atualizado em 20/01/2026
Clarice Lispector não cabe em frases soltas. Muito menos nas citações falsas que circulam nas redes sociais, suavizadas, romantizadas e esvaziadas de conflito. Ler Clarice exige outra postura: atenção, desconforto, escuta.
A Maçã no Escuro é um dos romances mais densos e menos citados da autora — e talvez por isso mesmo um dos mais reveladores. Aqui, Clarice escreve sobre liberdade, identidade, silêncio, desejo e o medo radical de existir, sem concessões ao leitor.
As frases abaixo não são aforismos motivacionais. São fragmentos de um pensamento em movimento, retirados integralmente do romance A Maçã no Escuro. Cada uma delas carrega um risco: o de olhar para dentro e não voltar ileso.
Confira abaixo frases de Clarice Lispector retiradas do livro “A maçã do escuro” adicionados de uma breve interpretação para que você leia, entenda e mergulhe no universo tão rico da escritora!
1. “A coisa mais desapaixonadamente individual acontecia quando uma pessoa tinha a liberdade…”
A coisa mais desapaixonadamente individual acontecia quando uma pessoa tinha a liberdade. No começo você é um homem estúpido tendo a mais a grande solidão. Depois, um homem que levou uma bofetada na cara e no entanto sorri beato porque ao mesmo tempo a bofetada lhe deu de presente uma cara que ele não suspeitava. Depois, aos poucos, você começa, sonso, a fazer casa e tomar as primeiras intimidades impudicas com a liberdade: você só não voa porque não quer, e quando se senta numa pedra é porque em vez de voar sentou-se. E depois?
p. 27
Interpretação:
Para Clarice, a liberdade não é euforia — é vertigem. Ela começa como solidão, passa pelo espanto de descobrir um rosto que não se conhecia e desemboca numa intimidade perigosa consigo mesmo. Ser livre não é voar: é escolher não voar, sabendo que poderia. E a pergunta final (“E depois?”) fica sem resposta porque a liberdade nunca se estabiliza.
2. “Fora das ordens e da execução das ordens…”
Fora das ordens e da execução das ordens, pouco havia a dizer. E começava a fazer falta o que não se dizia.
p. 99
Interpretação:
Aqui, o silêncio não é vazio — é falta. Clarice aponta o empobrecimento da linguagem quando a vida se reduz a obedecer e executar. O que não se diz começa a pesar mais do que aquilo que é dito. O romance inteiro se constrói nessa tensão entre palavra e ausência.
3. “Essa coisa sem nome que é o cheiro da terra…”
Essa coisa sem nome que é o cheiro da terra incomodando quente e lembrando com insistência, quem sabe por quê, que se nasceu para amar, e então não se entende.
p. 110
Interpretação:
O “sem nome” é essencial em Clarice. O cheiro da terra desperta uma memória primitiva: nascer para amar sem compreender. É o corpo lembrando algo que a razão não alcança. Amar, aqui, não é escolha — é destino incompreensível.
4. “A glória do ar livre… doeu na extrema perturbação da felicidade.”
E como da primeira vez, a glória do ar livre aproximou-se de alguma coisa que lhe bateu dura no peito e que doeu na extrema perturbação da felicidade que às vezes se sente.
p. 113
Interpretação:
A felicidade, em Clarice, quase sempre dói. Não por ser insuficiente, mas por ser intensa demais. O ar livre traz uma alegria que desorganiza, que bate no peito como impacto físico. Felicidade não é repouso — é perturbação.
A Maça no Escuro, p. 153
5. “Enfim vou viver…”
“Enfim vou viver”, se disse ela. Mas a verdade é que isso mais parecia uma ameaça.
p. 153
Interpretação:
Viver, aqui, não é promessa — é risco. A frase desmonta a ideia de vida como redenção. Assumir a própria existência pode soar ameaçador porque implica perder proteções, ilusões e desculpas.
6. “Não existia essa coisa de não ter nada a perder.”
(…) não existia essa coisa de não ter nada a perder. O que existia era alguém que arrisca tudo; pois embaixo do nada e do nada e do nada, estamos nós que, por algum motivo, não podemos perder.
p. 154
Interpretação:
Clarice desmonta um clichê. Sempre há algo a perder porque somos o que está em jogo. Arriscar tudo não é ausência de medo — é reconhecer que, mesmo no nada, ainda estamos ali, vulneráveis.
7. Tão horrivelmente livre….
Tão horrivelmente livre como o campo odiado. Tão livre que talvez já não pudesse mais ser, sequer, essa coisa no entanto já tão livre que era um pássaro. Pois mesmo um pássaro ainda era cheio das penas quentes, e tão sujo de íntimo sangue.
p. 157
Interpretação:
A liberdade absoluta assusta. Comparada a um campo aberto, ela expõe o sujeito sem abrigo. Até um pássaro, lembra Clarice, ainda carrega penas e sangue. A liberdade total seria quase desumana.
8. “Em amor e angústia e ferocidade…”
Ah! Disse ele em amor e angústia e ferocidade e piedade e admiração e tristeza, e tudo isso era a sua alegria.
p. 166
Interpretação:
Alegria, aqui, não é pureza emocional. É mistura: amor, angústia, ferocidade, piedade. Clarice escreve uma alegria complexa, que não se opõe à dor — a inclui.
9. “Se não tinha a ação, tinha o grande amor.”
E se não tinha a ação, tinha o grande amor. Um homem podia não saber nada; mas sabia como se virar, por exemplo, para o lado do poente: um homem tinha o grande recurso da atitude. Se não tivesse medo de ser mudo.
p. 175
Interpretação:
Mesmo sem agir, o sujeito ainda pode escolher uma atitude. Clarice sugere que a dignidade humana pode existir no gesto mínimo: virar-se para o poente, sustentar o silêncio, aceitar a mudez sem medo.
Clarice Lispector. A Maça no Escuro, p. 228
10. “Eu te amo, experimentou com cuidado…”
Eu te amo, experimentou com cuidado dando a primeira cautelosa amostra de si mesma no escuro para ver se era verdade que nada lhe aconteceria. E nada aconteceu. A senhora pareceu decepcionada como se na verdade tivesse esperado que depois da audaciosa frase a escuridão se fizesse dia ou que enfim começasse a chover ou que ela de súbito pudesse se ter transformado em outra pessoa.
Clarice Lispector. A Maça no Escuro, p. 228
Interpretação:
Talvez uma das cenas mais desconcertantes do livro. Dizer “eu te amo” não produz milagre algum. O mundo não se transforma. A chuva não cai. E isso frustra — porque esperávamos que a linguagem tivesse poder mágico.
11. “É sempre assim que acontece…”
(…) é sempre assim que acontece – quando a gente se revela, os outros começam a nos desconhecer.
A Maça no Escuro, p. 186
Interpretação:
Revelar-se não aproxima necessariamente — afasta. Clarice aponta o paradoxo da intimidade: quanto mais verdadeiros somos, menos reconhecíveis nos tornamos para os outros.
12. “Silêncio ao coração do homem.”
(…) assim a falta de desejo dava silêncio ao coração do homem. Procurou a sua própria fome: mas era o silêncio quem lhe respondia. Ele estava experimentando o que era pior que tudo: não querer mais. O primeiro momento foi muito ruim, mal calculou ele que não querer era tantas vezes a forma mais desesperada de querer.
Clarice Lispector. A Maça no Escuro, p. 199
Interpretação:
O silêncio do desejo é mais violento do que a falta. Não querer pode ser exaustão extrema, quando o querer já doeu demais. Clarice descreve o fundo do poço afetivo com precisão cirúrgica.
13. A luxúria de estar viva
Sozinha, com a miséria de sua luxúria. Que não era sequer luxúria de amor. Era mais grave. Era a luxúria de estar viva.
A Maça no Escuro, p. 233
Interpretação:
Não se trata de erotismo, mas de intensidade vital. Estar vivo, para Clarice, é excesso, incômodo, matéria bruta. Uma luxúria sem objeto existencial.
14. “A chuva lhe parecia a palavra.”
Quando começou a chover, a senhora chegara a um ponto de silêncio em que a chuva lhe parecia a palavra.
A Maça no Escuro, p. 235
Interpretação:
Quando a linguagem falha, o mundo fala. A chuva assume o lugar da palavra humana. É o momento em que o silêncio deixa de ser ausência e vira comunicação.
A Maça no Escuro, p. 310
15. “Os outros… são o nosso mais profundo mergulho.”
Que coisa estranha: até agora eu parecia estar querendo alcançar com a última ponta de meu dedo a própria última ponta de meu dedo – é verdade que nesse extremo esforço, cresci: mas a ponta de meu dedo continuou inalcançável. Fui até onde pude. Mas como é que não compreendi que aquilo que não alcanço em mim… já são os outros? Os outros, que são o nosso mais profundo mergulho!
A Maça no Escuro, p. 310
Interpretação:
A grande revelação final: o que não alcançamos em nós mesmos está no outro. Não como espelho fácil, mas como abismo. Os outros são o ponto onde nos perdemos — e talvez onde nos encontremos.
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