Quando os livros saem pela privada (literalmente): o caso da Biblioteca do Planalto

Eu já entendi que a tática deste (des)governo é vencer pelo cansaço. São tantos absurdos, são tantos “disse mas não disse”, que em um dia estamos esbravejando nas redes sociais sobre um tema e, no dia seguinte, já temos uma nova bomba para digerir… E os problemas apenas se amontoam sem respostas: assassinato da Marielle e do Anderson, Queiroz e seu talão de cheques, correção do ENEM e assim por diante. A fresquinha (pelo menos era até eu começar este texto) é o desmonte da Biblioteca do Planalto para dar espaço a um gabinete com banheiro privativo para a primeira-dama, Michele Bolsonaro. Mas talvez esta notícia não tenha causado tanto alarde no Facebook, não é mesmo?

O que é a Biblioteca do Planalto?

A Biblioteca do Planalto abriga livros raros, que contam a história dos presidentes desde que o Brasil deixou de ser monarquia e transformou-se em uma república. Estamos falando de um acervo com 42 mil itens e 3 mil discursos de presidentes. Ela foi criada no governo do presidente Wenceslau Brás, entre 1914 e 1918, quando a sede do governo ainda era no Rio de Janeiro. Com a construção de Brasília, primeiro foi instalada no prédio principal do Planalto, mas em 1979 foi transferida para o anexo.

Voltemos a 2020. Ao longo do último sábado (15), circulou nas redes sociais um vídeo que mostra os exemplares empilhados no corredor do Planalto, sem qualquer proteção contra poeira, danos e furtos, enquanto, ao longe, as reformas são conduzidas na biblioteca.

Estima-se que mais da metade da biblioteca seja praticamente extinta, perdendo seus espaços de estudo, convivência e leitura. Também não terá mais capacidade de aumentar o acervo, segundo pessoas que acompanham as obras.

Para Fábio Cordeiro, presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia, a preocupação é com o futuro da biblioteca:

“O risco de diminuir de tamanho é porque uma biblioteca é um organismo em crescimento, então ela tem que ter espaço para garantir que os acervos futuros caibam nesse espaço físico. Então, a medida que os governos forem passando, novas políticas vão sendo criadas, políticas precisam ser preservadas para a história do país e para memória institucional de todo o governo”, afirmou à reportagem do O Globo.

O que diz o governo?

No modo “não é bem assim”, que marca as ações do governo Bolsonaro, a Secretaria-Geral da Presidência informou, em nota, que “a biblioteca da Presidência da República, inclusive em razão de sua relevância institucional, vem passando por um permanente processo de modernização”, e que “no que se refere às recentes alterações do espaço físico destinado à biblioteca da Presidência da República, é importante registrar, primeiramente, que 100% do acervo físico será preservado, em condições técnicas adequadas.”

“Ainda a esse respeito”, diz a nota, “cabe esclarecer que havia em torno de 40% de espaço não utilizado nas estantes da biblioteca, de forma que, mesmo com as alterações promovidas, ainda restará margem para ampliação do acervo.”

A Secretaria informou também que “por outro lado, essas mudanças também visam otimizar os espaços físicos da Presidência, permitindo que outras atividades relevantes possam ser desempenhadas pelos seus servidores.”

Já Bolsonaro descambou para o ataque à imprensa – nada que nos surpreenda, sinceramente. “Estão descendo a lenha que a biblioteca vai diminuir. Em vez de elogiar a primeira-dama, ficam criticando”, disse. “Quem age dessa maneira merece outra banana”, afirmou o presidente aos jornalistas.

Bolsonaro manda uma “banana” para os jornalistas após ser questionado sobre reforma da Biblioteca do Planalto. Foto: Correio do Brasil.

Mas são só livros!

Alguém poderia dizer que é apenas uma reforma ou que os fins justificam os meios, já que o espaço será utilizado pela equipe da Michele Bolsonaro para o Programa Nacional de Incentivo ao Voluntariado – o Pátria Voluntária – criado em julho de 2019. O tal programa tem por objetivo promover, valorizar e integrar o trabalho voluntário no país.

Mas as coisas não são tão simples assim. Não sejamos ingênuos: mais do que o ataque escancarado a um local de preservação da história brasileira, há uma farra com o dinheiro público. Segundo a reportagem do O Globo, essa é a segunda vez que o governo federal banca uma reforma para abrigar a primeira-dama e sua equipe na Esplanada. Há sete meses, foram gastos R$ 330 mil em obras no Ministério da Cidadania para adaptar salas para a primeira-dama e servidoras do Pátria Voluntária. No fim do ano passado, o programa migrou da pasta da Cidadania para a Casa Civil, que funciona dentro do Palácio do Planalto, o que justificaria a utilização de um novo gabinete com banheiro exclusivo. Simpatizantes dirão, porém, que o que causa rombo no orçamento é o Bolsa Família. Então tá.

Mas voltando aos livros, fica claro o desprezo do governo por qualquer pauta relacionada à cultura, à arte, à ciência, à educação, ao conhecimento enfim. Tudo que compõe essas áreas pode ser descartado – e estou pensando aqui em obras de arte, livros, pessoas. São coisas sem valor para Bolsonaro e seus seguidores. O desmonte da Biblioteca do Planalto, a meu ver, é só mais um capítulo da necropolítica que assola nosso país. É política de apagamento de corpos negros, pobres, dissidentes; é também morte do conhecimento, do que questiona, do que nos faz humanos. Somente são dignas de valor a arte e a vida do homem branco, cis, hétero, rico, ou seja, a imagem do herói nazis… ops, do cidadão de bem.

E essa política não fica restrita à presidência. O que dizer do governo de João Dória, que censurou recentemente uma lista de livros do projeto de estímulo à leitura que funcionava em penitenciárias do estado de São Paulo? Estamos rodeados por essas ações que não vão ocupar a primeira página dos jornais ou a chamada principal do Jornal Nacional, nem gerar comoção nas redes, mas que têm um impacto nefasto na nossa sociedade. Não custa lembrar que não são só livros…

E dizer o óbvio cansa demais. Confesso que nem queria escrever este texto, talvez pensando em poupar energia para a próxima “pauta bombástica”. O fato é que se torna impossível não ler essas notícias e não se sentir um pouco como os livros da Biblioteca do Planalto: espalhados num canto do corredor, dispensáveis e dispensados, esquecidos. Estamos, com os livros, indo embora pela privada.

 


Leia mais: 

Quando a cultura é desprezada

Roberto Alvim e Joseph Goebbels: não existem coincidências retóricas


Default image
Bruna Bengozi
Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

1 comentário

  1. Excelente texto! Excelente crítica e reflexão. Que mundo é esse e onde vamos parar se a memória e a história de nosso país tão combalido está sendo vilipendiado??

    (PS: por favor, gente, não usem mais os textos da Elika, essa racista anti-aborto misógina, que acha que existem “alunos e negros” nas instituições)

Deixe um comentário