atualizado em 16/01/2026
O romance As Ondas, de Virginia Woolf, é frequentemente apontado como o livro mais experimental — e também o mais exigente — da autora. Publicado em 1931, ele rompe deliberadamente com a estrutura tradicional do romance: não há enredo linear, ações centrais ou desenvolvimento psicológico convencional. O que existe é voz.
Sete personagens — Bernard, Susan, Rhoda, Neville, Jinny, Louis e Percival — falam em monólogos interiores que se entrelaçam como notas musicais. O mundo exterior quase desaparece; o que importa é o modo como o tempo, o amor, a identidade, o desejo e a morte atravessam a consciência. Entre esses blocos de fala, a natureza surge em interlúdios poéticos, marcando a passagem do dia e da vida.
Em 1930, Virginia Woolf anotou em seu diário:
“Acho que este é o mais complexo e o mais difícil de meus livros. Como terminá-lo, a não ser por uma enorme discussão na qual cada vida terá sua voz, uma espécie de mosaico, não sei”.
Ler As Ondas é aceitar essa proposta radical: não buscar sentido imediato, mas escuta. As frases do livro não explicam — elas vibram. A seguir, uma seleção de trechos marcantes, mantidos integralmente, acompanhados de leituras interpretativas que ajudam a atravessar esse mar de linguagem.
Frases do livro As Ondas, Virginia Woolf. Tradução de Lya Luft. Editora Nova Fronteira.

O nó na minha garganta vai diminuindo. Palavras juntam-se, grudam-se, atropelam-se umas por cima das outras. Não importa quais sejam. Empurram-se e trepam uma nos ombros das outras. As isoladas, as solitárias acasalam-se, cambaleiam, multiplicam-se. Não importa o que digo. Como um pássaro a esvoaçar, uma frase cruza o espaço vazio entre nós. Pousa nos lábios dele. (p. 78)
Interpretação:
Aqui, Woolf expõe o nascimento da linguagem como algo físico, quase orgânico. As palavras não obedecem à lógica; elas se empurram, se acasalam, tropeçam. O que importa não é o conteúdo exato do que se diz, mas o gesto de lançar a frase no espaço — como um pássaro que atravessa o vazio entre dois seres. Comunicação, em As Ondas, é sempre tentativa, nunca garantia.
Mas se algum dia você não vier depois do café da manhã, se algum dia avistar você em algum espelho, talvez procurando por outro homem, se o telefone toca e toca em seu quarto vazio, então, depois de indizível agonia, então – pois não tem fim a loucura do coração humano – procurarei outro, encontrarei outro você. Nesse meio tempo, vamos abolir com um sopro o tiquetaque dos relógios. Chega mais perto de mim. (p. 135)
Interpretação:
O tempo cronológico é o grande inimigo do amor em As Ondas. Aqui, Woolf revela a angústia da perda antecipada e, ao mesmo tempo, o desejo de suspender o mundo objetivo. Abolir o relógio é tentar viver apenas no instante da presença. O amor surge como algo condenado à repetição da falta — “encontrarei outro você” — e ainda assim irresistível.
– Mas espere. Enquanto somam a conta atrás do balcão, espere um momento. Agora que me vinguei de você pelo golpe que me fez cambalear entre migalhas e cascas e velhas lascas de carne, registrarei, em palavras de uma sílaba, o modo como, também debaixo do seu olhar, com aquela minha compulsão, começo a perceber isto, aquilo e outras coisas mais. O relógio tiquetaqueia; a mulher espirra; o garçom chega – há um encontro gradual, uma reunião, uma aceleração, uma unificação. Ouça: um apito soa, rodas disparam, a porta range nos gonzos. Recupero a consciência da complexidade e da realidade e da luta, pelo que lhe agradeço. E com alguma compaixão, alguma inveja e muita boa vontade, pego sua mão e lhe desejo boa noite. (p. 220)
Interpretação:
Esse trecho é uma síntese do projeto de As Ondas: o cotidiano mais banal — o relógio, o espirro, o garçom — se transforma em revelação. A realidade não é simples; ela se constrói por acúmulos, encontros e choques. A consciência emerge justamente da percepção dessa multiplicidade. Viver, para Woolf, é aceitar a luta de organizar o caos sem jamais dominá-lo por completo.
Ele me esquecerá. Deixará sem resposta minhas cartas […]. Eu lhe mandarei poemas, talvez ele responda com um cartão-postal. Mas é por isso que o amo. Proporei um encontro – debaixo de um relógio, ou numa encruzilhada; esperarei, e ele não virá. É por isso que o amo. Ele se afastará da minha vida, esquecido, quase inteiramente ignorante do que foi para mim. E, por incrível que pareça, entrarei em outras vidas; talvez não seja mais que uma escapada, um simples prelúdio. […] continuarei a deslizar para trás das cortinas, para o seio da intimidade, em busca de palavras sussurradas a sós. Por isso parto, hesitante mas altivo; sentindo uma dor intolerável, mas seguro de que vou triunfar nessa aventura após tanto sofrimento, seguro – quero crer – de que no fim descobrirei o objeto do meu desejo.
Interpretação:
O amor, aqui, não se funda na reciprocidade, mas na assimetria. Amar é aceitar o apagamento, o desencontro, a indiferença do outro. Woolf desmonta qualquer ideal romântico tradicional: o sentimento nasce justamente daquilo que fere. O desejo se alimenta da ausência e da impossibilidade de posse.
Quão melhor é o silêncio; a xícara de café, a mesa. Quão melhor é sentar-me sozinho como a solitária ave marinha que abre suas asas sobre a estaca. Deixem-me ficar sentado aqui para sempre com coisas nuas, esta xícara de café, esta faca, este garfo, coisas em si, eu mesmo sendo eu mesmo. Não venham preocupar-me com suas alusões a que é tempo de fechar a casa e partir. Eu daria de boa vontade todo o meu dinheiro para que vocês não me perturbassem, mas me deixassem ficar aqui sentado, para sempre, silencioso e só.
Interpretação:
Esse trecho expressa uma das tensões centrais do livro: o desejo de existir sem mediação, sem interpretação, sem o peso do outro. O silêncio não é vazio, mas abrigo. As coisas — a xícara, o garfo, a mesa — existem sem exigir sentido. Ao contrário das relações humanas, elas não ferem.
Por isso odeio espelhos que me revelam meu verdadeiro rosto. Sozinha, muitas vezes mergulho no nada. Preciso firmar meu pé fortemente, se não, caio do limite do mundo para dentro do nada. Preciso bater minha mão contra uma porta rija, para me chamar de regresso a meu corpo.
Interpretação:
O espelho, em Woolf, nunca é neutro. Ele ameaça dissolver a identidade, revelar um eu instável demais para ser sustentado. A necessidade de tocar o corpo, de sentir resistência física, é uma tentativa desesperada de não cair no nada. A identidade é frágil; o mundo interior pode engolir quem olha fundo demais.
Qual a frase para a lua? E a frase para o amor? Com que nome devemos designar a morte? Não sei. Preciso de uma linguagem reduzida como a dos amantes, palavras de uma sílaba como a que as crianças falam quando entram no quarto e encontram sua mãe costurando e apanham um pedacinho de lã colorida, uma pluma ou uma tira de chintz. Preciso de um uivo; um grito. Quando a tempestade vara o charco e passa por cima de mim, deitado na vala sem ser notado, não preciso de palavras. De nada que seja exato. De nada que baixe com todos os seus pés no chão. De nenhuma daquelas ressonâncias e adoráveis ecos que se quebram e repicam de nervo em nervo em nossos peitos, formando música selvagem e frases falsas. Acabei com a frase.
Interpretação:
Aqui está uma das declarações mais radicais de As Ondas: a linguagem falha. Palavras elaboradas criam ecos falsos. Para dizer o essencial — amor, morte, dor — talvez só reste o grito, o som bruto. Woolf reconhece os limites da literatura ao mesmo tempo em que escreve um dos romances mais literários do século XX.
Meu coração fica todo àspero, esfola meu peito como uma espada de dois gumes; por um lado, adoro sua magnificência; por outro, desprezo sua pronuncia relaxada – eu, que lhe sou tão superior – e tenho ciúmes.
Interpretação:
Amor e orgulho caminham juntos. O sentimento não é puro; ele fere, corta, divide. Woolf mostra o quanto o afeto está contaminado pela vaidade, pela comparação, pela necessidade de superioridade. O coração é uma arma contra si mesmo.
Agora vou embrulhar minha angústia dentro do meu lenço. Vou amassá-la numa bola apertada. Antes das aulas, quero ir sozinha ao bosque de faias. Não ficarei sentada à mesa fazendo cálculos. Não me sentarei perto de Jinny e perto de Louis. Vou levar minha angústia de depositá-la nas raízes sob as faias. Vou examiná-la, pegá-la entre meus dedos. Não me encontrarão. Comerei nozes e procurarei ovos entre as sarças, meu cabelo ficará emaranhado e vou dormir sob as sebes, bebendo água das poças, e morrerei lá.
Interpretação:
A angústia não é algo a ser evitado, mas enfrentado. O gesto de levá-la ao bosque, de tocá-la, examiná-la, revela uma relação íntima com o sofrimento. Em As Ondas, a dor não pede cura imediata — ela pede escuta. A solidão surge como espaço de confronto com o que não pode ser dito em público.
Por que ler As Ondas hoje?
Porque este não é um romance para respostas rápidas. As Ondas é um livro sobre existir em fragmentos, sobre a impossibilidade de uma identidade fixa, sobre o tempo que passa dentro da consciência. É uma obra que exige leitura lenta, releitura e silêncio — mas que recompensa com uma das experiências literárias mais intensas do modernismo.


