A vida é um conflito permanente?

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A vida é um conflito permanente? – pergunta Clarissa Dalloway para Helen Ambrose no livro A Viagem, o primeiro romance que Virginia Woolf escreveu.

Clarissa Dalloway é uma das grandes personagens de Virginia Woolf, pois além de fazer parte do primeiro romance da autora, tem um livro todo sobre ela, o famoso Mrs. Dalloway, considerado um dos melhores de Woolf.

No livro A Viagem, Clarissa e Richard Dalloway também embarcam no navio onde está a personagem principal da obra, Rachel Vinrace e a sua tia Helen Ambrose. A passagem do casal deixa rastros importantes, que causam na narrativa a força necessária para o leitor embarcar nos conflitos de Rachel, uma jovem que está iniciando sua vida social.

A Viagem (Virginia Woolf): um romance de presságios

Quando Mrs. Dalloway pergunta sobre a vida ser um conflito permanente, ela também diz:

— É terrível — disse Mrs. Dalloway, que enquanto seu marido falava, estivera pensando. — Quando estou com artistas sinto tão intensamente as delícias de fechar-se num pequeno mundo só meu, com quadros e música e todas as coisas lindas, e então eu saio para a rua e a primeira criança que encontro, com seu pobre rostinho sujo, me faz virar e dizer: “Não, eu não posso me isolar… não vou viver num mundo só meu. Gostaria de interromper toda a pintura e a música e a literatura até que esse tipo de coisa não exista mais”. Você sente — ela virou-se, dirigindo-se a Helen — que a vida é um conflito permanente? (p. 78)

Se há algo inquestionável na obra de Virginia Woolf é a presença do conflito, mesmo como algo amplo e até mesmo vago, podemos estabelecer que conflito é algo que movimenta não somente a vida, mas a arte. Então, quando Mrs. Dalloway afirma que é preciso esquecer a arte para resolver problemas mais sérios, como a fome, conseguimos agir assim? Essa utopia de resolver um problema por vez pode, de fato, resolver todos os problemas? Como faremos com esse mistério que impulsiona para a arte? Somos todos medíocres e hipócritas?

Um ponto importante é ter essa consciência que mesmo a humanidade sendo capaz de construir as coisas mais lindas, ela mesma destrói – a fome, a miséria, a guerra, o preconceito, estão aí, todos os dias batendo à nossa porta. Se cumprir a sugestão de Mrs. Dalloway é impossível, pelo menos não devemos nos fechar em nossos mundos.

Há um conflito gigante – & lindo & exótico & poético & trágico, se pensarmos em Clarissa Dalloway, a personagem mais famosa, em relação a Rachel Vinrace, a primeira protagonista de Virginia Woolf, pois as duas podem representar o conflito vida & morte, algo tão presente na obra da autora. Mas não vou me alongar, porque se você ainda não leu esses dois livros, vai querer me matar.

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Francine Ramos

Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e escritora. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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