“Tudo é rio” é o livro de estreia de Carla Madeira e já deixou um grande impacto no universo literário. Amado por uns e odiado por outros, que tal conhecer alguns trechos da obra antes do mergulho?

Carla Madeira, nascida em Belo Horizonte em 18 de outubro de 1964, é uma escritora brasileira, jornalista e publicitária. Graduada em jornalismo e publicidade pela Universidade Federal de Minas Gerais, iniciou seus estudos em Matemática, mas optou por trilhar o caminho das letras e da comunicação.

Sua estreia literária ocorreu em 2014 com o romance “Tudo é rio”, uma obra que se originou de um texto iniciado quatorze anos antes, contendo uma cena de grande impacto. O livro “Tudo é rio”, que narra o complexo triângulo amoroso entre uma mulher, um homem e uma prostituta, recebeu reconhecimento significativo e também gerou controversas no universo literário. Carla Madeira também se destaca por suas obras “A Natureza da Mordida” e “Véspera“. Em 2021, foi a segunda escritora mais lida do Brasil, ficando atrás apenas de Itamar Vieira Junior, uma conquista que reflete sua influência e popularidade crescentes na cena literária brasileira.

Sinopse do livro “Tudo é rio”, de Carla Madeira:

Tudo é rio
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Com uma narrativa madura, precisa e ao mesmo tempo delicada e poética, o romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma perda trágica, resultado do ciúme doentio do marido, e de Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que entra no caminho deles, formando um triângulo amoroso.

Na orelha do livro “Tudo é rio”, Martha Medeiros escreve: “Tudo é rio é uma obra-prima, e não há exagero no que afirmo. É daqueles livros que, ao ser terminado, dá vontade de começar de novo, no mesmo instante, desta vez para se demorar em cada linha, saborear cada frase, deixar-se abraçar pela poesia da prosa. Na primeira leitura, essa entrega mais lenta é quase impossível, pois a correnteza dos acontecimentos nos leva até a última página sem nos dar chance para respirar. É preciso manter-se à tona ou a gente se afoga.”

Conheça abaixo 22 trechos do livro de Carla Madeira

1.
Perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho. Para quem está sozinho depois de ter amado, o fim do dia é muito triste. Era nessa hora que ela voltava.

2.
Quem podia acreditar em um amor daqueles? Para que ninguém nunca, em tempo algum, se atreva a achar que é a vida que inspira os livros baratos, ela, a vida, sempre disposta a nos levar até a morte, expõe, mais cedo ou mais tarde, aos berros, sua avareza: felicidade em demasia é dívida que não se pode pagar. A conta viria.

3.
O amor não é incondicional coisa nenhuma, tem suas fragilidades de matéria orgânica. Estraga, esgarça, rasga, inflama, acaba. E como acaba. É feito gente, depende do que vive.

4.
Que falem os mal-amados sobre suas profecias amargas, que sinalizem os abismos, as curvas, as areias movediças — nada comoverá. Não há quem convença um apaixonado com a dor alheia. Nem a própria dor pode salvá-lo. Cite todos os casos, reúna os parentes infelizes no amor, pregue nas paredes as páginas policiais escritas com sangue e paixão, nada demoverá os que foram fisgados.

5.
(…) mas não escolho mais tirar de mim esse amor entranhado, pertence a lugares em mim que não mando mais. Não fico tomando conta, podia ser assim, podia ser assado, medindo com régua o que falta. Não quero viver sem Antônio, me caso todos os dias com ele, acordo e caso, depois faço o café. Tem dia que ele tá chato de doer, largo pra lá, vai ser chato longe de mim e pronto. Ele melhora sozinho, depois piora e torna a melhorar, e a gente vai assim tomando distância e diminuindo distância. Caminhando.

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6.
(…) estava exausto dele mesmo, de viver naquele corpo, das lembranças na boca amarga, tinha saudade demais dentro dele, o remorso era um estilete afiado ferindo tudo. Correntes. Queria um pouco de vazio. Tinha pressa de morrer, era isso o que mais tinha.

7.
Uma certa ignorância é o sal da bondade, ajuda a não levar a própria impotência a sério demais.

8.
A morte põe um olho no passado e outro no futuro e deixa a gente cego na hora, no encontro do que foi e do que será, na tortura do que poderia ter sido. Impõe o desespero do definitivo, trava os movimentos. Embrulha o estômago indigesta. Faz frio nos ossos. A morte é vida intensa demais para quem fica.

9.
Dalva também se arrumou, soltou o cabelo, pôs um vestido antigo de primavera. Reencontrou seu jeito de andar quando saiu com ele pela rua. Naquele dia, esqueceu em algum lugar as toneladas do mundo que carregava nos ombros. Começava a se despedir de seu casulo cinza. Suas asas já tinham cor e forma e rompiam a casca que acolheu por anos a sua morte se engravidando de uma nova vida. Ainda não era, mas seria uma borboleta.

10.
E mesmo vendo tudo isso à minha volta, eu sei, Dalva, que eu e seu pai escapamos, temos o nosso amor bonito. É tão bom o que nós fizemos juntos, você, seus irmãos, nossa casa, nossa família. Não é bom todo dia, mas é bom toda a vida.

11.
Dalva poderia tantas coisas se pudesse. Mas só pôde o que fez. Quem vê de fora faz arranjos melhores, mas é dentro, bem no lugar que a gente não vê, que o não dar conta ocupa tudo.

12.
Não disse nada, apenas ganhou a rua tentando caber no mundo.

13.
O problema não é Deus, é o que inventamos Dele.

14.
Tenho alegria de sentir Deus nos outros, vejo as mãos Dele acariciar tantos lugares, desembrutecer tantas coisas. Vejo mesmo. E sei que isso não muda o mar furioso lá fora. É tão difícil existir sabendo tudo que a gente sabe sobre existir e, ao mesmo tempo, sem saber nada sobre o que vamos passar daqui a pouco, sem poder proteger de verdade quem a gente ama mais de verdade ainda. É invenção nossa pensar que Deus pode tudo, minha filha.

15.
O sofrimento é certo como a morte e tão inegociável quanto. Vem às vezes de um jeito bruto demais, tem gente que passa por coisas insuportáveis uma atrás da outra, o sofrimento muitas vezes vem injusto na falta de justiça do homem, na falta das coisas, na falta de entendimento e vem intolerável na violência de perder um filho. Essa é a pior cara Dele.

16.
A gente passa a vida pelejando com o dilema de existir ou desistir, com o que é bom e o que é ruim, o certo e o errado, a morte e a vida. Essas coisas não se separam. O lugar que dói é o mesmo que sente arrepios. É no corpo, no amor e na liberdade de escolher as coisas que a gente fica inteiro ou despedaçado. Então, pede para a parte boa dar conta da parte ruim.

17.
Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo.

18.
Perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho.

19.
O amor, quando nasce forte, tem pressa de ser eterno.

20.
O lugar que dói é o mesmo que sente arrepios. É no corpo, no amor e na liberdade de escolher as coisas que a gente fica inteiro ou despedaçado. Então, pede para a parte boa dar conta da parte ruim.

21.
A morte põe um olho no passado e outro no futuro e deixa a gente cego na hora, no encontro do que foi e do que será, na tortura do que poderia ter sido. Impõe o desespero do definitivo, trava os movimentos. Embrulha o estômago indigesta. Faz frio nos ossos. A morte é vida intensa demais para quem fica.

22.
Algumas vezes as mudanças acontecem na marra. Uma guilhotina afiada corta as nossas mãos, e todas as rédeas escapam. É o que pensamos ter acontecido, até que a gente se dá conta de que nunca houve rédeas. Ninguém monta na vida. Brincamos de escolher, brincamos de poder conduzir o destino.

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