Na literatura brasileira, poucos nomes brilham com tanta intensidade quanto o de Cecília Meireles. Reconhecida por sua sensibilidade poética e profundidade temática, Meireles deixou uma marca que continua a inspirar e encantar leitores. Uma das coisas mais marcantes de sua obra é o poema “Motivo”, que revela a essência da condição humana (e do ser poeta) e a busca pela expressão artística como uma forma de transcender a efemeridade da vida. Nesta análise, mergulharemos nas profundezas deste poema, explorando suas nuances e descobrindo as reflexões que ele provoca sobre a existência, a arte e a própria natureza da poesia.

    Motivo – Cecília Meireles

    Eu canto porque o instante existe
    e a minha vida está completa.
    Não sou alegre nem sou triste:
    sou poeta.

    Irmão das coisas fugidias,
    não sinto gozo nem tormento.
    Atravesso noites e dias
    no vento.

    Se desmorono ou se edifico,
    se permaneço ou me desfaço,
    — não sei, não sei. Não sei se fico
    ou passo.

    Sei que canto. E a canção é tudo.
    Tem sangue eterno a asa ritmada.
    E um dia sei que estarei mudo:
    — mais nada.

    poema Motivo
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    Quando falamos de poesia, falamos de um campo muito vasto de interpretações. Porém, é possível analisar as estrofes e suas significações de forma fácil. Mas, claro: nada chega a todo sentimento que um belo poema é capaz de colocar no coração de seus leitores. Portanto, antes dessa análise, apenas leia e curta a beleza do poema.

    O poema “Motivo” de Cecília Meireles é uma reflexão profunda sobre o sentido de ser no mundo, a efemeridade da vida e a própria natureza da arte poética. Observe:

    1. A celebração do momento presente: O poema começa com uma afirmação da existência do momento presente. “Eu canto porque o instante existe” sugere uma apreciação pela vida e tudo o que ela contém, mesmo em sua brevidade. Isso pode ser interpretado como um convite à valorização do momento presente, destacando a importância de viver plenamente.
    2. A completação na expressão artística: A autora declara que sua vida está completa porque ela é uma poeta. Isso sugere que a expressão artística preenche um vazio ou proporciona uma sensação de plenitude. Ser poeta não se trata apenas de uma identidade, mas de uma forma de existir e de se relacionar com o mundo.
    3. A dualidade da existência: Cecília Meireles descreve sua experiência como não sendo alegre nem triste, mas sim uma mistura dos dois. Essa ambivalência reflete a complexidade da experiência humana, onde não há uma separação rígida entre emoções opostas, mas sim uma coexistência e interação entre elas.
    4. Identificação com o efêmero e a fluidez: O poema sugere uma identificação com “coisas fugidias” e a imagem de atravessar “noites e dias no vento” transmite uma sensação de fluidez e transitoriedade. Isso pode ser interpretado como uma aceitação da impermanência da vida e a disposição para se adaptar e fluir com as mudanças.
    5. Incerteza e mistério da existência: A autora expressa sua perplexidade diante das vicissitudes da vida, questionando se permanecerá ou se dissolverá, se ficará ou passará. Essa incerteza reflete a fragilidade e a instabilidade da existência humana, bem como a impossibilidade de prever o futuro.
    6. A transcendência pela arte: Apesar da incerteza e da efemeridade, a autora afirma sua certeza na expressão artística: “Sei que canto. E a canção é tudo.” A arte é retratada como algo eterno e transcendente, capaz de ultrapassar as limitações temporais e dar significado à vida.
    7. O silêncio final: O poema termina com a imagem da inevitabilidade do silêncio, sugerindo a aceitação final da mortalidade e da efemeridade da existência. No entanto, mesmo diante dessa perspectiva, a canção permanece como uma lembrança da vida e da expressão artística que transcende a própria mortalidade.

    Em suma, o poema “Motivo” reflete sobre a condição humana, a natureza efêmera da vida e a importância da expressão artística como uma forma de dar sentido e significado à existência. Ele nos convida a contemplar a beleza e a complexidade da vida, mesmo diante da incerteza e da transitoriedade.

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