Samba sem mim (Caio Yurgel)

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Samba Sem Mim (Caio Yurgel, editora Benvirá) é a história de imigrantes na Europa. Um brasileiro que vive na Alemanha chamado João Pedro e a sua amiga, também brasileira, Alice, vivem perdidos de si mesmos em Berlim.

O texto oscila muito. Em certos momentos ele é muito bonito, com comparações inteligentes, sinestesia, ironia, etc, porém, em outros momentos ele é ruim, feio, disforme. Talvez isso seja também a vida de um brasileiro fora de seu país: a beleza europeia e a feiura de não pertencer a lugar nenhum. Aquela falta de identidade.

A história se inicia com Alice, num pequeno capítulo que revela o quanto ela é adaptável ao mundo que é possível a ela: não ter dinheiro, nem diploma numa terra estrangeira.

O segundo capítulo é dedicado ao João Pedro, mas Alice logo aparece em seu apartamento para mostrar ao leitor que ele sente amor por ela, que é tão misteriosa.

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Melancolia e solidão estão presentes nos dois personagens. E o motivo, forte, que fez Alice fugir de João Pedro e depois retornar, fica até pequeno comparado à miséria em que eles vivem. E não é uma miséria apenas financeira, é um vazio muito difícil de mensurar.

Um dia João Pedro acordou para descobrir a cama inteira silenciosa debaixo de seu corpo, para descobrir que estava sozinho e que não havia nenhum truque, nenhuma festa surpresa na sala aguardando o momento exato para lançar serpentina no ar: a sala estava deserta, e ele estava sozinho.

p. 10

Ainda no segundo capítulo aparece um professor, Ján Kovác?, que de alguma forma conhece Alice e está preocupado com ela, deseja vê-la, porém Pedro não fica à vontade com essa situação. Mas ele chega num momento chato, que já faz parte da rotina de João Pedro, em conviver com a desconfiança dos vizinhos alemães e também a sua própria dificuldade com a língua local.
O professor, ao mesmo tempo solícito e sereno, também é um personagem misterioso.

O fim do segundo capítulo termina e uma mudança do olhar do narrador acontece. Antes, focado em Alice e João Pedro, o terceiro capítulo chega para mostrar a versão da história pelo professor. É a mesma história, só que por um outro olhar. O professor, coadjuvante no segundo capítulo, se torna o foco do narrador, quase um personagem principal, se não fosse o fato do assunto ainda ser Alice e João Pedro.

Kovác soltou ar pelas narinas, consultou Alice com olhos ultrajados. Alice limitou-se a sorrir o mesmo sorriso, a santa, nenhuma calcinha à mostra. Kovác balançou a cabeça, inconformado. “Onde você trabalha?”

p. 45

Interessante que o livro mostra que todo mundo espera por um salvador, mesmo inconsciente, mas também revela que salvação é algo tão distante e efêmero. Além do professor, há uma outra personagem que aparece na sequência da história, Anka, que se torna amiga de João Pedro. Os dois alemães ficam comovidos com as causas existenciais dos brasileiros.

Então, em resumo, o livro é composto de dois brasileiros perdidos em tudo, à espera que o acaso os tire da melancólica vida longe de casa que, para deixar tudo mais dramático ainda, eles não escolheram simplesmente viajar para a Alemanha, pois eles são fugitivos, o que aumenta mais ainda a condição de não pertencimento, como se Berlim fosse uma prisão. O que espera o bandido na cadeia quando sua sentença é perpétua?

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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