Publicado em 1987, o romance Amada, de Toni Morrison, é considerado uma das obras mais importantes da literatura contemporânea. O livro venceu o Prêmio Pulitzer em 1988 e ajudou a consolidar o reconhecimento internacional da autora, que receberia o Nobel de Literatura em 1993.
A narrativa aborda temas como memória, escravidão, maternidade, trauma e identidade, explorando as marcas profundas deixadas pela violência histórica na vida dos personagens. Com uma escrita densa e simbólica, Morrison constrói uma história que mistura realismo, memória e elementos sobrenaturais.
O romance também ganhou adaptação para o cinema, com Oprah Winfrey no papel principal, ampliando o alcance da obra entre novos leitores.

Leia a resenha sobre a obra aqui.
Se você quer conhecer melhor o impacto da escrita de Toni Morrison, reunimos abaixo frases marcantes do livro Amada que revelam a força literária e emocional do romance.
“Dez minutos para cinco letras. Com mais dez ela podia ter conseguido “Bem” também? Não tinha pensado em perguntar a ele e ainda a incomodava aquilo ter sido possível – que em troca de vinte minutos, meia hora digamos, ela podia ter conseguido a coisa toda, todas as palavras que tinha ouvido o pregador dizer no enterro (e tudo o que havia para dizer, com certeza) entalhado na lápide: Bem-Amada. Mas o que ela havia conseguido, que escolhera, era a única palavra que importava. Ela achou que podia bastar, copular entre as lápides com o entalhador, o filho dele, menino, olhando, tão velho o ódio em seu rosto; bem novo o apetite nesse rosto. Aquilo com certeza devia bastar. Bastar para responder a mais um pregador, a mais um abolicionista e a uma cidade cheia de aversão.”
P. 22
Análise:
Essa passagem liga linguagem, corpo e memória. A palavra gravada na lápide não é apenas um nome, mas uma tentativa de fixar sentido para uma perda irreparável. Morrison sugere que o amor, a culpa e o luto são traduzidos de forma imperfeita pela linguagem. A negociação física para gravar a palavra mostra como, no universo da escravidão, até a dignidade da morte precisa ser conquistada com o corpo.
“Todo mundo sentia meu cheiro antes de me ver. E quando me viam, viam as gostas de leite no peito do vestido. Eu não podia fazer nada. Só sabia é que tinha de dar meu leite para minha filhinha. Ninguém ia amamentar ela como eu. Ninguém ia dar leite para ela na hora certa, nem tirar quando ela já tivesse mamado bastante e não percebesse. Ninguém sabia que ela não conseguia arrotar se levantasse no ombro, só deitada em cima dos joelhos. Ninguém sabia, só eu e ninguém tinha o leite pra ela, só eu.”
P. 37
Análise:
Aqui a maternidade aparece como identidade absoluta. O leite simboliza cuidado, vínculo e sobrevivência, mas também expõe vulnerabilidade social. A fala revela o medo de perder a função de mãe — um terror real no contexto da escravidão, onde filhos eram separados das mães. Morrison transforma o gesto biológico de amamentar em um ato político e existencial.
“Os segredos de Denver eram doces. Acompanhados sempre de verônica silvestre até ela descobrir a colônia. O primeiro frasco foi um presente, o seguinte ela roubou de sua mãe e escondeu no meio do bruxinho até que ele congelou e rachou. Foi o ano em que o inverno chegou apressado na hora do jantar e ficou durante oito meses. Um dos anos da Guerra em que miss Bodwin, a mulherbranca, trouxe a colônia de Natal para sua mãe e para ela, laranjas para os meninos e mais um bom xale de lã para Baby Suggs. Ao falar de uma guerra cheia de mortos ela parecia feliz – rosto afogueado e, embora sua voz fosse pesada como de homem, ela cheirava como uma sala cheia de flores, estímulo que Denver podia ter todo só para si no bruxinho.”
P. 54
Análise:
A doçura associada ao segredo mostra a infância como espaço de refúgio simbólico. Perfume, inverno, objetos e lembranças constroem um universo sensorial que protege Denver da dureza da realidade. Morrison trabalha aqui a memória como abrigo: não é apenas lembrança, mas um modo de suportar o presente.
“Estava falando do tempo. É tão difícil para mim acreditar no tempo. Algumas coisas vão embora. Passam. Algumas coisas ficam. Eu pensava que era minha rememória. Sabe. Algumas coisas você esquece. Outras coisas, não esquece nunca. Mas não é. Lugares, os lugares ainda estão lá. Se uma casa pega fogo, desaparece, mas o lugar – a imagem dela – fica, e não só na minha rememória, mas lá fora, no mundo”.
P. 63
Análise:
Essa frase é central para entender o romance. Morrison desmonta a ideia de tempo linear: passado e presente coexistem. O trauma não desaparece; ele permanece ativo. A noção de “rememória”, recorrente no livro, indica que experiências vividas continuam existindo fora da mente, como marcas no mundo.
“Denver mordeu as unhas.” Se ainda está lá, esperando, quer dizer que nada nunca morre.”
P. 64
Sethe olhou bem para o rosto de Denver: “Nada nunca morre”, disse ela.
“A senhora nunca me contou tudo o que aconteceu. Só que chicotearam a senhora e que a senhora fugiu, grávida. De mim.”
Análise:
Essa afirmação ecoa o eixo sobrenatural do romance. Mais do que falar de fantasmas literais, Morrison fala da persistência histórica da violência. O passado escravista não terminou; ele continua atuando na vida dos personagens. A frase sintetiza a ideia de que memória e trauma são forças vivas.
“Sua mãe tinha seus segredos – coisas que ela não contava; coisas que contava pela metade. Bem, Denver também tinha suas coisas. E as suas eram doces – doces como colônia de lírios-do-vale.”
P. 66
Análise:
O silêncio é apresentado como herança. As experiências traumáticas não são transmitidas de forma direta, mas por lacunas, omissões e fragmentos. Morrison mostra como o trauma coletivo atravessa gerações não só pelo que é contado, mas pelo que não pode ser dito.
“Arriscado, pensou Paul D, muito arriscado. Para uma mulher que era escrava, amar alguma coisa tanto assim era perigoso, principalmente se era a própria filha que ela havia resolvido amar. A melhor coisa, ela sabia, era amar só um pouquinho; tudo, só um pouquinho, de forma que quando se rompesse, ou se fosse jogado no saco, bem, talvez sobrasse um pouquinho para a próxima vez. “Por quê?”, ele perguntou. “Por que você acha que tem que fazer as coisas por ela? Se desculpar por ela? Ela é crescida.”
P. 77
Análise:
Essa frase expõe uma lógica cruel da escravidão: o amor vira risco. Quanto mais se ama, maior a dor da perda inevitável. O afeto, que deveria ser proteção, se transforma em vulnerabilidade. Morrison apresenta aqui um dos temas mais fortes do livro: o amor como força vital e, ao mesmo tempo, ameaça.
“Não estavam de mãos dadas, mas as sombras deles estavam. Sethe olhou para sua esquerda e as sombras deles três deslizavam pela areia de mãos dadas. Talvez ele tivesse razão. Uma vida.”
P. 79
Análise:
A imagem das sombras cria uma dimensão simbólica do vínculo. Mesmo quando o gesto físico não existe, há conexão emocional. Morrison sugere que relações humanas possuem camadas invisíveis, e que a memória afetiva pode existir além do corpo.
“Minha velha? Quer dizer minha mãe? (…) Uma coisa ela fez, sim. Ela me pegou e me carregou atrás da defumadora. Lá atrás ela abriu a frente do vestido, levantou o peito e apontou debaixo dele. Bem em cima das costelas tinha um círculo e uma cruz queimados direto na pele. Ela disse: ‘Esta aqui é a sua mãe. Esta`, e apontou, ‘Sou a única que tem essa marca ainda. O restou morreu. Se alguma coisa acontecer comigo e você não conseguir saber que sou eu pela cara, pode saber por esta marca.’ Me deu tanto medo. Eu só conseguia pensar que aquilo era importante e que eu precisava ter alguma coisa importante para responder, mas não consegui pensar em nada, então eu disse o que pensei. ‘Certo, mamãe’, eu disse. ‘Mas como a senhora vai conhecer eu? Como vai me conhecer? Me marque também’, eu disse. ‘Marque essa marca em mim também.” Sethe riu.
P. 98/99
“Ela marcou?”, Denver perguntou.
“Ela me deu um tapa na cara”.
“Por quê?”
“Na hora eu não entendi. Só quando ganhei uma marca minha.”
Análise:
O corpo aparece como arquivo da história. A marca não é apenas identificação física, mas prova de sobrevivência. O pedido de Denver para também ser marcada revela o desejo de pertencimento e reconhecimento. Morrison mostra como, em contextos extremos, a identidade pode depender da dor inscrita no corpo.
“Voltar para a fome original era impossível. Para sorte de Denver, olhar era alimento bastante. Mas ser olhada de volta estava além do apetite; era romper sua própria pele até um lugar onde a fome não havia sido descoberta. Não precisava acontecer com frequência, porque Amada quase nunca olhava diretamente para ela, ou, quando olhava, Denver podia dizer que seu rosto era só o lugar onde aqueles olhos pousavam enquanto a mente por trás deles seguia em frente.”
P. 175
Análise:
Aqui Morrison trabalha a ideia de desejo e necessidade emocional. O olhar funciona como alimento simbólico — reconhecimento, afeto, existência. Ser visto é mais profundo do que simplesmente ver. A autora mostra como relações humanas dependem da reciprocidade do olhar para se tornarem reais.
As frases de Amada mostram como Toni Morrison constrói uma narrativa em que memória, linguagem e corpo se entrelaçam para contar uma história sobre perda, resistência e identidade. Cada trecho revela não apenas a intensidade emocional do romance, mas também a complexidade histórica que atravessa a obra. Ler Amada é entrar em contato com uma literatura que exige sensibilidade e reflexão, mas que também oferece uma experiência profunda e transformadora. Se essas passagens chamaram sua atenção, a leitura do livro completo amplia ainda mais o impacto da escrita de Morrison e ajuda a compreender por que o romance continua sendo um dos mais importantes da literatura contemporânea.
Referência: Nobel Prize
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conteúdo atualizado em 02/2026


