7 poemas de Oscar Wilde sobre amor, dor e as contradições da vida

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conteúdo atualizado em 29/12/2025

Poucos escritores souberam transformar a própria vida em matéria literária com tanta intensidade quanto Oscar Wilde. Ler seus poemas é entrar num território onde beleza e ruína caminham juntas, onde o amor é ao mesmo tempo promessa e ferida, e onde a arte nunca aparece como consolo fácil, mas como excesso, risco e revelação.

Conhecido sobretudo pelo romance O Retrato de Dorian Gray e por suas peças teatrais afiadas, Wilde também construiu, na poesia, um espaço mais íntimo e melancólico. Seus versos exploram a dualidade entre aparência e verdade, prazer e sofrimento, fé e desencanto. Há luxo formal, musicalidade precisa e, por baixo da elegância, uma tensão constante entre desejo e culpa, liberdade e punição.

Nesta seleção, os poemas revelam um Wilde menos irônico e mais exposto. Um poeta que escreve sobre amor, morte, prisão, tempo e perda com uma sensibilidade que antecipa o drama de sua própria trajetória. Não são poemas confortáveis e sim poemas que permanecem.

Poemas de amor de Oscar Wilde

Os poemas de amor de Oscar Wilde não seguem o romantismo idealizado e dócil. Neles, o amor aparece atravessado pela culpa, pelo desejo, pela perda e pela consciência do tempo. Amar, para Wilde, é sempre um gesto ambíguo: ao mesmo tempo libertador e destrutivo. Seus versos revelam relações marcadas pela intensidade emocional, pelo conflito entre prazer e moralidade, e pela percepção de que toda paixão carrega, em si, a semente da ruína.

1. Minha voz

Dentro deste mundo inquieto, apressado e moderno,
Nós arrancamos todo o prazer de nossos corações, você e eu.
Agora as velas brancas do nosso navio acenam firmes,
Mas o tempo de embarque já passou.

Minhas bochechas murcharam antes do tempo,
Tanto foi o choro que a alegria fugiu de mim,
A dor pintou meus lábios de branco,
E Ruin dança nas cortinas da minha cama.

Mas toda essa vida tumultuada foi para você
Não mais que uma lira, um luto,
Um sutil feitiço musical,
Ou talvez a melodia de um oceano adormecido,
A repetição de um eco.

Análise:
Neste poema, Wilde transforma a voz poética em vestígio: algo que já foi vital, mas agora ecoa como lembrança. O amor aparece não como encontro, mas como assimetria: tudo foi intenso para quem escreveu, quase irrelevante para quem ouviu. A imagem do navio que já perdeu o tempo de embarque sugere um amor tardio, condenado desde o início. É um poema sobre oferecer demais e ser ouvido de menos.

2. Desespero

As estações derramam sua ruína enquanto passam,
Pois na primavera os narcisos levantam seus rostos
Até que as rosas desabrochem em chamas ardentes;
E no outono violetas roxas florescem
Quando o açafrão quebradiço agita a neve do inverno,
Mas as árvores jovens decrépitas renascerão,
E esta terra cinzenta crescerá verde com o orvalho do verão,
E as crianças correrão por um oceano de prímulas frágeis.
Mas que vida, cuja ganância amarga
Rasgue nossos calcanhares, vigiando a noite sem sol,
Estimulará a esperança daqueles dias que não voltarão mais?
Ambição, amor e todos os sentimentos que queimam
Eles morrem cedo demais, e só encontramos felicidade
Os restos murchos de alguma memória morta.

Análise:
Aqui, Wilde confronta uma das ideias mais duras de sua poesia: a de que a natureza se renova, mas o humano não. As estações retornam, as flores reaparecem, porém as paixões humanas morrem cedo demais. O poema articula uma crítica profunda à ambição e ao desejo, vistos como forças que prometem sentido, mas deixam apenas resíduos de memória. A felicidade, quando existe, é sempre retrospectiva.

3. Morte em vida

As ações mais vis, como ervas venenosas,
florescem bem no ar da prisão:
é só o que é bom no homem
o que é desperdiçado e murcha ali:
pálida angústia guarda o pesado portão,
e o guardião é o desespero.

Porque eles matam de fome o garotinho assustado
até que ele chore de dia e de noite:
e açoite o fraco, açoite o tolo,
eles zombam do velho cinza,
e alguns enlouquecem, e tudo vai mal,
e nenhuma palavra pode ser dita.

Cada cela apertada em que vivemos
É uma latrina escura imunda
e o hálito fétido da morte em vida
sufoca cada terno risca de giz,
e tudo menos a luxúria vira pó
na máquina da humanidade.

Análise:
Escrito sob o impacto da prisão, este poema é um dos mais violentos de Wilde. A cadeia aparece como um espaço onde o que há de humano apodrece, enquanto o instinto mais brutal sobrevive. Não é apenas uma denúncia do sistema penal: é uma reflexão sobre como instituições esmagam subjetividades. A “morte em vida” não é metáfora: é estado contínuo, cotidiano, sufocante…

4. Sinfonia em Amarelo

Como amarela borboleta
Cruza a ponte a diligência;
Um transeunte, intermitente,
Surge tal mosca inquieta.

Contra o molhe se arremessam
As lanchas de feno amarelo,
E a bruma vela o cais, um selo
Ou lenço amarelo de seda.

Amarelas, folhas fanadas
Caem dos olmos de Temple;
Verde, a meus pés, jaz o Tamisa
Tal vara de jade estriada.

Análise:
Em contraste com os poemas mais sombrios, este texto aposta na pintura verbal. Wilde trabalha a cor amarela como fio condutor sensorial, transformando a paisagem urbana em composição musical. É um poema de atmosfera, não de narrativa. Aqui, a poesia funciona como percepção: o mundo não é explicado, apenas visto e isso basta.

5. Debaixo da varanda

Ó bela estrela de boca carmesim!
Ó lua de sobrancelhas douradas!
Eles sobem, eles sobem do sul perfumado!
Eles iluminam o caminho do meu amor,
Para que seus pés delicados não se desviem
No vento que desce o morro.
Ó bela estrela de boca carmesim!
Ó lua de sobrancelhas douradas!

Ó barco que se agita no mar desolado!
Ó navio de velas brancas e molhadas!
Volta, volta ao porto por mim!
Bem meu amor e eu quero ir
Para a terra onde os narcisos sopram
Sobre o coração de um vale roxo!
Ó barco que se agita no mar desolado!
Ó navio de velas brancas e molhadas!

Ó pássaro baixo fugaz, notas doces!
Ó pássaro que repousa no orvalho!
Cante, cante com sua voz suave no vazio!
Meu amor em sua pequena cama
Ele vai te ouvir, ele vai levantar a cabeça do travesseiro
E vai do meu jeito!
Ó pássaro baixo fugaz, notas doces!
Ó pássaro que repousa no orvalho!

Ó flor que paira no ar trêmulo!
Ó flor de lábios nevados!
Desça, desça até o cabelo do meu amor!
Você deve morrer em sua cabeça como uma coroa,
Você deve morrer em uma dobra de suas roupas,
No pequeno brilho do seu coração você tem que descansar!
Ó flor que paira no ar trêmulo!
Ó flor de lábios nevados!

Análise:
Este poema constrói um coro de invocações (estrela, lua, barco, pássaro, flor) todos convocados para proteger e conduzir o amor. Há algo de encantatório na repetição, quase como uma canção ritual. O amor é frágil, ameaçado pela distância e pelo tempo, e a natureza surge como mediadora entre o desejo e o medo da perda.

6. Désespoir

As estações deixam, ao passar, sua ruína,
E pois, na Primavera, o narciso que abre
Só murcha quando a rosa em chama rubra arde,
E as violetas roxas florem no Outono,
E o croco faz no Inverno a neve estremecer;
Assim hão-de florir de novo os lenhos nus
E este barro gris enverdecer de chuva
E dar boninas, que um moço há-de colher.

Mas que dizer da vida cujo mar faminto
A nossos pés escorre, e das noites sem sol
Toldando os dias de que não resta esp’rança?
A ambição, o amor, tudo o que penso ou sinto,
Cedo é perdido, e há que achar prazer tão-só
Nas espigas ressequidas da morta lembrança.

Análise:
Versão condensada e ainda mais amarga do poema Desespero, este texto reforça a ideia de que o humano carrega um cansaço estrutural. Nada aqui se resolve: nem o amor, nem a ambição, nem a memória. A linguagem é elegante, mas o conteúdo é árido. Wilde parece dizer que a lucidez cobra um preço alto e que nem todos estão dispostos a pagá-lo.

7. Flor de amor

Não te culpo, amor, foi por culpa minha, que se não fora feito de barro vulgar
Eu escalava aos penhascos por pisar, e ao mais largo dia, ao mais puro ar.

Do centro louco da paixão defunta, eu tocava a mais melódica cantiga,
Acendia a luz mais clara, mais livre liberdade, e degolava a hidra antiga.

Fosse-me a boca dada ao campo pelos beijos, ao invés de a ter ferida,
Andavas tu junto dos Anjos e de Bice sobre relva de esmalte enverdecida.

Eu trilhava o trilho que Dante trilhou, vendo brilhar os Sóis de sete aros finos,
Sim! talvez por sorte visse os céus se abrir, como se abriram ante o florentino.

E os reinos me dariam uma coroa, que ninguém me dá agora, ninguém sequer me chama,
E, pela alba de Oriente, prostrar-me-ia no umbral do Palácio da Fama.

E sentava-me no círculo de mármore, onde priva com o velho o jovem bardo,
E a flauta verde eternamente mel, e eternamente tangem as cordas da harpa.

Teria Keats erguido os cabelos anelados, no enlevo das papoilas do licor,
Beijado-me com boca de ambrósia, estreitado minha mão com nobre amor,

E quando, na Primavera, a macieira em flor toca o seio brunido duma pomba,
Um par de namorados novos num pomar leria o nosso amor à sua sombra.

Leria a lenda de minha paixão, o amaro segredo de meu coração,
Beijar-se-ia como nos beijámos, mas não seria sua esta nossa cisão.

Porque a vermelha flor de nossa vida é comida pelo cancro da verdade,
E nenhuma mão recolhe as folhas soltas, murchas, da rosa da mocidade.

Contudo não lamento ter-te amado – que mais teria eu feito, um rapaz!
Pois os dentes famintos do tempo devoram, e seguem os passos dos anos atrás.

Sem leme, vogamos na tempestade; e, após a tormenta dos anos primeiros,
Vem por fim, sem lira, ou coro, a Morte, esse mudo timoneiro.

E não nos guarda a campa nenhum prazer, o licranço na raiz se fortifica,
E o Desejo em cinzas se parte, e o lenho da Paixão não frutifica.

Ah! que mais poderia eu senão amar-te! menos doce me era a mãe do Salvador,
Menos doce a Citereia, tal argentino lírio sobre as ondas de esplendor.

Escolhi, vivi os meus poemas, e embora o lustre jovem morra embaciado,
Mais queria a flor da murta do amor do que os louros ao poeta destinados.

7. Flor de amor

Análise:
Talvez o poema mais autobiográfico da lista, Flor de amor mistura arrependimento, orgulho e aceitação. O eu lírico reconhece que o amor vivido custou tudo (fama, futuro, paz), mas ainda assim afirma: não poderia ter feito diferente. É um poema sobre escolha e consequência, onde amar intensamente vale mais do que qualquer glória literária. Aqui, Wilde transforma a própria queda em gesto poético.


FAQ – Perguntas frequentes sobre os poemas de Oscar Wilde

❓ Oscar Wilde escreveu muitos poemas?

Sim. Embora seja mais lembrado por suas peças e romances, Oscar Wilde publicou diversos poemas ao longo da vida, explorando temas como amor, estética, espiritualidade, decadência e sofrimento.

❓ Qual é o tema central da poesia de Oscar Wilde?

A dualidade. Seus poemas frequentemente colocam em tensão beleza e dor, prazer e culpa, arte e moral. Wilde escreve a partir do excesso — emocional, estético e existencial.

❓ Os poemas de Oscar Wilde falam de amor?

Sim, mas não de forma idealizada apenas. O amor aparece como desejo, perda, sacrifício e, muitas vezes, como experiência impossível de sustentar no tempo.

❓ A poesia de Oscar Wilde é difícil de ler?

Não necessariamente. Apesar da linguagem elaborada, seus poemas são imagéticos e sensoriais. A dificuldade está menos no vocabulário e mais na densidade emocional dos temas.

❓ Onde posso ler mais poemas de Oscar Wilde?

Os poemas de Oscar Wilde estão disponíveis em edições completas de sua obra poética e em seleções publicadas em domínio público, especialmente em inglês.

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