atualizado em 30/12/2025
Alguns livros não contam uma história: ativam uma memória. Norwegian Wood, de Haruki Murakami, começa assim — não com uma ação, mas com uma música. Ao ouvir Norwegian Wood, dos Beatles, Toru Watanabe, aos 37 anos, é puxado de volta para um passado que nunca foi completamente resolvido.
O que se abre diante do leitor não é apenas um romance de formação, mas uma travessia emocional marcada por luto, desejo, solidão e a dificuldade brutal de crescer quando se perde cedo demais.
Murakami escreve como quem sabe que lembrar também pode ser uma forma de sofrimento.

Uma narrativa guiada pela memória
A estrutura de Norwegian Wood é simples apenas na superfície. A narrativa se organiza como um grande retorno: o adulto revisita a juventude, tentando atar as duas pontas da vida, como diria Machado de Assis em Dom Casmurro.
“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência” – Machado de Assis
Assim como Bentinho, Toru narra a partir da distância — e é justamente essa distância que dá ao texto seu tom melancólico, quase suspenso. O passado não retorna para ser explicado, mas para ser sentido novamente, com todas as lacunas, contradições e silêncios que ele carrega.
O mérito de Murakami está em fazer o leitor perceber, apenas no fim, que a resposta sempre esteve ali — visível, mas emocionalmente indecifrável até então.
Toru Watanabe: o narrador-câmera
Toru é um protagonista curioso: ele observa mais do que age. Funciona quase como uma câmera sensível que registra os outros personagens (seus gestos, fragilidades e quedas) sem tentar organizá-los moralmente.
Essa escolha narrativa desloca o centro do romance. Norwegian Wood não é sobre um herói, mas sobre as pessoas que atravessam a vida de alguém enquanto ele tenta entender a própria existência.
Ao se mostrar menos, Toru permite que os outros brilhem — e sofram — com mais intensidade.
Cinco personagens, os mesmos abismos
Embora a história acompanhe cinco personagens centrais, o que une todos eles não são as circunstâncias, mas os sentimentos:
medo, desejo, inadequação, solidão, esperança.
Murakami constrói figuras profundamente diferentes entre si, mas atravessadas pelo mesmo vazio existencial. Não importa se são suicidas, instáveis, sexualmente livres ou emocionalmente retraídos — todos enfrentam a mesma pergunta silenciosa:
como continuar vivendo quando crescer parece doer demais?
É dessa identificação emocional (e não da semelhança de experiências) que nasce a empatia do leitor.
Um romance sobre juventude, não sobre respostas
Norwegian Wood não oferece soluções, nem pretende consolar. É um livro sobre perdas que não cicatrizam, sobre o amor que não salva, sobre o amadurecimento que chega antes da hora.
A escrita de Murakami é contida, delicada e profundamente humana. Ele não dramatiza o sofrimento — o observa. E é justamente essa contenção que torna o romance tão devastador.
Ao final, o leitor compreende que algumas perguntas não existem para serem respondidas, apenas para serem carregadas.
Conclusão
Norwegian Wood é um romance sobre lembrar, e lembrar dói. Mas também é um livro sobre perceber que não estamos sozinhos nesse desconforto de existir.
Murakami transforma a juventude em um território de perdas silenciosas — e a memória, em um lugar onde o amor e a dor continuam convivendo, mesmo décadas depois.
Para saber mais sobre o autor, leia: Romancista como vocação (Haruki Murakami): um escritor comum – e isso é bom


