas. (p. 146)

 Clarissa tinha então uma teoria – tinham ambos montões de teorias, sempre teorias, como todos os jovens as têm. Era para explicar aquele sentimento de insatisfação por não conhecerem as outras pessoas, por não serem conhecidos. Pois como poderiam conhecer-se? Encontravam-se um dia, outro dia; depois não se avistavam durante meses, anos. Era lamentável, convinham, o pouco que as pessoas se conheciam umas às outras. Mas Clarissa dizia, no ônibus da Shaftesbury Avenue, que se sentia em toda parte; não “aqui, aqui, aqui”; e batia nas costas do banco; mas em toda parte. Estendia a mão, enquanto corriam pela Shaftesbury Avenue. Ela era tudo aquilo. De modo que para conhecê-la ou a qualquer outra pessoa, era só procurar a gente que fosse o seu complemento; a gente, e também os lugares. Tinha estranhas afinidades com gente a quem nunca falara, esta mulher na rua, aquele homem atrás de um balcão – até mesmo com árvores, ou galpões. O que tudo redundava numa transcendental teoria que, combinada com seu terror à morte, a induzira a acreditar, ou a dizer que acreditava (pois era toda ceticismo), que, sendo tão momentâneas as nossas aparições, a nossa parte invisível, em comparação com a outra, a que não se mostrava, mas que era tão extensa, talvez esse invisível “eu” sobrevivesse, se refizesse de algum modo, ligado a esta ou aquela pessoa, ou mesmo frequentando certos lugares, após a morte. Talvez…

 Considerando aquela longa amizade de quase trinta anos, dir-se-ia confirmada a teoria de Clarissa. Por breves que fossem os seus reais encontros, breves, acidentados, e até constrangedores, com todas as ausências e interrupções (naquela manhã, por exemplo, justamente quando estava começando a falar a Clarissa, entrara Elisabeth, como uma potranca de pernas altas, bela silenciosa), o efeito que haviam tido na vida dela era, de fato, incomensurável. Havia um mistério naquilo. Recebia-se uma dura, amarga, desagradável semente (aqueles encontros tão penosos às vezes); mas eis que, nos mais imprevistos lugares, aquilo floria, abria-se, aromava, deixava-se tocar, depois de jazer longos anos perdidos. (p. 147/148)

Pois esta é a verdade sobre a nossa alma, pensou ele, sobre o nosso eu, que habita, como um peixe, os mares profundos, e navega nas trevas buscando caminho entre as algas gigantes, atravessa espaços filtrados de sol e remergulha na escuridão gelada, abismal, imperscrutável: ei-lo que de súbito emerge a superfície e salta sobre as ondas crespas de vento; isto é, sente uma absoluta necessidade de contatos, de animar-se, de entrar em comunicação… (p. 155)

Cessou então a fria corrente das impressões visuais, como se o olho fosse uma taça que transbordasse, deixando despreocupadamente cair o resto ao longo das suas paredes de porcelana. O cérebro devia despertar agora. O corpo devia agora retesar-se, entrar na casa, a casa iluminada, cujas portas estavam abertas, onde se detinham automóveis e desciam brilhantes mulheres; a alma devia preparar-se para afrontar tudo aquilo. Ele abriu a larga lâmina do canivete. (p. 158)

A morte era um desafio. A morte era uma tentativa de união ante a impossibilidade de alcançar esse centro que nos escapa; o que nos é próximo se afasta; todo entusiasmo desaparece; fica-se completamente só… Havia um enlace, um abraço, na morte. (p. 177)

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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