atualizado em 07/01/2026
Pensar em ler A Divina Comédia, de Dante Alighieri, é quase um rito de passagem do leitor. Todo mundo já pensou nisso — e quase todo mundo adiou. O tamanho assusta, o contexto histórico intimida, e a fama de “leitura difícil” costuma vencer a curiosidade.
Mas há um ponto importante: A Divina Comédia não atravessou mais de sete séculos por acaso. Dante escreveu um livro que não apenas moldou a literatura ocidental, como também redefiniu o que entendemos por poesia, narrativa, moral e imaginação.
A seguir, cinco motivos (mistura de curiosidade, leitura crítica e experiência real) para finalmente encarar Dante e entender por que ele continua sendo lido.
1. A Divina Comédia não é uma comédia (e isso importa)
Apesar do título, A Divina Comédia não é engraçada. No século XIV, o termo comédia designava uma obra que começava em crise e terminava em redenção — ao contrário da tragédia, que partia da ordem e terminava na queda.
Ou seja: não se trata de humor, mas de trajetória moral.
Outro detalhe essencial: o adjetivo Divina não foi escolhido por Dante. Ele foi acrescentado mais de duzentos anos depois, como reconhecimento da grandeza estética e espiritual da obra. Isso já diz muito sobre o impacto do livro ao longo do tempo.
2. Dante sabia que estava escrevendo algo extraordinário
Dante Alighieri não era exatamente modesto. Em A Divina Comédia, ele se coloca lado a lado com Homero, Horácio, Ovídio e Lucano — os grandes nomes da tradição clássica.
Isso não é arrogância gratuita: é consciência de projeto. Dante sabia que estava criando algo novo, em língua vulgar (o italiano, não o latim), misturando filosofia, teologia, política e poesia numa estrutura inédita.
Séculos depois, Victor Hugo resumiria isso de forma brutal: Dante “marca os cem graus do gênio”. Não é exagero — é diagnóstico.
3. Ler Dante é aceitar o conflito
Um dos maiores erros ao se aproximar de A Divina Comédia é esperar uma obra “organizada” segundo padrões modernos. Dante é conflituoso, híbrido, excessivo.
Como observa o crítico Eduardo Sterzi, em Por que ler Dante, sua obra é “vulgar demais, complexa demais” para leituras simplificadoras. Em Dante, ideias opostas coexistem no mesmo verso: fé e política, eternidade e história, violência e beleza.
“Dante era misturado demais — vulgar demais, complexo demais — para o gosto médio “humanista” e, depois, “iluminista: em sua obra, as tendências de pensamento mais conflituosas coexistem numa mesma seqüência de versos, as temporalidades mais diversas se encontram em choque, imbricam-se sem se conciliar, interpelam-se e questionam-se umas às outras.“
Esse choque é parte da experiência. Dante não quer conforto e sim confronto!
4. O Inferno nos atrai porque ainda nos reconhecemos nele
É curioso admitir, mas muitos leitores se sentem mais fascinados pelo Inferno do que pelo Paraíso. Não por morbidez, mas por reconhecimento.
Mesmo com a distância histórica, a luta entre bem e mal, culpa e redenção, erro e escolha continua ali — em imagens intensas, quase cinematográficas. Dante começa perdido numa floresta, símbolo de desorientação moral. Quem nunca?
Os conceitos medievais de pecado podem soar ultrapassados, mas a força poética dos versos atravessa séculos. Não é o sistema moral que nos prende — é a linguagem.
5. Dante muda o leitor (mesmo quando ele resiste)
Ler A Divina Comédia não é uma experiência neutra. Mesmo quando causa estranhamento, cansaço ou recusa, algo se desloca.
A leitura exige tempo, atenção e entrega. Mas, em troca, oferece uma das experiências literárias mais densas já escritas. Dante não escreve para agradar: escreve para transformar.
Talvez esse não seja um “bom motivo” objetivo para ler Dante. Mas é, sem dúvida, um motivo honesto.
Por que A Divina Comédia ainda importa
Dante Alighieri escreveu um livro que moldou a língua italiana, influenciou séculos de escritores e ainda hoje provoca leitores. Ler Dante é entrar em contato com a origem de muitas ideias que estruturam a literatura ocidental.
Não é uma leitura fácil. Mas poucas leituras realmente importantes são.
O próprio autor considerava a sua própria obra parte de um conjunto das grandes obras da humanidade. Nos versos de seu livro A Divina Comédia, ele coloca a si mesmo no páreo com: Homero, Horácio, Ovídio e Lucano:
“Olha o que vem à frente qual decano
dos outros três, segurando uma espada;
ele é Homero, poeta soberano;
o satírico Horácio junto vem,
terceiro é Ovídio e último Lucano.
Desde que cada um deles detém
os mesmos dotes co’os quais fui saudado,
recebo sua honraria como convém.
Assim o belo grupo vi formado
da escola do senhor do excelso canto
cujo vôo, como d’águia, é incontestado“
Ler A Divina Comédia é aceitar que a literatura não serve apenas para entreter, mas para desorganizar certezas. Dante não oferece atalhos, não facilita a travessia e tampouco suaviza a experiência do leitor. Ele exige fôlego, paciência e disposição para caminhar por um território simbólico que mistura culpa, desejo, política, fé e linguagem. Talvez por isso tanta gente adie essa leitura… E talvez, justamente por isso, ela continue necessária. Dante Alighieri escreve para leitores que aceitam se perder antes de compreender. E, no fim, é justamente essa perda momentânea que torna o retorno tão transformador.



