Justine – Os Infortúnios da Virtude (Marquês de Sade)

O livro que li em fevereiro foi Justine – Os Infortúnios da Virtude, de Sade. O Marquês dispensa indicação, mesmo assim, é verdade que há quem odeie Sade, que o ache repulsivo, tem outras pessoas que têm tanto preconceito com o autor, que nem sequer tentam lê-lo e tem quem o adore e o ache um escritor brilhante, como eu. Justine já foi considerado um livro pornográfico e imoral, mas eu vi um crítica social forte e inteligente e uma narrativa viciante, que me fez ler o livro quase que ininterruptamente, ficando sempre ansiosa para saber o que iria acontecer em seguida com a personagem, se ela iria finalmente vencer ou cairia em outra armadilha.

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Uma história de sofrimento

Justine, protagoniza uma história de sofrimento, que começa após a morte de seus pais e consequente perda de seus bens, assim como de sua estabilidade social. Justine é uma mártir típica, disposta a morrer por sua fé, pelas suas crenças religiosas, ainda que ninguém as tivesse atacando diretamente, mas por causa delas, Justine se recusa a agir de qualquer maneira que colocasse em jogo a sua virtude, nunca cedendo as tentações ou as propostas de pessoas que vai encontrando pelo seu caminho, que a privariam de passar por humilhações e torturas.

A hipocrisia da sociedade

Seu rigor quanto à moral é o tempo inteiro confrontado por uma sociedade hipócrita, que ao mesmo tempo que considera a sodomia um crime, faz vistas grossas quanto a nobres e membros do clero adeptos da prática. Uma sociedade que prega condutas morais e éticas para o povo, mas está sempre disposta a comercializá-las, em troca de uma melhor posição social e financeira ou simplesmente de não incomodar quem tem poder.

Perversão, vulnerabilidade, prazer

A perversão é uma constante na narrativa, as leis são feitas e as penas são aplicadas pelos maiores transgressores. Justine sofre, muito, é castigada, mal tratada, escravizada e não ousa duvidar da justiça da providência, é imune a qualquer tipo de corrupção.

Justine parece o tempo inteiro vulnerável e frágil, mas ao mesmo tempo firme nas suas convicções, coerente, disposta a enfrentar qualquer coisa e qualquer pessoa pela sua fé e seus valores, mesmo que durante toda o tempo, só os “maus” pareçam ser agraciados pela vida, só os injustos fossem recompensados.

O prazer de Justine estava em ser quem era, em nunca deixar de ter fé, ao passo que o prazer do “carrasco” é punir, não importa tanto o porquê, assim se estabelecem as relações de poder, o chicote sempre tem dois lados e se torna inútil se falta alguém em uma das pontas e por isso Sade é tão atual e tão censurado.

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Erika Saab

Erika Saab é Psicóloga, Pós-graduanda em Terapia Cognitiva Comportamental, com formação em Personal & Professional Coaching. Atua como psicoterapeuta, coach e facilitadora de grupos femininos. No Livroterapia, compartilha impressões de suas leituras e dá dicas de livros que possam ser ferramentas de desenvolvimento pessoal.

9 Comentários
  1. Olá, gostaria de parabenizar pela ótima crítica do livro. Ainda não li nenhum livro de Sade, somente assisti o Filme “Saló ou os 120 dias de Gomorra”. Achei um filme forte porém muito bom e com um alto grau crítico da sociedade (tanto das camadas mais altas como das baixas) referente a subordinação, humilhação, fragilidade humana e poder, todos esses elementos envolvendo o sexo e o sadomasoquismo. Pelo que pude ver esse livro tem uma abordagem similar porém com detalhes e aspectos diferentes. Achei muito interessante. E gostaria de destacar o comentário abaixo também, concordo plenamente com você, do mesmo jeito que esse livro pode ser usado para fins não muito bons outros livros, com temáticas diferentes e até religiosas, podem ter os mesmos fins também. Tudo depende da pessoa que está lendo… E é verdade tantas músicas, poemas, histórias, filmes, etc, quando “caídos” nas mãos de certas pessoas fanáticas e extremistas viraram verdadeiras inspirações para atos horríveis e de extrema atrocidade. E tanto podem ser de temáticas inocentes como mais polemicas. Mais uma vez parabéns pela critica!!

  2. Sade pode ser usado para coisas construtivas ou destrutivas. Contudo, é muito clara a sua posição: para ser alguém que colhe rosas no caminho da vida, deve-se ser um pérfido cínico. Aqueles que têm a virtude como ideal estão fadados a se machucarem nos espinhos. É uma apologia ao mal. Ele é cínico quando chama justine de heroína. Ele é brilhante quando descreve, numa linguagem de altíssimo nível literário, a humanidade sem máscaras. É um choque a sua estética literária aliada ao conteúdo horripilante. Eu gosto muito de Sade. Mas em mãos mal intencionadas é pior do que “mein kampf” nas mãos de um neo-nazista ou da bíblia nas mãos de um evangélico fundamentalista. Na minha opinião, não é para qualquer um. Porém, acho que ele deveria ser estudado nas universidades.

    1. Eu sou suspeita para falar, porque também gosto muito de Sade e concordo que ele deveria ser estudado nas faculdades, principalmente na de Psicologia, que foi a que eu fiz. Também acho que alguns livros, como você bem citou, podem inspirar comportamentos perigosos, principalmente de grupos. A verdade é que algumas pessoas, que já estão mal intencionadas encontram na arte, na música e na literatura uma forma de justificar seus atos e se dizem “inspiradas” por algum autor ou artista e alguns livros têm mais força, nesse sentido.

    1. Nossa, Vinicius, faz muito tempo que assisti Dogville, não tinha feito essa associação, mas agora que você falou, apesar de achar que os objetivos dos criadores das duas obras foram diferentes, tem algumas coisas que aproximam as duas tramas, por exemplo: em Dogville, Lars Von Trier também mostrou o comportamento cruel, mesquinho e abusivo no ser humano, que vai se evidenciando à medida que o outro se mostra “passivo” ou indefeso. Também temos uma figura feminina central, que busca ajuda e se mostra frágil, mas chega um momento em que há uma reviravolta, coisa a qual Justine não “teve direito”, mas principalmente Justine não quis sair do seu papel de “mártir”, porque entre as duas personagens, para mim, existem diferenças de personalidade marcantes, que quando você ler o livro vai notar, Justine “compra a causa” da virtude, parece acreditar que sendo boa, mudará os outros e Grace desde o início parece mais distante, indiferente, com outros propósitos. Mas claro que, tudo isso é uma percepção muito subjetiva e pessoal que tenho.

    1. Eu acho que esse é um livro ótimo para começar a ler Sade e não tem meio termo, ou se ama ou se odeia, difícil ficar indiferente.

      1. Cheguei aqui depois de ter assistido ao filme Melancolia do já citado Lars Von Trier. O nome da protagonista Justine, teve como referência essa personagem do Sade. O filme, embora ache Dogville superior, é extraordinário! Justine também se recusa a participar da hipocrisia social e entra em depressão. Muito oportuna minha pesquisa, agora tenho como próxima leitura a Justine do Sade.

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