O Amante (Marguerite Duras)

“Não, aconteceu alguma coisa quando eu tinha dezoito anos que fez surgir esse rosto. Devia ser à noite. Eu tinha medo de mim, tinha medo de Deus. De dia, eu tinha menos medo, e a morte parecia menos pesada.” p. 10

O Amante” é uma bela história: profunda, melancólica e sensual. Escrita em 1984 pela francesa Marguerite Duras (1914 – 1996), o livro é considerado a obra mais importante da autora que, além da literatura, também trabalhou com o teatro e cinema, foi comunista e engajou-se na Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial.

Marguerite Duras teve uma infância difícil e também uma adolescência complicada e é essa fase de sua vida que serviu como base para a história de O Amante, que se passa na Indochina francesa (atual Vietnâ) e revela como foi a iniciação sexual da escritora.

O que mais gostei no livro foi a escrita fragmentada, poética e não-linear. É como se uma música melancólica acompanhasse toda a leitura, que colabora no despertar de diversas sensações. Há momentos que parece que “fio” da história foi perdido, mas de repente ele se revela tão doce, mesmo com um cenário triste.

Interessante também é a troca de narrador. É uma troca sutil que faz com que o leitor perceba que a narradora-personagem conseguiu com sabedoria olhar para o próprio passado, que muitas vezes pode ser tão doloroso. Num parágrafo temos a voz da narradora, outra o personagem e esses dois se confundem e se unem, de forma a tornar o laço da história mais forte, profundo.

” (…) o ponto onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, essa lenta labuta durante toda a minha vida. Ainda estou lá, diante daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Nunca escrevi, e pensei que escrevia, nunca amei, e pensei que amava, nunca fiz nada a não ser esperar diante da porta fechada” (p. 25)

Além da personagem-narradora, a mãe dela e dois irmãos também fazem parte da história e, claro, o amante, um homem muito rico que se rende aos encantos da personagem mesmo sabendo da impossibilidade do amor entre os dois, um clássico literário, porém, permeado de tanta sinceridade sobre amor, sexo, tesão, desejo, ternura e convenções sociais que assusta e faz transbordar uma alegria tão boa pelo prazer de ler uma história assim.

“Na calçada, a multidão segue em todos os sentidos, lenta ou rápida, abre passagem, sarnenta como os cães abandonados, cega como os mendigos, é uma multidão da China, ainda a revejo nas imagens da prosperidade de hoje, na maneira de andarem juntos sem nenhuma impaciência, de estarem nas aglomerações como sozinhos, sem alegria, sem tristeza, sem curiosidade, andando sem parecer ir, sem intenção de ir, apenas de avançar por aqui e não por ali, sozinhos e na multidão, nunca sozinhos por si mesmo, sempre sozinho na multidão.” (p. 42)

O posfácio, escrito por Leyla Perrone-Moisés, é muito rico, pois, além de informações básicas sobre Marguerite Duras, é uma análise literária muito interessante sobre a obra. Segue um trecho para finalizar esta resenha:

“A segurança de Duras, na montagem do texto, é absoluta. Iniciar o texto pelo rosto posteriormente “destruído” da protagonista, que na história tem quinze anos, é anunciar uma desgraça que o leitor desejará conhecer. Sabe-se que, em planos anteriores do romance, este não começava assim. Ao longo da narrativa, alternam-se visões marcantes (a adolescência na balsa, a limusine preta que parece um carro fúnebre, o quarto invadido pelos ruídos e cheiros da rua, a lavagem da casa) e relatos objetivos (os problemas da mãe, o destino posterior dos irmãos, a vida social da colônia, a guerra), numa sábia dosagem.” (p. 111)

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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