atualizado em 24/12/2025
Virginia Woolf não escrevia apenas romances e ensaios. Seus diários formam um território à parte: ali, a grande escritora se revela como alguém atravessada por dores físicas, crises emocionais, pequenos encantamentos e uma atenção quase radical à vida cotidiana.
Ler esses registros é um exercício de aproximação. Um modo de imaginar a escritora não como monumento literário, mas como alguém que acorda com dor de cabeça, se cansa, se preocupa com os amigos, observa o tempo, se emociona com uma paisagem simples. Uma borboleta no jardim, uma manhã de neblina, uma conversa atravessada pelo medo da morte.
Foi procurando por esses instantes que cheguei ao Natal de Virginia Woolf — não como data festiva idealizada, mas como dia vivido, sentido e registrado em meio à fragilidade e ao desejo profundo de continuar vivendo.
Um Natal raro nos diários
Ao percorrer seus diários, chama atenção o fato de que, em muitos anos, Virginia Woolf interrompe a escrita no final de outubro e só a retoma no ano seguinte. Isso pode indicar uma escolha consciente de descanso, mas também sabemos que seus silêncios frequentemente coincidem com períodos de esgotamento físico e depressão.
Por isso, a anotação de dezembro de 1931 se torna especial. Não apenas por registrar o Natal, mas por condensar, em poucas páginas, temas recorrentes em sua vida: doença, amizade, morte, cansaço, memória e, apesar de tudo, o triunfo da vida.
“O triunfo da vida”: o Natal de 1931
Diário de Virginia Woolf — Dezembro de 1931
[Dezembro, 1931]
Sexta. Dia de Natal. De manhã
[Monk’s House, Rodmell]O Lytton ainda está vivo esta manhã. Pensávamos que não resistisse a esta noite. Foi uma noite de luar. A Nessa telefonou às dez para dizer que ele tinha bebido leite e chá depois de uma injeção. Quando ela foi para Hungerford, ontem, estavam por lá todos em grande desespero. Havia vinte e quatro horas que ele não ingeria nada, e estava quase inconsciente. Pode ser o ponto de virage, ou pode não ter qualquer significado.
Vamos almoçar com os Keynes. E de novo tudo me recorda, numa explosão, numa expansão, e eu começo a pensar nas coisas que lhe hei-de dizer, tão forte é o desejo de viver – o triunfo da vida.
Uma suave manhã de neblina.
Depois de ter escrito a última página, em 16 de Novembro, não fui capaz de continuar a escrever sem ficar com uma perpétua dor de cabeça; de modo que tirei um mês de férias e fiquei deitada; não tenho escrito uma linha que seja; li o Fausto [de Goethe], li Coningsby, etc., e estive com o Clive, com a Christabel, a Nessa, Miss Bowen, Alice Ritchie, isto até há quinze dias, quando soube do Lytton.
Há um mês que ele está doente. Tenho vivido mais uma vez todos os graus da emoção; depois o telefone; depois a Angelica veio cá; depois fomos visitar o James; depois viemos para cá na terça-feira passada, uma viagem negra, uma árvore fez-me lembrar o Lytton.
Fomos a Brighton ontem. Tudo muito sereno, em neblina; um céu azul e nuvens brancas ontem à noite. Falei com o L. ontem à noite sobre a morte; a estupidez da morte; o que ele iria sentir se eu morresse. Ele abandonaria talvez a editora; mas disse que uma pessoa deve ser natural.
E a sensação de velhice a invadir-nos; e o sofrimento de perder os amigos; e a minha antipatia pela geração mais nova; e depois raciocino que devo ser compreensiva.
E agora estamos mais felizes.
Interpretação: um Natal sem enfeites, mas cheio de vida
Este não é um Natal de celebração convencional. É um Natal atravessado pela possibilidade iminente da morte de Lytton Strachey, amigo íntimo e figura central do grupo de Bloomsbury. Woolf escreve sob tensão, à espera de telefonemas, oscilando entre esperança e exaustão.
Ainda assim, algo se impõe com força: o desejo de viver. Ela o nomeia explicitamente. O triunfo da vida não aparece como euforia, mas como insistência. Como permanência apesar do cansaço, da dor física, da velhice que começa a ser sentida no corpo e da perda progressiva dos amigos.
Há também aqui uma Woolf profundamente consciente do tempo: o tempo que falta, o tempo que pesa, o tempo que ainda pulsa numa manhã de neblina. É uma escrita que não embeleza a experiência, mas a aceita em sua complexidade.
O Natal possível de Virginia Woolf
Ler este trecho hoje é um lembrete potente: o Natal nem sempre é alegria ruidosa. Às vezes, é apenas estar vivo, atravessar o dia, sentar-se à mesa, conversar sobre a morte, observar o céu e, apesar de tudo, seguir.
Virginia Woolf nos ensina que a vida não precisa estar em ordem para ser vivida. E que até nos dias frágeis — talvez especialmente neles — há algo que insiste, silenciosamente, em continuar.
Fonte:
Virginia Woolf – Diário, Volume II (1927–1941)
Bertrand Editora, Portugal
Tradução de Maria José Jorge


