Ascensão (Stephen King): como construir uma comunidade tolerante?

Ascensão (Stephen King): como construir uma comunidade tolerante?

Em Ascensão, Stephen King joga com a ficção e o absurdo para mostrar a dura realidade da intolerância

Scott Carey decide procurar seu antigo e aposentado médico, dr. Bob Ellis, para relatar um estranho problema que tem enfrentado. Talvez lhe faltou coragem para procurar um especialista qualquer para investigar o que de fato estaria acontecendo. Scott tem sofrido uma perda gradual de peso. O que não seria algo incomum, não fosse ter notado o fato que subir na balança com uma jaqueta pesada no corpo, ou simplesmente nu, não alterava em nada a marcação de seu peso. Estaria algo afetando seu campo gravitacional? Como poderia estar perdendo tanto peso e sua massa corporal se manter a mesma?

Em Ascensão (Suma, 2019), um pequeno conto de 144 páginas se formos comparar com os calhamaços de Stephen King, o mestre do terror nos conta esse estranho caso que se passa na cidade de Castle Rock, no estado do Maine, EUA. Scott, o personagem principal, é um recém divorciado, que, além de lidar com o estranho problema do peso, também precisa se preocupar com duas novas vizinhas que todas as manhãs trazem seu cachorro para fazer as necessidades em seu jardim. 

As vizinhas são Deidre e Missy. Um casal, donas um restaurante de comida mexicana em uma das cidades mais conservadoras dos Estados Unidos. Como resultado, sofrem preconceito e boicote ao seu estabelecimento, que quase chega a fechar. Scott, mesmo contrariado com os problemas que vem enfrentando com elas e seu cachorro, se incomoda e quase se envolve em uma briga em um outro restaurante ao ouvir um diálogo carregado de preconceito sobre as duas.

“- Nada para se orgulhar. Ela é lésbica. Não haveria problema nenhum se ela ficasse na dela, ninguém se importa com o que acontece por trás de portas fechadas, mas ela tem que apresentar a mulher que cozinha no Frijole como esposa.” (p. 41)

“ – Trump venceu por três a um no condado em 2016 e o povo aqui acha que nosso governador cabeça-dura anda na água. Se aquelas mulheres tivessem sido discretas, estariam bem, mas não foram. Agora, tem gente que acha que elas estão tentando fazer algum tipo de declaração política. Eu acho que ou elas não conhecem o clima político aqui, ou foram burras. – Ele fez uma pausa. – A comida é boa, apesar de tudo. Você já foi lá?” (p. 42)

Além de traçar um panorama político local, o autor pincela aqui e ali críticas ao presidente Donald Trump, assim como leva a uma reflexão do momento atual em um nível mais amplo. Sobre como o conservadorismo crescente no cenário mundial, como um todo, afeta as minorias na falta da aceitação das diferenças. No caso do livro, o preconceito e o boicote quase levaram o restaurante à falência, o que obrigaria as duas a mudarem de cidade. Mas quais são os preços a se pagar pelo mesmo tipo de questão, quando enfrentadas em outros âmbitos sociais?

O livro vai além da narrativa de um fato absurdo e fictício, de um homem que está perdendo gradualmente o seu contato gravitacional com o solo. Através de personagens que demonstram capacidade de mudança, de arrependimento, de assumir e corrigir erros, assim como de resignação para aceitar o que de fato não se pode ser mudado, Stephen King nos faz um convite a repensar em, primeiro, como estamos agindo como indivíduos; para então refletirmos em nossos papéis em uma sociedade a qual criticamos, mas que é sim um reflexo de quem de fato somos. 

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Ronie John
Ronie John vive em Sorocaba, é graduado em Letras Português/Inglês e atualmente leciona para o ensino fundamental. Tão apaixonado por café quanto por livros, já pensou em criar seu próprio blog “Livro & Cerveja”, mas desistiu após dormir durante as leituras em seus primeiros testes. Apreciador de biografias e obras que remetam aos “beats” e ao “rock and roll”, costuma escrever resenhas mais informais; algo como uma boa conversa sobre um bom livro.

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