Porque Clarice Lispector é muito mais que muitas frases que você vê por aí, vagando soltas e representando algo que realmente não é.

    De alguma forma, gosto de acreditar que este blog colabora para a divulgação cultural literária de forma correta. Para isto, é necessário sempre esclarecer, responder, questionar e, principalmente, duvidar. Eu duvido de todas as frases de Clarice Lispector espalhadas pelas redes sociais, pois em 90% dos casos não são. Portanto, segue abaixo 15 frases que são realmente de Clarice Lispector, retiradas do livro “A Maça no Escuro”. Pode confiar. Com elas acredito que quem se engana com as frases, quem não duvida, perceba o quanto diferente é a Clarice Lispector de verdade comparada as tantas Clarices e “Clarisses” espalhadas internet à fora.

    A coisa mais desapaixonadamente individual acontecia quando uma pessoa tinha a liberdade. No começo você é um homem estúpido tendo a mais a grande solidão. Depois, um homem que levou uma bofetada na cara e no entanto sorri beato porque ao mesmo tempo a bofetada lhe deu de presente uma cara que ele não suspeitava. Depois, aos poucos, você começa, sonso, a fazer casa e tomar as primeiras intimidades impudicas com a liberdade: você só não voa porque não quer, e quando se senta numa pedra é porque em vez de voar sentou-se. E depois?

    Clarice Lispector. A Maça no Escuro. p. 27

    Fora das ordens e da execução das ordens, pouco havia a dizer. E começava a fazer falta o que não se dizia.

    Clarice Lispector. A maça no Escuro, p. 99

    Essa coisa sem nome que é o cheiro da terra incomodando quente e lembrando com insistência, quem sabe por quê, que se nasceu para amar, e então não se entende.

    A Maça no Escuro, p. 110

    E como da primeira vez, a glória do ar livre aproximou-se de alguma coisa que lhe bateu dura no peito e que doeu na extrema perturbação da felicidade que às vezes se sente.

    Clarice Lispector. A Maça no Escuro, p. 113

    “Enfim vou viver”, se disse ela. Mas a verdade é que isso mais parecia uma ameaça.

    A Maça no Escuro, p. 153
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    (…) não existia essa coisa de não ter nada a perder. O que existia era alguém que arrisca tudo; pois embaixo do nada e do nada e do nada, estamos nós que, por algum motivo, não podemos perder.

    Clarice Lispector. A Maça no Escuro, p. 154

    Tão horrivelmente livre como o campo odiado. Tão livre que talvez já não pudesse mais ser, sequer, essa coisa no entanto já tão livre que era um pássaro. Pois mesmo um pássaro ainda era cheio das penas quentes, e tão sujo de íntimo sangue.

    A Maça no Escuro, p. 157

    Ah! Disse ele em amor e angústia e ferocidade e piedade e admiração e tristeza, e tudo isso era a sua alegria.

    Clarice Lispector. A Maça no Escuro, p. 166

    E se não tinha a ação, tinha o grande amor. Um homem podia não saber nada; mas sabia como se virar, por exemplo, para o lado do poente: um homem tinha o grande recurso da atitude. Se não tivesse medo de ser mudo.

    A Maça no Escuro, p. 175

    Eu te amo, experimentou com cuidado dando a primeira cautelosa amostra de si mesma no escuro para ver se era verdade que nada lhe aconteceria. E nada aconteceu. A senhora pareceu decepcionada como se na verdade tivesse esperado que depois da audaciosa frase a escuridão se fizesse dia ou que enfim começasse a chover ou que ela de súbito pudesse se ter transformado em outra pessoa.

    Clarice Lispector. A Maça no Escuro, p. 228

    (…) é sempre assim que acontece – quando a gente se revela, os outros começam a nos desconhecer.

    A Maça no Escuro, p. 186

    (…) assim a falta de desejo dava silêncio ao coração do homem. Procurou a sua própria fome: mas era o silêncio quem lhe respondia. Ele estava experimentando o que era pior que tudo: não querer mais. O primeiro momento foi muito ruim, mal calculou ele que não querer era tantas vezes a forma mais desesperada de querer.

    Clarice Lispector. A Maça no Escuro, p. 199

    Sozinha, com a miséria de sua luxúria. Que não era sequer luxúria de amor. Era mais grave. Era a luxúria de estar viva.

    A Maça no Escuro, p. 233

    Quando começou a chover, a senhora chegara a um ponto de silêncio em que a chuva lhe parecia a palavra.

    A Maça no Escuro, p. 235

    Que coisa estranha: até agora eu parecia estar querendo alcançar com a última ponta de meu dedo a própria última ponta de meu dedo – é verdade que nesse extremo esforço, cresci: mas a ponta de meu dedo continuou inalcançável. Fui até onde pude. Mas como é que não compreendi que aquilo que não alcanço em mim… já são os outros? Os outros, que são o nosso mais profundo mergulho!

    A Maça no Escuro, p. 310

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