Bianca Pinheiro

Fragilidade e força em “Mônica”, graphic novel de Bianca Pinheiro

Quadrinhos de Bianca Pinheiro fazem uma releitura bela e complexa de uma das personagens mais queridas do Brasil.

Acho que, assim como a maioria dos brasileiros e brasileiras nascidos na década de 80, tive meu primeiro contato com as histórias em quadrinhos através dos gibis da Turma da Mônica, criada por Maurício de Sousa muito anos antes, em 1959. Depois, fui descobrindo outras HQs e me apaixonando por outras personagens, como a Mafalda, do saudoso Quino, que nos deixou recentemente. Mas o carinho por aquela menina briguenta e seus amigos permaneceu ao longo do tempo e foi com alegria que vi a história ser relida em duas graphic novels, Força e Tesouros, por uma jovem e talentosa quadrinista, Bianca Pinheiro, responsável por Bear, Dora e outros trabalhos.

Força

Em Força, Mônica tem tanto o traço delicado de Bianca quanto os toques sombrios causados por problemas familiares e incompreensões que a atingem em cheio. Se diante do bullying de Cebolinha e Cascão, a pequena conseguia agredi-los com o seu coelho Sansão, como lutar contra as brigas e a iminente separação de seus pais? Em determinado momento da graphic novel, a personagem chega a dizer: “não posso bater nos meus pais”.

A história também é marcada por silêncio, como da família à mesa do jantar, que acaba sendo retratado nas longas sequências sem balões, e por persistências, como na incrível metáfora da torneira pingando, nos embates constantes entre os adultos e nas agressões diárias dos meninos. Enquanto nos gibis de Maurício de Sousa, encontramos uma Mônica ágil e agressiva, que resolvia tudo “no braço”, aqui vemos uma menina fragilizada, perdida e impotente diante de um problema que sequer consegue entender. A dona da rua e da turma vive seus dramas numa casa que deveria ser segura e amorosa e vê as rachaduras das brigas dos pais tomando a forma de um mostro muito mais forte que ela e seu coelho. Então nos lembramos que ela é apenas uma criança.

Bianca Pinheiro
Trecho de “Mônica – Força”. Foto: Bruna Bengozi.

Assim, a HQ é sensível ao trazer à tona situações em que a violência física não resolve. E será que não recorremos à violência justamente por não termos as ferramentas necessárias para resolver os dilemas? E será que não apelar para um embate físico é sinal de fraqueza? Não é o que parece nas tirinhas: pelo contrário, Mônica se vê diante de novos desafios e de novos meios para superá-los, como o diálogo e a parceria. A palavra força ganha diversos significados nos traços de Bianca e nossa menina, conhecida apenas por ser gorducha, dentuça e briguenta, ganha novos contornos e maior complexidade.

Tesouros

Na continuação de Força, Tesouros nos leva a um passeio familiar. Mônica, seus pais, Sansão e Monicão (gente, eu adorei o nome desse cachorro) vão passar uns dias em um hotel fazenda, e as férias acabam revelando outros desafios para a pequena.

Primeiramente, ela se vê longe dos seus amigos, num lugar diferente, e já no trajeto seu coelho Sansão sofre um “acidente” no qual perde um olho. No hotel, conhece uma figura bem metidinha, o Antônio, que a faz viver muitas aventuras, relembrá-las dos amigos que deixou na cidade e aproveitar todos os momentos como se fossem o último.

É uma singela história – e com traços fofos – na qual se evidenciam os pequenos tesouros que fazem a vida valer a pena: a (re)construção dos laços, o amor, a amizade, o contato com a natureza, a curiosidade por conhecer pessoas e lugares.

Vale destacar que, em ambas as HQs, somos presenteados com algumas páginas de extras, que mostram o processo de elaboração do trabalho de Bianca Pinheiro, trazendo esboços, arte-final, paleta de cores, aplicação de cores e texturas etc. Um verdadeiro passeio pela trabalho cuidadoso da artista.


Sobre a autora

Bianca Pinheiro.
A quadrinista Bianca Pinheiro. Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo.

Bianca Pinheiro nasceu na cidade do Rio de Janeiro, mas mora em Cuitiba desde os cinco anos de idade. É formada em Artes Gráficas e pós-graduada em Histórias em Quadrinhos. Ela trabalhou como ilustradora e só começou a fazer quadrinhos “oficialmente” em 2012, com o blog A Vaca Voadora. No ano seguinte, estreou sua webcomic Bear, que teve três volumes publicados pela Nemo a partir de 2014, ano em que a autora passou a viver de quadrinhos.

Além da Nemo, Bianca publicou por outras editoras: Mônica – Força (2016) e Mônica – Tesouros (2019) saíram pela Panini, Dora ganhou nova edição pela Mino em 2016; a Todavia lançou Eles estão por aí, com roteiro do Greg Stella, em 2018, e pela Pipoca e Nanquim publicou Sob o Solo também em 2019. Participou de algumas coletâneas de quadrinhos e publicou três HQs independentes: Dora (2014), Meu pai é um homem da montanha, esta com o marido Greg Stella (2015) e Alho-Poró (2017).

A autora já ganhou quatro troféus HQ Mix: Novo Talento – Roteirista (2015), Quadrinho Infantojuvenil, por Mônica – Força (2017) e HQ Independente e HQ Independente de autor, por Alho-Poró (2018). Além disso, em 2018, recebeu o prêmio APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte de Melhor Livro de História em Quadrinhos, por Eles estão por aí. Em seu tempo livre, Bianca Pinheiro joga (videogame e jogos de tabuleiro), lê (muitos mangás), assiste a filmes e séries e cria histórias. (Texto adaptado da Panini)


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Bruna Bengozi
Bruna é mestra em História pela USP e graduanda em Letras pela Univesp. Redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome da impostora".

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