A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector: o romance sobre colher sentido quando tudo ainda é sombra

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Quando se fala em Clarice Lispector, quase sempre surgem os mesmos títulos: A Paixão segundo G.H., Laços de Família, Perto do Coração Selvagem, A Hora da Estrela. A Maçã no Escuro, publicado em 1961, costuma ficar à margem dessas listas, o que é curioso, porque ele ocupa um lugar fundamental na trajetória da autora.

Este é um romance de transição, de maturação e de risco. Um livro em que Clarice leva ao limite a pergunta que atravessa toda a sua obra: como alguém se torna aquilo que é? Não por iluminação súbita, mas por tropeço, silêncio, erro e sombra.

Um romance pouco citado… e por isso mesmo essencial!

Capa do livro "A maçã no escuro", de Clarice Lispector. Nova edição da editora Rocco
Capa da nova edição da Editora Rocco, com pinturas feitas pela própria Clarice Lispector

A Maçã no Escuro não é um livro “fácil” de resumir, nem de classificar. Talvez por isso ele seja menos mencionado. Não há uma trama convencional que se imponha, nem personagens que se expliquem por completo. O que há é um processo.

Ler este romance é acompanhar a tentativa quase artesanal de fabricar um ser humano. Não no sentido moral, mas existencial. Aqui, Clarice escreve antes do gesto célebre de G.H. esmagando a barata; escreve sobre o antes do nome, o antes do sentido, o antes da linguagem organizada.

Ignorar A Maçã no Escuro é perder uma peça-chave do quebra-cabeça clariceano.

As três partes do livro: um percurso de formação às avessas

O romance é dividido em três partes:

  1. Como se faz um homem
  2. Nascimento do herói
  3. A maçã no escuro

Os títulos já indicam que não estamos diante de uma narrativa linear, mas de uma espécie de antiromance de formação. Não há progresso contínuo. Há avanços, recuos, desorientação.

Na primeira parte, o leitor ainda não compreende o peso do título. Tudo parece girar em torno de gestos, pensamentos fragmentados, ações sem explicação imediata. É o território da sombra e Clarice, como sempre, não oferece lanternas.

Fluxo de consciência como método de escavação

Clarice Lispector não conta uma história: ela escava.

Assim como em Virginia Woolf, o fluxo de consciência não é ornamento estilístico, mas método. É por meio dele que os personagens se revelam não como identidades estáveis, mas como campos de tensão.

Ler A Maçã no Escuro exige fôlego. Há momentos em que é preciso “voltar à superfície”, respirar, e então mergulhar de novo. O romance pede uma leitura em camadas, feita mais de atenção do que de pressa.

Martim, Vitória e Ermelinda: personagens em estado de busca

Os personagens centrais — Martim, Vitória e Ermelinda — compartilham uma inquietação fundamental: a necessidade de compreender o próprio gesto depois de tê-lo realizado.

Eles caminham sem mapas. Agem antes de entender. Pensam depois do acontecido. E é justamente aí que Clarice os torna profundamente humanos.

A autora “rouba” a mente dessas figuras e a organiza para o leitor não para esclarecer, mas para expor o conflito:
o pensamento é sempre posterior à vida.

O que é, afinal, a maçã no escuro?

A maçã só aparece plenamente no fim. E quando aparece, não vem como símbolo fechado, mas como imagem sensível.

Colher uma maçã no escuro é agir sem garantias. É tocar o mundo antes de compreendê-lo. É aceitar que o sentido não se revela antes da experiência, mas durante (ou depois) dela.

A maçã, aqui, não é pecado nem redenção. É risco.

Clarice Lispector e a recusa do rótulo de intelectual

Clarice afirmava não ser intelectual, nem culta, nem profissional da literatura. Dizia escrever por intuição, por instinto, por necessidade vital. Chamava-se, sem pudor, de amadora.

“Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe.”

Essa declaração ajuda a entender A Maçã no Escuro. O romance não busca provar nada. Ele tenta sentir a vida no ponto exato em que ela ainda não ganhou nome.

E talvez seja por isso que este livro incomode, escape, resista às listas rápidas. Ele não se oferece. Ele exige.

Por que ler A Maçã no Escuro hoje

Porque este romance ensina algo raro:
não ter medo de agir antes de compreender.
– não exigir sentido imediato da vida.
– aceitar que a sombra também forma.

Ao final, o que Clarice nos propõe não é encontrar o sentido mas ousar colhê-lo, mesmo no escuro.

Onde comprar A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector: Amazon

Se você quer conhecer Clarice Lispector para além dos livros mais citados; se deseja entender como sua escrita se construiu, se radicalizou e se aprofundou: este romance não é opcional. Ele é fundação.

Fique com esse trecho de Clarice Lispector:

Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade. […] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora? O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.

Dica para leitores: conheça também os contos de Clarice Lispector:

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