O ovo e a galinha (Clarice Lispector): em busca da epifania

O ovo e a galinha é um conto de Clarice Lispector que ela mesma afirmar não compreender. Então, quem sou eu para dizer que compreendi alguma coisa? Entretanto, a literatura de Lispector já se mostrou capaz de adentrar em outros caminhos muito diferentes do que chamamos de compreensão. E, talvez, “O ovo e a galinha” seja sobre isso: o desejo constante de buscar uma compreensão na vida humana e, de repente, tudo se perde. Mas não se perde o desejo de repetir essa busca, como se fosse a nossa verdadeira essência, mesmo quebrada.

O ovo e a galinha
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O conto apareceu pela primeira vez no livro “A legião estrangeira”, publicado em 1964 e, desde então, leitores têm a oportunidade de conhecer um dos textos mais profundos da autora.

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Em busca da epifania

Tudo começa com uma mulher em sua cozinha vendo um ovo. E neste simples ato, a narrativa nos leva aos diversos questionamentos existenciais. Ou pelo menos foi isso que o conto provocou em mim. A não-linearidade e a desconstrução da forma de usar os elementos da narrativa no universo clariceano é realmente encantador, pois desmonta a tradição e remonta algo muito mais além: aquele segundo existencial em que se compreende toda a vida.

O ovo pode ser essa representação da epifania (aquele momento tão raro de compreensão). No entanto, em “O ovo e a galinha”, quando se reconhece a epifania, ela já deixa de ser essa absoluta compreensão. E neste sentido, o conto vai ampliando as possibilidade de encontrar e ver o ovo, como um elemento base da vida; ao mesmo tempo limite e também infinitude.

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E a galinha?

A galinha somos nós. Produzimos o ovo e esquecemos do ovo a todo momento. Somos nós tentando ser mais humanos e perdendo a humanidade a todo momento.

E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.

O tempo psicológico

O tempo psicológico: o que é e como identificá-lo

A situação inicial da mulher olhando o ovo provoca toda a narrativa da história, que não é sobre a mulher em si, mas sobre o que o ovo representa. Dessa forma, o tempo psicológico colabora para o leitor vibrar com essa maluca questão do ovo e a galinha. Há momentos de riso, de compreensão e, claro, de não-compreensão também.

E eis que não entendo o ovo. Só entendo o ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha própria vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.

Com certeza, a forma como o conto nos conduz para a epifania tem tudo a ver com o próprio tema do conto. Ou seja, é como se Clarice Lispector nos entregasse o momento de epifania em uma bandeja e nos mostrasse o quanto é raro esses momentos de plenitude, ao mesmo tempo que joga em nossa cara toda a sua rica linguagem em nome dos segundos de uma existência.

Se deixa levar por esse conto tão enigmático é o que deverá ser feito. Em busca da compreensão do ovo e da galinha, Clarice Lispector nos dará a oportunidade de questionar outras buscas e outras existências. Assim, ao chegar no final de seu monólogo interior, a autora entregará a própria essência da epifania, da linguagem, da literatura, da vida e da arte.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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