Uma obra que ultrapassa os limites da linguagem e da forma
A paixão segundo G.H. (1964) é, sem dúvida, uma das obras mais enigmáticas, poéticas e profundamente filosóficas da escritora Clarice Lispector. Neste romance, não há enredo tradicional, tampouco personagens que se movem num tempo externo. Tudo se passa dentro de um quarto, de um guarda-roupa, e — sobretudo — dentro da consciência de uma mulher em crise.
G.H., a narradora sem nome completo, apenas iniciais, vive uma espécie de epifania íntima, visceral e espiritual ao encontrar uma barata no armário do quarto de serviço da empregada recém-demitida. Esse encontro com o inseto desperta nela uma série de reflexões existenciais, que vão desde o asco ao sublime, da identidade à despersonalização, da matéria à transcendência.
Clarice conduz o leitor por essa travessia psíquica e filosófica com uma linguagem que não explica — experimenta. A leitura exige entrega e presença. É um livro para ser sentido mais do que compreendido, onde o tempo se dilata e a realidade se curva às leis do pensamento.

A narrativa: o instante esticado até o infinito
Um dos maiores trunfos de Clarice Lispector neste romance é seu domínio absoluto sobre o tempo narrativo. Em A paixão segundo G.H., um único momento se expande em quase duzentas páginas. O gesto de abrir um armário e encontrar uma barata morta se transforma no estopim de uma experiência mística e existencial.
Esse tempo dilatado se aproxima da noção de “tempo interior” desenvolvida por autores como Virginia Woolf e Marcel Proust, mas com um toque único de Clarice: uma linguagem que se desmancha e se reconstrói constantemente, em busca de algo que ainda não foi dito.
O simbolismo da barata: matéria, vida e divino
A barata é o grande símbolo da obra. Representa o que há de mais primitivo, mais repulsivo e, paradoxalmente, mais próximo da origem da vida. G.H., ao encarar o creme branco que sai da barata esmagada, revive sua própria animalidade, sua existência nua e crua, seu corpo antes da linguagem.
Ao final do romance, temos um grande rito de passagem (somente lendo para compreender sua dimensão). Há um gesto que é, ao mesmo tempo, transgressor e sagrado:
“O divino para mim é o real” — diz G.H. (cap. 30)
Kafka e Clarice: metamorfoses do ser
A presença da barata inevitavelmente remete ao clássico “A Metamorfose“, de Franz Kafka, onde o personagem Gregor Samsa acorda transformado num inseto. Em Clarice, o processo se dá no sentido oposto: é a personagem humana que se aproxima da barata, que busca entender-se através dela.
Ambas as obras exploram o limite entre o humano e o inumano, o corpo e a consciência, mas Clarice vai além ao nos colocar dentro da mente da protagonista — e não de sua transformação física, mas ontológica.
A paixão e a despersonalização
Ao longo da narrativa, G.H. vive uma verdadeira paixão mística, uma entrega absoluta a algo que não tem nome, forma ou sentido convencional. É uma paixão que a despersonaliza. Ela perde seu nome, suas referências sociais, sua identidade de mulher branca, rica, artista. Tudo se dissolve na experiência de ser viva.
“A despersonalização como a grande objetivação de si mesmo. […] Toda mulher é a mulher de todas as mulheres.” (cap. 32)
Essa epifania do nada, como muitos leitores chamam, revela um processo profundo de descentralização do ego. G.H. não quer mais a beleza, quer a identidade das coisas, sua essência crua.
O real como matéria divina
Clarice transforma o real — aquilo que é comum, banal, desprezado — em matéria poética e sagrada. A barata, o leite materno, o sangue, a saliva, o deserto, tudo vira símbolo do inefável, do que escapa à linguagem.
“A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou usá-la” (cap. 32)
G.H. entende que a vida não precisa ter um sentido grandioso, mas que o sentido está exatamente em sua insipidez pungente, no gesto simples de existir, na dor pequena, no riso embaraçado.
Um livro para sentir, não para entender
Clarice avisa já nos primeiros capítulos — e reforça no último — que este não é um livro para se entender. Não se trata de resolver um mistério, mas de vivê-lo. De se deixar tocar por algo que nos escapa.
“Oh Deus, eu me sentia batizada pelo mundo. Eu botara na boca a matéria de uma barata, e enfim realizara o ato ínfimo.” (cap. 33)
Esse “ato ínfimo” é, para Clarice, a maior prova de humanidade.
Por que ler A paixão segundo G.H.?
Se você busca um livro com começo, meio e fim — fuja. Mas se deseja se confrontar com a linguagem, com o sentido da vida, com sua própria condição humana, então este romance é para você.
Clarice Lispector não nos entrega um romance, ela nos entrega uma experiência transcendental. Um espelho escuro onde somos obrigados a ver nossos próprios reflexos distorcidos, com medo, com vergonha, mas também com um amor que ultrapassa o nome e a forma.
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