The Leftovers: nós estamos aqui

2019 chegou ao seu fim e junto consigo trouxe um balanço da década. A internet se
encheu de listas de melhores discos, melhores filmes e, claro, melhores séries dos últimos dez anos. Tem pra todo mundo, dos mais pops aos mais cults. Mas não há uma lista sequer que fique ilesa das críticas. Apesar de passar longe de qualquer objetividade, alguns nomes estão presentes em quase todas essas listas. O site IndieWire publicou recentemente a sua lista das 50 melhores séries da segunda década dos anos 2000. E eu não podia concordar mais com eles. Em primeiríssimo lugar – que é o que importa -, estava a brilhante The leftovers.

Baseada no livro homônimo de Tom Perrotta (Little Children, Mrs. Fletcher), The
Leftovers estreou em 2014, pelo canal HBO; e vinte e oito episódios depois, a série chegou a seu fim em 2017. A série foi desenvolvida pelo próprio Perrotta e por Damon Lindelof, produtor responsável pelo fenômeno dos anos 2010 Lost e, recentemente, Watchmen, que já promete fazer história na nova década. Se, no primeiro caso, Lost acabou se arrastando por seis temporadas e chegou a um fim que dividiu o público, em The Leftovers, desde o início, os produtores sabiam do risco que corriam com a série e aceitaram fazê-la já sabendo que a encerrariam com 28 episódios, não importasse como. Em uma época em que as produções parecem ser o resultado de reuniões sobre os principais temas de “textões” das redes sociais, The Leftovers foi exceção e contou a sua própria história. Pagou um preço. Foi aclamada pela crítica, mas pouco assistida.

Você acredita?

Em 14 de outubro de 2011, um inexplicável fenômeno fez com que 2% da população
mundial desaparecesse. O que acompanhamos na série é a história dos 98% que ficaram (the leftovers, os deixados para trás), três anos depois do ocorrido. Teria sido um arrebatamento divino? Uma experiência científica? Essa angústia perpassa por toda a série, mas seu mérito está em nunca se explicar.

O misterioso desaparecimento é a premissa que une os personagens da série. De uma
forma, ou de outra, todos foram afetados pelo evento que fez desaparecer filhos, mães e pais. Não há família que não teve sua estrutura abalada, direta ou indiretamente.

Leia mais: 10 séries para quem se interessa pelo futuro

Tentar entender o que aconteceu faz o telespectador querer grudar um episódio no
outro. Mas, com o avançar da série, percebemos que a verdadeira história contada é a de
como seus personagens buscaram lidar com suas perdas. A pergunta deles não era “Por que eles foram embora?”, mas sim “Por que ficamos?”.

Acompanhamos cada um deles tentando encontrar uma saída para sua dor. A jornada
do herói é vivida pelo policial da cidade de Mappleton Kevin Garvey (Justin Theroux). Ao estilo de Ulisses, sua odisseia é a da volta pra casa. Como já sabemos, não há jornada que seja fácil e Kevin Garvey terá que lidar com as próprias sombras: andar, perigosamente, pela luz e pela escuridão. Esses pares opostos estão presentes em toda a narrativa e ajudam a contar a história do nosso protagonista: céu e terra; consciente e inconsciente; vida e morte. Durante seu percurso, Kevin tenta responder às perguntas de nossa existência, tão antigas quanto a própria vida. Onde quero estar? Com quem quero estar? O que, afinal, vale a pena? Quando questionado, Kevin responde que quer estar em casa, mas ele precisa descobrir onde ela está.

the leftovers
Justin Theroux em cena de “The Leftovers”. Imagem: HBO/Divulgação.

Assistimos um homem em queda livre, tentando a todo custo recuperar sua família que
ruiu após aquele 14 de outubro. Seu filho mais velho juntou-se a um homem que se diz profeta: “Santo Wayne”; sua filha não é mais aquela menina doce de antes, mas sim uma jovem que parece não se importar com mais nada. Laurie Garvey (Amy Brenneman), sua esposa, deixou-o e entrou para o “culpados remanescentes”, um grupo de pessoas que se vestem de branco, fumam e vivem em silêncio: seu objetivo é lembrar aqueles que ficaram da perda que eles tentam esquecer.

Símbolos religiosos, mitos e arquétipos estão por toda parte da história. Representando
a ordem, Kevin vive em luta constante contra o caos. Às vezes literal, outras na forma de
personagens, como a de Patti Levin (Ann Dowd). Líder do “Remanescentes culpados”, Patti
Levin é a sombra de Kevin. Seu grupo encarna o caos; mais ainda, ele é a desconexão do
humano com o sagrado. Quando Meg Abbott (Liv Tyler), após ser perseguida pelo grupo,
aceita fazer parte, ela precisa se desligar do seu passado. Como prova de acesso, ela precisa cortar, com um machado, uma enorme árvore. Com isso, Meg Abbott se desconecta do próprio passado, mas também corta a árvore da vida, aquela que liga a terra ao céu; os humanos ao divino. O resultado não pode ser outra coisa que não o caos.


A jornada de Kevin Garvey o leva para outra personagem: Nora Durst (a brilhante Carrie
Coon). Junto a Kevin, ela forma o par de protagonistas. No dia do desaparecimento, Nora
perdeu toda a sua família (marido, filho e filha). Num passe de mágica, ela se viu sozinha;
abandonada. A sua luta é para descobrir a verdade: o que de fato aconteceu com a sua
família? Nesse meio do caminho, sua jornada cruza a de Kevin e juntos eles tentam se curar. O ponto é que não existe cura, mas apenas aceitar a dor e seguir. Após o desaparecimento, Nora lutou bravamente para levar a vida normalmente. No entanto, aquele fatídico dia tinha levado mais que sua família; tinha levado consigo o sentido de sua própria vida. Depois de muita luta, de busca por verdade, por consolo, Nora percebeu que, de fato, a vida não tem sentido… até que você lhe dê um.

A superação dos deixados para trás

The Leftovers é sobre resiliência, fé, luto, vida, morte e, sobretudo, amor: esse mistério
que guia a vida de todos os homens e mulheres, que ilumina a experiência humana, mas, às vezes, é preciso percorrer um enorme caminho de escuridão e caos para encontrá-lo.

A série assume o risco e toca em temas caros à nossa condição humana. As questões
de cada personagem são tão complexas e humanas que é impossível julgar suas ações. A luta de Kevin para entender onde e com quem ele realmente gostaria de estar é emocionante. E todos nós sabemos o quanto isso é difícil. Para o personagem, foi preciso ir a outro mundo para descobrir o que lhe pertencia, e qual era seu verdadeiro lugar. E, literalmente, foi preciso abrir o coração e encontrar a chave da vida.

Os outros personagens, longe de serem secundários, ajudam a contar a história e cada
um tem um arco bem desenhado. A conversa do memorável padre Matt Jamison (Christopher Eccleston) com “Deus” faz a gente suar e se reconhecer em cada palavra. Ao questionar aquele para quem devotou toda a sua vida, a resposta dada ao padre é avassaladora: “Você não fez nada por mim. Tudo o que você fez, foi porque acreditava que eu o estava assistindo, mas eu não estava”. São pelas suas palavras também que se materializa o seu (nosso?) maior medo: ser esquecido.

Mas, para mim, foi Nora Durst quem mais emocionou e desafiou. A sua dor é
comovente. Uma dor que a fulminou, mas não a derrotou. A sua resiliência é assombrosa. Em muitos momentos, eu me perguntei “como é possível aguentar tudo isso?”. E foi dela que veio a maior provocação da série. Após tanto buscar a verdade, lutar contra aquilo que julgava mentira para aliviar a nossa dor, acabou percebendo que o que realmente importa é acreditar. Mais ainda, encontrar quem acredite em você. The Leftovers não dá respostas fáceis, mas no seu adeus, ela nos deixa com o gosto agridoce de uma óbvia constatação: nós estamos aqui.

 

Trailer de The Leftovers

Ficha técnica

The Leftovers

EUA, HBO, 2014 – 2017 (3 temporadas)

Criadores: Damon Lindelof e Tom Perrotta

Elenco: Justin Theroux, Carrie Coon, Amy Brenneman, Christopher Eccleston, Liv Tyler, Chris Zylka, Ann Dowd, Margaret Qualley, Kevin Carroll, Regina King, Scott Glenn e Jovan Adepo.

Sobre

Cafezinho, nossa nova coluna, tem como objetivo reunir indicações variadas com um diferencial: os textos serão curtos e até mais intimistas, bem propícios para se ler naquelas pausas de poucos minutos – ou em qualquer momento que você quiser, fique à  vontade! 


Default image
Bruno Ribeiro
Formado em Artes cênicas pelo Senac e estudante de História da EFLCH/Unifesp. Apaixonado por cinema e literatura.

1 comentário

Deixe um comentário