Kitchen (Banana Yoshimoto)

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O livro Kitchen expõe aquelas sensações inomináveis em palavras comuns, frases rápidas, delicadas. Todas as palavras de Yoshimoto pairam ao redor do corpo que lê e desentende o que sente.

Kitchen (Banana Yoshimoto): Uma Resenha-Crônica

Quando a minha avó morreu, e a notícia chegou através da interferência chiada da ligação telefônica (a voz do além, pensei), eu estava dentro de um ônibus, preso a uma viagem curta. A dor instalada movia-se comigo. Não tínhamos mais ponto fixo, perdemos o chão, eu e a dor. A morte, que já avançava há dias, rápida, caiu sobre a minha família como uma carga extra. Eu pensava que vovó nunca morreria. Ou que quando ela morresse, eu estaria dentro de casa, no meu quarto da infância, que se comunicava com o quarto dela por um vão de uma porta que não era porta. Pensava que quando ela morresse, eu receberia a notícia na cozinha, aquele lugar em que aprendi a fritar ovo e preparar tapioca e cuscuz, sob a observação parcimoniosa dos olhos climatizados dela.

Vovó não morreu em casa, e, sim, no hospital. E fui encarregado de chegar primeiro e executar o exorcismo da sujeira de muitos dias na casa inteira, que é imensa. Liguei para uma tia e amigos da família. O último pedaço da casa a ser limpo por completo foi a cozinha. Durante muitos anos, lá foi o ambiente preferido da minha avó e intocado por qualquer outra pessoa. Só ela sabia fazer tudo funcionar lá dentro. Os temperos fritavam no óleo fumegante, o vapor vagava pelo espaço à frente de nós sinalizando uma libertação novata, uma cortina de neblina temperada nos cegava momentaneamente e minha avó balbuciava algumas orações, abençoando o que nos faria mais forte.

A morte dela chegou como um aviso, um pouco exagerado, mas um lembrete: O amor não é capaz de morrer de repente. Fiquei horas inteiras sentado à mesa de jantar esperando algo acontecer, aguardando o reverso da morte. O café preto vibrando em ondas sonolentas dentro da xícara, dentro das minhas mãos trêmulas, queimando as pupilas embaçadas. Eu disse: Se uma colher cair, sozinha, vovó voltará. Nada naquela cozinha ousou me mover. Apenas vovó sabia fazer todo funcionar ali dentro.

Quando li Kitchen, da Banana Yoshimoto, pela primeira vez, vovó ainda estava viva. Na terceira leitura, vovó já vivia sua terceira morte (Todo ano é como se a saudade a matasse de novo pela primeira vez).

Todo livro oferta um lugar novo que transforma o entendimento do mundo. Sei cada vez menos a cada vez que leio um livro. Quase nunca tenho resposta para quase tudo. Em mim, no espaço que se relaciona com os outros, tudo que julguei saber um dia se desfaz, refaz, e luta para não continuar o mesmo.

Não tenho medo do estranho, do que é incomum, até prefiro. Algum pedaço do meu bem querer desgasta-se muito rapidamente diante de qualquer clichê: Ah! Ok! Já vi isso e isso. Significa que a criatividade entrou em colapso. E Banana Yoshimoto me deu um lugar chamado Estranheza. Estive em muitos lugares depois de Kitchen, menos em mim.

O livro Kitchen

Duas novelas:

Kitchen (dividida em duas partes): Mikage perde a avó, sua única parenta viva. Os pais morreram ainda cedo. Mikage então conhece Yuichi, que estuda na mesma universidade que ela e trabalha na floricultura da qual a avó de Mikage era cliente assídua. Yuichi convida Mikage para morar com ele e a mãe, Eriko, um travesti.

e

Moonlight Shadow: Satsuki não tem mais Hitoshi. Ele morre num acidente de carro. Satsuki conhece o irmão do namorado, cuja namorada morre no mesmo acidente. Depois, mas não em seguida, numa de suas corridas Satsuki conhece Urara, que também já viveu uma perda, e através de um tom místico, outro mundo é apresentado com a proposta de ajudá-las a superar a morte dos queridos mortos. Temos uma corredora rompendo a lucidez da madruga para romper com o próprio desconforto, e uma dor que se move rapidamente e não sai do lugar.

Só isso?

Na verdade, tudo isso.

Tornei-me um homem dentro de um leito preguiçoso arrastando-se pelos cômodos do livro, esbarrando nas tentativas incomuns de alguém para superar uma morte recente. Em Kitchen, há muitos lugares vazios, mobiliados com perdas consideráveis, e a cozinha se faz lugar para organizar as dores, desses lugares preferidos que, limpos ou imundos, não nos mudaríamos facilmente.

Ao ler o livro de Yoshimoto, tentei lembrar-me de alguns outros lugares preferidos: a sombra das coisas quietas, a calma que se arrasta, porque o que se torna vagaroso é o medo de que a paz inventada se rompa e algum desarranjo estúpido invada o lugar preferido, a rotina que não liberta e se torna viciante e confortável, o corpo livre de preguiça e derramado em lençóis de sossego. Dá para ouvir o mundo girando inteiro em circunvoluções retardadas de dentro de um lugar preferido. O lugar preferido existe para que não nos movamos. O lugar preferido é o abrigo do passado.

O livro expõe aquelas sensações inomináveis em palavras comuns, frases rápidas, delicadas. Todas as palavras de Yoshimoto pairam ao redor do corpo que lê e desentende o que sente. São leves, as palavras. Encaixam-se perfeitamente entre o sentido antigo e aqueles sentidos emprestados, que vêm dos outros.

No começo, pensamos entender o amor como um ato físico, um momento, uma relação consumada, no tempo organizado por duas presenças, no mínimo. Em Kitchen, o amor é o que escapa, é aquilo que foge e se distende frouxo no sofá da sala a observar o tempo que existe sem a figura amada. Em Kitchen o amor é uma ideia, substancial, mas não fundamentalmente algo físico. O amor é a partícula sozinha que não degenera, e pode ser recente, gradual, mas nunca instantâneo. Os personagens são bons, e não amam, de imediato. Apenas estão propensos ao cuidado extremo, sutis em seus atos de salvamento. O amor é a busca; o caminho ainda não existe.

Conheça alguns trechos lindo do livro Kitchen aqui

A morte, as ausências deixadas, a saudade que é um fantasma; dois lugares vazios, mobiliados com perdas consideráveis, a cozinha que se faz lugar para organizar as dores. Desses lugares preferidos que, limpos ou imundos, não nos mudaríamos deles facilmente.
Todo o livro é também uma “experiência de vida” (já dizia Edgar Morin sobre os livros). E Kitchen é um estado suspenso de alma renovada. Quando cheguei ao final, voei para a primeira página e quis viver tudo de novo. Porque no livro é possível ressuscitar os significados. No final do livro, nunca é o fim. Quando vovó morreu, eu não pude voltar para a página 1 da vida que ela era.

Tudo está no livro.

Tão simples e imenso. Durante a leitura, eu pensava “Falta algo aqui”, e dentro do mesmo instante, eu entendia “Está tudo aqui, não há nada aberto ou fora do lugar”. Porque é a simplicidade de tudo que te arrebenta por dentro.

Simples, incomum, elegante e bem escrito. Longe de relambórios (obrigado, João Ubaldo Ribeiro) semânticos e acrobacias sintáticas, Banana permanece no limite entre o comum e o extraordinário. O nome da autora é Mahoko, mas adotou o nome Banana porque acha a flor da bananeira algo lindo de ser ver. Uma alusão ao que consegue produzir a partir do comum, talvez.

Há alguns meses, uma tia ligou contando que uma parede da cozinha da casa da minha avó desmoronou. Só agora as coisas resolveram se mover lá dentro.

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