Neoliberalismo: “um conjunto de regras para os ricos”

“O neoliberalismo tem esse caráter dualístico, algo que perdura na história econômica. Um conjunto de regras para os ricos. Outro diametralmente oposto para os pobres.” (Noam Chomsky, Réquiem para o sonho americano, p. 105)

Quando escuto ou leio algo relacionado ao tal livre mercado, me assusto por sua proposta avassaladora em deixar que o dinheiro controle tudo. Essa sociedade, já tão tóxica pelo desejo de ter e ser, ganha ainda mais problemas quando o discurso neoliberal é pregado como a resolução de todos os males.

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Noam Chomsky é considerado um dos grandes intelectuais de nossa época: linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político.

No livro “Réquiem para o sonho americano“, de Noam Chomsky, em que o autor discorre sobre a desigualdade da renda, fica muito claro o quanto esse pensamento simplista do neoliberalismo é prejudicial para as camadas mais pobres da sociedade, ao mesmo tempo que protege as camadas mais ricas, apesar de negar essa proteção.

Livre mercado, porém não muito

Segundo Noam Chomsky, o neoliberalismo prega o livre mercado apenas para os pobres. Enquanto que, para os “super-ricos”, é usado o controle para que tudo corra bem. É algo para se pensar, pois se tratando de Chomsky, tudo faz muito sentido:

“Vejam, por exemplo, os Estados Unidos – aqui, martelam na cabeça da maior parte da população o princípio de que ela tem de ‘deixar o mercado comandar os rumos da economia’. Portanto, que as autoridades tratem de cortar o número de benefícios sociais, de reduzir a previdência social ou acabar com ela de uma vez, de diminuir ainda mais o limitado serviço de saúde pública, enfim, deixem o livre mercado comandar tudo. Mas não para os ricos. Para estes, o Estado deve ser uma entidade poderosa, sempre pronta para intervir e resgatá-los sempre que se meterem em apuros financeiros. Tomemos o exemplo de Regan [presidente dos EUA], um ícone do neoliberalismo, do livre mercado entre outras coisas. Ele foi o presidente mais protecionista na história do pós-guerra americano, tendo dobrado as barreiras de importação, na tentativa de proteger os incompetentes dirigentes americanos da superioridade dos produtos japoneses. Assim, mais uma vez, ele socorreu bancos, em vez de deixá-los arcar com os seus custos.” (p. 105)

Ou, seja, o livre mercado é colocado na boca da população (principalmente aqueles que pensam fazer parte do grupo de ricos) como um conceito perfeito para a economia, no entanto, é apenas mais um mecanismo de controle e manutenção do poder.

Neoliberalismo é cuidar apenas dos ricos

A classe média, que adora se posicionar como intelectual e entendida de economia, brada aos quatro cantos a “maravilha” do livre mercado e mal sabe que está lutando para a sua própria derrota, uma vez que rejeita os programas sociais e os benefícios do governo pela ilusão de não querer viver “mamando nas tetas” ou de compactuar com um suposto comunismo. E mal sabe que a grande mamadeira é servida aos milionários. Assim, Chomsky continua sua crítica ao neoliberalismo:

“Devo acrescentar que o seu programa [de Ronald Reagan] (…) foi abertamente propagandeado no mundo dos negócios como um incentivo do governo, como uma espécie de profícua vaca-leiteira em cujas tetas eles podiam mamar. Mas isso era apenas para os ricos. Já no caso dos pobres, que deixassem que os princípios do livre mercado conduzissem os rumos da economia e que não esperassem nenhum auxílio do governo.” 

Livre mercado para quem?

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Tirinha publicada no jornal O POVO em 11 de fevereiro de 1990.

O neoliberalismo é uma aberração, principalmente para os países mais pobres, uma vez que a pobreza não será eliminada sem a colaboração de todos; sem um olhar mais humano nas formas de viver e conviver que encontramos até então.

Temos o sistema capitalista, temos o sentido do dinheiro relacionado ao poder e à felicidade. Temos nossas vidas moldadas pelo desejo de compra, enquanto milhares ainda precisam de um pedaço de pão para não morrer. Lá em cima da nossa pirâmide social, o governo ajuda os milionários, as grandes empresas, enquanto aqui embaixo cada vez mais os direitos mínimos são desvalorizados e diminuídos.

Como que uma empresa se mantém devendo milhões para o Estado? Por que as grandes fortunas não são taxadas? Por que as grandes empresas conseguem empréstimos milionários e, por outro lado, uma família mal consegue pagar suas contas básicas e ainda há tanta gente passando fome?

De certa forma, uma parte do povo cava a sua própria cova e sorri. “Um conjunto de regras para os ricos. Outro diametralmente oposto para os pobres.”

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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