Termino a leitura querendo dizer tanto, mas sem saber por onde começar. Respiro, olho pela janela, ajeito o meu casaco e penso naquela famosa frase comum aos leitores “posso morrer agora que já li este livro”. Mas simultaneamente penso que é melhor não morrer agora, pois se Sergio Y. Vai à América me causou esse feliz espanto, quero viver muito mais para correr atrás de livros bons assim.

    Sergio Y. vai à América

    Muitos conseguiriam aperfeiçoar a primeira versão da vida que receberam. Mas, para isso, precisaram ter coragem de pular de um trampolim de cinquenta metros de altura com os olhos vendados, sem saber se o que esperava no solo era água ou asfalto.

    p. 120

    Alexandre Vidal Porto é o nome do escritor brasileiro que deu vida a Sergio, Armando, Sandra, Cecília, Tereza, Salomão e Laurie, personagens cativantes, curiosos, melancólicos e muito diferentes entre si, porém com um objetivo tão comum: encontrar a tal felicidade. Alguns deles já possuíam uma pitada desse ingrediente tão simples, prático e ao mesmo tempo tão raro, mas um deles, Sérgio Y., ao procurar o consultório psiquiátrico de Armando, revela que sentia muita tristeza – o tempo todo: “A minha natureza é deprimida. Sempre foi. Não consigo escapar dela.” (p. 23)

    Armando: narrador e personagem

    Quem narra a história é o próprio Armando que, curiosos pelo destino de seu paciente, relembra a trajetória do garoto que o procurou para expor sua tristeza, abandonou o tratamento e foi viver em Nova York.

    Assim, resumindo, parece simples, mas a trajetória de Sérgio vista pelo olhar de Armando contém tantas singularidades que deixa o leitor, além de curiosos, comovido com a vida que Sérgio enfrentou, pois ele, além de tudo, foi corajoso.

    O que acontece com a vida de Sérgio envolve também a sua família e próprio meio em que ele vive, apesar de ser apenas a busca de sua felicidade, gera desconforto que, com certeza todos nós já sentimos, pois o que é muito diferente, mesmo com a dignidade e a coragem presentes, causa surpresa. E o que fazer com essa surpresa é o que está registrado em nós por meio de nossas ideologias, cultura, crenças e o amor que sentimos (ou não) pelo próximo.

    Armando, sem querer, ajuda Sergio a tomar uma grande decisão. Tudo porque, ao indicar um Museu para ele visitar em Nova York, faz com que o destino coloque nas mãos de Sérgio um livro, uma biografia, que além de revelar uma linda história sobre a busca da felicidade, contribui para que Sergio compreenda a sua tristeza e dê um fim à ela, gerando para si mesmo um novo recomeço.

    Um tema central e universal

    E não posso deixar de registrar aqui que, durante a apresentação de Armando para o leitor sobre a biografia que Sergio leu e mudou a sua vida, há uma frase que lembra muito o que aconteceu com Virginia Woolf, não sei se foi uma coincidência ou se o autor conhece a autora:

    Imaginava uma morte fria e azulada. Pensava em encher os bolsos de seu avental com pedras e entrar no rio no início da primavera, quando a água começasse a degelar. Desejava morrer afogada, sob placas de gelo flutuantes.

    p. 122

    Então, o tema central da história é a busca da felicidade, mas por partir de um desejo que ainda é um tabu em nossa sociedade, também podemos dizer que o tema é a identificação social, que traz ao romance um papel de investigador das fronteiras que, além de culturais, sociais, religiosas, etc, também está presente em nosso próprio ser, em nosso próprio corpo.

    É muito importante quando a literatura consegue estar à frente de nosso tempo, pois assim os livros não se tornam apenas histórias para nos entreter, mas também um importante elemento de construção para uma sociedade sem preconceitos.

    Sobre o autor Alexandre Vidal Porto

    Eu não conhecia o trabalho do escritor Alexandre Vidal Porto (nascido em São Paulo em 1965, Diplomata, Mestre em Direito pela Universidade de Harvard e colunista da Folha de São Paulo), mas depois dessa excelente leitura, ele está na minha lista de escritores brasileiros que valem muito à pena ficar de olho. Além de Sergio Y. vai à América (lançado neste ano pela Companhia das Letras), que ganhou o Prêmio Paraná de Literatura em 2012, ele já publicou um outro livro, chamado “Matias na Cidade”.

    No canal Livro&Café indiquei 3 livros de jovens escritores, um deles é “Sergio Y.” Assista:

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