Stoner (John Williams): o comum em extraordinário

Stoner é o nome de um romance escrito em 1958 por John Williams, um escritor americano que quase caiu no esquecimento, se não fosse uma editora francesa, a pedido de uma tradutora que em 2011 escolheu o autor para republicar. Dede então, seus livros fazem parte da lista dos mais vendidos em diversos cantos do mundo e chegou aqui no Brasil através da Rádio Londres, uma editora nova, mas cheia de atitude. [ad#adt]

A história é comum, sobre uma pessoa comum, que realiza um trabalho comum, numa cidade comum, convivendo com pessoas comuns. Porém a narrativa de John Williams é tão boa que transforma o comum em extraordinário.

William Stoner é um jovem que decide pelos estudos em vez da vida do campo porque ele sentiu amor à literatura. O seu pai, que achou necessário mandar o filho para a universidade não imaginou que ele jamais voltaria para casa e sim que se tornaria um professor de Literatura. E o extraordinário, o mágico, que faz o leitor amar a história do início ao fim, é que, apesar dele ser o protagonista, há outro muito maior: o vento, e Stoner a pluma que navega silenciosa pela vida.

O romance é possível porque há tantos personagens interessantes quanto Stoner, que desempenham papéis importantíssimos na história: o professor de literatura; a mulher que ele se casou; um “inimigo” de trabalho; uma aluna muito dedicada; dois grandes amigos; uma filha. Todos eles contribuem para a rotina de Stoner e mesmo se eu explicar com detalhes o que faz cada um desses personagens será difícil ainda resumir sobre o que é o livro, pois o que instiga o leitor é o silencio que mora nos personagens, é o que não foi dito. Para Stoner, é como se ele nunca tivesse saído da vida do campo, como se continuasse a olhar uma infinita e calma plantação, mesmo que num dia de tempestade.

A vida de William Stoner na universidade é para deixar qualquer leitor apaixonado. Em meio a literatura clássica, vemos o personagem amar tanto os livros que sentimos por ele uma enorme empatia. Como professor, ele é comum, mas como um apaixonado por literatura, ele vai fundo.

Um ponto importante do romance é que o leitor conhece a vida de Stoner do começo ao fim, assistindo com ele às duas grandes guerras, que mostram o quanto a vida das pessoas mudam, mesmo que elas não queiram, quando o país está em guerra. Mas a grande batalha da vida de Stoner é a própria vida. Ele pode ser considerado por muitos uma pessoa sem culhão e apático, porém há uma luz que envolve o personagem, talvez por ele ser o foco principal do narrador, que deixa tudo melancólico e também muito bonito.

É preciso falar sobre Edith, a mulher que Stoner se casou. Ela protagoniza momentos com uma carga emocional muito forte, intensa e triste. Acredito que ela ganhará interpretações diferentes por parte dos leitores, pois ela é uma mulher incompleta, criada com todos os moldes tradicionais – mulher tem que saber se comportar em público, tem que ser educada, tem que casar, tem que ter filhos. Mas Edith parece não ter consciência de todo o peso que o mundo colocou sobre ela, o que torna o casamento dela com Stoner uma relação extremamente delicada. De um lado o cara gente boa Stoner, de um outro uma mulher gritando por socorro sem ao menos saber que está.

Quando terminei a leitura de Stoner pensei num trecho do diário de Virginia Woolf, em que há um comentário sobre o quanto ela gosta das pessoas que não dão certo na vida, com referência àquelas que não conseguem realizar grandes coisas. Stoner, de uma certa forma, é assim, pois vive um padrão, mas com tanta dignidade e sutileza que o livro é realmente um deleite. E me lembrei também daquela frase que dizem por aí “é disso que eu falo quando…”. Quando virei a última página do livro, pensei: é disso que eu falo quando falo de literatura. Que livro, meus amigos, que livro!

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

8 Comentários
  1. Fran, acho falar de alguém que levou apenas uma vida mediana é um dos grandes méritos de Stoner. Não conhecia essa frase da Virginia, mas adorei. É impressionante como a vida dele tem beleza, por mais insignificante que possa parecer a princípio. É um livro realmente incrível.
    Beijo!

    1. Oi, Eduarda! Ah… Virginia Woolf sempre complementa minhas leituras, minha vida! rs Eu tenho uma forte tendência a gostar de personagens que não são mocinhos, nem vilões, gosto muito quando vejo a simplicidade da vida na literatura, porque em todo ato simples, a vida simples, está repleta de significados e intensidade tb.
      Obrigada por suas visitas aqui no site! 🙂
      Bjos!!!

  2. Já há um tempão, eu andava querendo ler o Stoner, li várias críticas (todas muitíssimo boas) e finalmente, a sua ótima resenha me fez encomendá-lo e partir pra leitura… mas agora, apesar de todo o encantamento com a história e a personagem, quase desanimo diante da quantidade imensa de erros crassos de revisão (são muuuuitos!). Falei com algumas pessoas e soube que o Stoner ñ é a única publicação desta editora (surgida recentemente como um verdadeiro presente… e a promessa de publicação de grandes autores inéditos por aqui) a sofrer com o mesmo problema. Uma pena! Confesso que cortou o meu barato… há dez dias que olho pra esta linda capa, no criado mudo, sem coragem de retomar minha leitura…
    beijo
    helô.

    1. Oi, Helô!
      Sim, há vários erros, comentei no vídeo sobre eles. A editora já se pronunciou sobre o caso e já está no mercado uma edição nova, revisada, sem os erros… uma pena que a minha edição, como a sua, possui esse problema… :/
      De qualquer forma, dê uma chance ao livro, Stoner é uma história muito bonita!
      Bjos!

  3. Concordo com você. A gente acaba de ler e se pega assim meio no ar, ensimesmado, ciente de que acabou de viver um dos grandes momentos de nossa vida de leitor. Stoner é um livro inesquecível.

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