atualizado em 08/01/2026
Emily Brontë costuma ser lembrada quase exclusivamente por O Morro dos Ventos Uivantes, mas sua poesia revela uma escritora ainda mais radical, solitária e espiritual do que o romance sugere. Publicando sob o pseudônimo masculino Ellis Bell, Emily escreveu poemas que desafiam o sentimentalismo romântico comum à época e mergulham em temas como morte, transcendência, solidão, natureza e fé interior.
Sua poesia não busca agradar: ela afronta, resiste e permanece. Há nela um diálogo intenso com a paisagem, com o vento, com a noite e com forças invisíveis que ultrapassam o humano. Ler os poemas de Emily Brontë é entrar num território em que o eu lírico se dissolve no mundo e o mundo, por sua vez, revela sua face mais sombria e sublime.
A seguir, uma seleção de poemas essenciais de Emily Brontë, acompanhados de análises interpretativas que ajudam a compreender por que sua poesia é uma das mais singulares da literatura inglesa do século XIX.
1. Já não é mais tempo (Emily Brontë)
Já não é mais tempo para te chamar ainda,
Não quero mais embalar este sonho.
Assim o raio de alegria não durou senão um momento
E a dor infalível logo voltou impetuosa.
E depois a bruma já se levantou a meio;
A rocha estéril exibe o seu flanco nu,
Onde o sol e os primeiros olhares da aurora
Acabaram por adorar suas imagens nascentes.
Mas na memória fiel da minha alma,
Tua sombra amada será eternamente emocionante,
E Deus será o único a reconhecer sempre
O asilo abençoado que abrigou minha infância.
Para entender:
Este poema trabalha a memória como território sagrado, algo que não pode mais ser revivido, apenas preservado. O eu lírico abdica da esperança concreta, mas não renuncia à lembrança. A infância surge como abrigo espiritual protegido da corrosão do tempo.
Emily Brontë constrói aqui uma tensão entre perda e fidelidade interior. O mundo externo se torna árido (“rocha estéril”), enquanto a vida verdadeira passa a existir apenas no espaço íntimo da alma. Há também um deslocamento importante: não é o amor humano que garante permanência, mas uma instância superior, quase divina, que reconhece aquilo que foi vivido em profundidade.
É um poema sobre renúncia sem ressentimento, o que é algo raro e poderoso!
2. O vento da noite
À meia-noite de verão, mole como um fruto maduro,
A lua sem véus lançou a sua luz
Pela janela aberta do parlatório,
Através dos rosais onde o orvalho chovia.
Sentada e perseguindo o meu sonho de silêncio,
A doce mão do vento brincava em meus cabelos
E sua voz me contava as maravilhas do céu.
E a terra era loura e bela de sono.
Eu não tinha necessidade do seu hálito
Para me elevar a tais pensamentos,
Mas um outro suspiro em voz baixa me disse
Que os negros bosques são povoados pelas trevas.
A folha pesada, nas águas da minha canção,
Escorre e rumoreja como um sonho de seda;
E, ligeira, sua voz miriápode caminha,
Dir-se-ia levada por uma alma fagueira.
E eu lhe dizia: “Vai-te, doce encantador.
Tua amável canção me enaltece e me acaricia,
Mas não creio que a melodia desta voz
Possa jamais atingir o meu espírito.
Vai encontrar as flores, as tuas companheiras,
Os perfumes, a árvore tenra e os galhos débeis;
Deixa meu coração mortal com suas penas humanas,
Permite-lhe escorrer seguindo o próprio curso.”
Mas ele, o Vagabundo, não me queria ouvir,
E fazia seus beijos ainda mais ternos,
Mais ternos ainda os seus suspiros: “Oh, vem,
Saberei conquistar-te apesar de ti mesma!
Dize-me, não sou o teu amigo de infância?
Não te concedi sempre o meu amor?
E tu o inutilizavas com a noite solene,
Cujo morno silêncio desperta minha canção.
E quando o teu coração achar enfim repouso,
Enterrado na igreja sob a lousa profunda,
Então terei tempo para gemer à vontade,
E te deixarei todas as horas para ficar sozinha…”
Para entender:
Neste poema, o vento assume uma dimensão quase erótica e metafísica. Ele toca, sussurra, insiste, seduz. Não é apenas um elemento natural: é uma entidade que deseja conduzir o eu lírico para fora de si.
A resistência da voz poética é central. Diferente de muitos poemas românticos, aqui não há entrega plena ao encantamento. Emily Brontë constrói um embate entre o chamado da dissolução (o vento, a noite, o esquecimento) e a consciência de uma identidade que ainda quer permanecer humana, limitada, mortal.
O final é particularmente perturbador: o vento promete esperar pela morte do eu lírico para, então, gemer livremente. A poesia toca, assim, em um tema recorrente em Emily: a morte não como fim, mas como liberação da fusão com o todo.
3. Últimas palavras (Emily Brontë)
Eu não podia saber como é duro e cruel
Pronunciar a palavra Adeus;
Hoje no entanto volto como suplicante,
Para juntar às orações do coração a voz dos lábios.
A colina deserta e o inverno matinal,
Bem como a árvore de séculos nodosos,
Podem despertar o desprezo da tua alma:
Acharei para eles um desdém semelhante.
Tenho o direito de esquecer teus olhos negros,
Suas sombras,
E o encanto fascinante de teus lábios pérfidos.
Não renegaste as promessas sagradas
Que outrora formularam os teus lábios de fé?
Se basta ordenar para forçar o teu amor,
Se ele se deixar deter pela razão das paredes,
Não saberei obrigar uma alma a se afligir
Com semelhantes traições e friezas desta espécie.
Pois sei que existe mais de um coração
Que, ligando-se ao meu,
Por uma longa prova assegurou este laço.
E sei de um olhar cujo brilho passageiro
Durante muito tempo dividiu comigo o seu calor bendito.
Estes olhos serão para mim o Tempo e a Luz.
Minha alma com seu auxílio enfim se evadirá,
Eles expulsarão de mim os sonhos insensatos,
E as sombrias litanias onde a memória se aconchega.
Para entender:
Este poema trata do adeus não como um gesto simples, mas como uma violência emocional. Dizer adeus é reconhecer a falência de uma promessa, e isso exige força — não fragilidade.
Emily Brontë desmonta o ideal romântico da fidelidade amorosa ao mostrar que a libertação não vem da submissão ao passado, mas da coragem de romper com ele. A substituição simbólica do amor perdido por outro olhar (“Tempo e Luz”) indica que o eu lírico escolhe a continuidade da vida, ainda que marcada pela dor.
É um poema sobre sobrevivência emocional, não sobre esquecimento.
4. Minha alma não tem coisa alguma
Minha alma já não teme coisa alguma,
E a escura tempestade em que sem descanso o mundo
Gira,
Não mais a abalará:
Já vejo a glória dos Céus extasiantes,
E a fé que resplandece no fogo de sua armadura
Aniquila o medo no meu ser.
Ó Deus que eu trago dentro em mim,
Deus todo-poderoso, Presença universal!
És a Vida – em meu seio Tu repousas,
E minha eternidade encontra em Ti o seu poder!
Vejo a vaidade nas suas múltiplas nuances,
Onde o homem alimenta a força do seu coração:
E vejo esta vaidade e a sua impotência
Fanadas e mortas como a erva dos campos,
Como a espuma louca das vagas no oceano,
Tentando inutilmente reanimar a dúvida,
Quando a alma já está sã e salva,
Aprisionada para sempre a Teu Ser infinito,
Através de uma certeira âncora
Lançada ao rochedo imutável da vida eterna!
Teu sopro, com amor, abraça os espaços
E penetra com sua vida os séculos eternos,
Espalha-se como um rio e cobre o nosso mundo,
Mudando ou preservando as coisas,
Dispersando-as, criando-as, trazendo-as à vida.
E se viesse o fim deste mundo e o fim dos homens,
O fim dos universos, a ruína dos sóis,
Se apenas Tu ficasses,
Serias ao mesmo tempo todas as existências.
A Morte se esforça em vão para achar um espaço,
Mas seu poder não pode aniquilar um átomo sequer.
Tu és o Ser e o Sopro,
Nada poderia abolir as Tuas formas.
Para entender:
Este é um dos poemas mais espirituais de Emily Brontë. Aqui, a fé não é institucional, nem dogmática: é interior, orgânica e absoluta. Deus não está fora — está dentro.
A poeta constrói uma visão de mundo em que tudo o que é humano (vaidade, medo, dúvida) se dissolve diante de uma certeza essencial: a permanência do Ser. Não há temor da morte, porque a morte não tem poder sobre aquilo que é eterno.
É um poema de misticismo radical, que antecipa reflexões existenciais muito posteriores à sua época. Emily não escreve sobre Deus como crença, mas como experiência direta.
5. O Lago Morto (Emily Brontë)
O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens,
A lua;
O murmúrio obstinado que cochicha e passa
(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).
Tão tristes agora,
Recaem sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.
Minhas pobres alegrias…
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.
Lentamente, a raiz acaba de morrer.
Para entender:
Aqui, a paisagem funciona como espelho da interioridade. O lago, a lua pálida, o murmúrio contido — tudo é silêncio, suspensão, desgaste.
A imagem da alegria que morre “como um rio deserto” é uma das mais fortes da poesia de Emily Brontë. Não há drama explícito, apenas um lento processo de extinção. O verso final — “Lentamente, a raiz acaba de morrer” — sugere que a perda é irreversível e estrutural, não momentânea.
Este poema sintetiza a poética de Emily: a dor não grita, ela se instala.
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