Confira o conto ganhador do nosso concurso cultural, que teve como tema “O que esperar de 2020?”.


A melhor companhia para 2020

­‌                  .Dona Malvina sempre curtiu a festa da virada do ano com sua família, em casa. Inicialmente, com seus pais e irmãos, até que vieram o marido e as filhas. Depois as filhas passaram a levar os namorados para a ceia farta que a matriarca fazia questão de cozinhar sozinha, pois era uma marca sua e motivo de orgulho. Por fim, os namorados das filhas viraram seus maridos, mas como os netos não davam o ar da graça, o feriado acabou levando os jovens casais para longe. A cada ano uma filha trocava a casa da mãe por outro canto qualquer com o respectivo cônjuge.

‌                  .Na verdade, Malvina sempre quis ver a queima de fogos na praia de Copacabana, mas quando era jovem o pai a guardava desse tipo de ambiente. Já adulta, dependida da vontade do marido, que nunca surgiu. Sendo mãe, não sairia pra se divertir sem as crianças e não tinha coragem de levar as três pequenas para o furdunço da praia. Tanto quis e tanto se frustrou que acabou perdendo o desejo ou convenceu-se de que era insubstituível no preparo da ceia para quem resolvesse aparecer em casa.

‌                  .Um dia, o marido não estava mais lá: deu entrada no hospital no Dia de Finados e só saiu, finado, uma semana antes do Natal. Naquele ano, as viagens das filhas já estavam compradas e dona Malvina não deixou que cancelassem. Mentiu para as meninas que viajaria também, pois há muito tempo não via umas primas, mas ficou em casa, sozinha. Como não fazia sentido ocupar-se da ceia, jantou um negocinho qualquer, bebeu uma garrafa de vinho até a última gota enquanto assistia à transmissão da festa pela TV e foi dormir chorando.

‌                  .A experiência a fez perceber que não estava pronta para passar o réveillon sozinha. Nos dois anos seguintes, foi para um retiro com os irmãos da igreja. Porém, continuava sentindo-se numa espécie de solidão povoada. Todas aquelas pessoas não lhe preenchiam as lacunas e, além disso, faltava algo naquele ambiente que ela não sabia determinar o que era.

‌                  .Objetivamente, a comida que levavam era toda sem gosto, nem de longe temperada como a ceia que ela preparava. As canções tocadas eram sempre as mesmas ou muito parecidas. Podia beber nenhum álcool, as conversas eram todas sobre coisas do espírito e até as vestimentas eram muito sem graça. Os fogos da praia nem podiam ser lembrados sob pena de julgamento e condenação moral de quem os mencionasse. Na parte das orações, dona Malvina fechava os olhos e viajava em suas memórias. Era o único momento realmente agradável.

‌                  .Então ela decidiu que teria que fazer algo grande para que sua vida voltasse a fazer sentido.

‌                  .Ainda era jovem o bastante para lutar pelo direito de divertir-se e suficientemente madura para concluir que seu lugar não era enfurnada numa igreja e entristecida. Se era pra ficar sozinha na multidão, que pelo menos fosse em meio à diversidade da vida humana.


‌                  .Nunca havia sido mesmo muito crente. O amor de Jesus era importante para ela, mas podia ficar para o segundo dia de janeiro em diante. Deus, certamente, permaneceria fiel.

‌                  .Malvina decidiu compensar antecipadamente a ausência no próximo retiro de ano novo e, ao mesmo tempo, arranjar uns créditos com o divino. Para tanto, passou o ano de 2019 dedicada à igreja: orou em dobro, fez jejum, passou dias em retiros mesmo quando as filhas finalmente estavam em casa, pagou o dízimo a mais do que lhe era solicitado e deixou de usar suas roupas mais joviais. Tudo sob orientação do pastor Jonas, que desconhecia o que ela havia planejado.

‌                  .Na primeira semana de dezembro, Malvina iniciou os preparativos. Pesquisou pela internet dicas para atrair sorte e espantar o infortúnio, além de orientações sobre como não passar desconforto no meio da multidão. Passou uma tarde inteira fazendo compras em nome do amor, da paz e da prosperidade: calcinha e sutiã vermelhos, vestido branco e sapatilhas douradas. Não queria perder nada do que o novo ano poderia lhe oferecer.

‌                  .Na última manhã de 2019, o espumante e a garrafa d’água já estavam na geladeira; a lentilha cozida e temperada esfriava sobre a mesa; o pedaço de lombo de porco comprado há dois meses fora fatiado e acondicionado no isopor forrado de papel laminado junto com a farofa de miúdos; também havia uvas lavadas e pedaços de romãs cujas sementes seriam depois costuradas no saquinho de Gaspar, Baltazar e Melquior. Ia começar a colocar tudo nos potes e ajeitá-los na mochila térmica junto com as duas taças de acrílico (vai que uma quebra), guardanapos e sacolas para o lixo, quando chegou a vizinha Carola, amiga de muitos anos e irmã de fé.

‌                  .— Menina, tu vai mesmo trocar a gente pelo mundo? — questionou com as mãos nos quadris.

‌                  .— Para com isso, Carola! Você tá no mesmo mundo que eu, mulher. Igreja é só um lugar com um monte de gente enjoada que sabe falar de uma coisa só. Aproveita e pega essa folha de louro aí na pia e põe na minha carteira.

‌                  .Carola não reconhecia a amiga. Antes, dedicava-se exclusivamente à família e à igreja e agora blasfemava contra o templo sagrado. Teve que se sentar na cadeira pra recobrar o fôlego depois de ouvi-la dizer que não passaria nem perto da igreja pra não correr o risco de ser apedrejada por ser humana.

‌                  .Malvina percebeu que a outra estava pálida e arranjou uma função pra ela se ocupar:

‌                  .— Se for pra ficar sentada aí, faça o favor de ajudar: arrume essas velas e o isqueiro na mochila, por favor.

‌                  .— Malvina de Jesus, o que é isso aqui? — Carola perguntou apontando para uma sacola de renda.

‌                  .— Isso aí são os cheiros pra Iemanjá — respondeu Malvina sem hesitar.

‌                  .— O pastor Jonas sabe que você vai dar oferenda pro demônio? — Perguntou Carola com a voz trêmula e as mãos na boca.

‌                  .Dona Malvina havia pensado em quase todos os detalhes, menos na justificativa que daria para não passar a última noite do ano com os irmãos no retiro. Porém, nenhum receio foi maior do que a empolgação de rir com gente nova, comer e beber à vontade sabendo que iria dormir na areia e voltar pra casa só de manhã e, principalmente, ver os fogos de artifício ao vivo, pela primeira vez.

‌                  .Com tudo organizado para a viagem de quase duas horas até a praia de Copacabana, meteu uma nota de cinquenta reais dobrada dentro do sapato e despediu-se da vizinha que tentou uma última apelação:

‌                  .— Irmã em Cristo, o que é que está faltando na sua vida pra se sujeitar a isso? — perguntou Carola com as mãos postas em oração e o olhar suplicante.

‌                  .— Olha só, irmã, se é verdade que a gente repete durante o ano aquilo que faz na virada, eu já sei o que não quero que o meu 2020 seja igual ao que foi em 2019. Nesse ano, eu só fiz sofrer de saudade dos meus filhos e do meu marido e não tem palavra do Senhor que dê conta disso — os olhos dela encheram-se de lágrimas. — E na igreja eu não podia fumar um cigarrinho pra me acalmar e nem beber uma cerveja pra ajudar a esquecer. Tudo era errado e pecado. Eu que acho que nunca fiz mal pra ninguém passei a ter medo até de falar palavrão.

‌                  .Malvina enfeitava-se em frente ao espelho enquanto falava. Flores amarelas nos cabelos complementavam a moldura do rosto e prometiam uma sorte a mais. Atravessou no corpo a alça da pequena mala vazia que serviria para chamar uma viagem no ano vindouro e também para trazer de volta pra casa a mochila vazia, dobrada. Ajeitou nas costas o farnel contendo tudo o que conseguiu reunir pra dar aquele empurrãozinho na vida em direção a um novo rumo. Ia puxando a Carola para fora da casa quando ela soltou, agora com uma nota de sarcasmo, quiçá uma pontinha de inveja:

‌                  .— Mas porque é que precisa pintar tanto a cara e mostrar assim as pernas? Uma mulher na sua idade espera conseguir o que com isso?

‌                  .Malvina fechou a porta da casa atrás de ambas e respondeu, sem se deixar intimidar:

‌                  .— Ué! Conseguir eu já consegui: tô levando a mim mesma pra ver gente bonita e beber champanhe vendo os fogos na praia de Copacabana s-o-z-i-n-h-a. E sabe o que ou quem vai me impedir? NINGUÉM!

‌                  .Cabeça erguida sobre o peito estufado, movendo-se com passadas rápidas e firmes apesar do peso que carregava, Malvina ainda virou para trás e berrou:

‌                  .— E vou repetir tudo isso em 2020!

Kissila Muzy de Souza Mello

45 anos, de Nova Friburgo/RJ


Leia mais: Textos finalistas do concurso cultural da Livro & Café


Avatar
Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

5 Comentários
  1. Falando sobre o contexto , certíssima! Muitas pessoas deixam de viver a própria vida , e se afundam na mesmice . Se sentir viva não tem preço.

  2. Adorei participar do concurso e escrever esse conto sobre rupturas.
    Desejo a todos que 2020 permita a todos conquistas grandes como foi a da dona Malvina.
    Abraços!

    1. Kissila! Nós só temos a agradecer por você ter participado do nosso Concurso! Foi um prazer imenso ler o seu conto! Você tem talento! 😉
      Continue escrevendo e que 2020 seja um espaço de inspiração e mão na massa! rs
      Beijos!!!

  3. Maravilhoso conto! Muito criativo, Um encadeamento de assuntos ações, de tirar o fólego. Tudo surpreende… muito bom m amo!

Deixe um comentário

O seu e-mail não será publicado