Carolina de Jesus, Virginia Woolf, Mulheres na Ficção

Nesta semana o site Obvious publicou um artigo com o título “Carolina de Jesus e Virginia Woolf: um quarto para todas as mulheres“. É claro que meus olhos pularam para a tela para conhecer Carolina de Jesus, até então totalmente desconhecida para mim, e eu tive uma maravilhosa surpresa.

No livro Um Teto Todo Seu, que eu reli neste mês, Virginia Woolf apresenta para o leitor todo o seu pensamento sobre Mulheres na Ficção e deixa em evidência que as mulheres precisam escrever e ponto. Escrever simplesmente, mesmo com todas as dificuldades (físicas, sociais, intelectuais, etc), é preciso escrever, pois como disse Virginia Woolf, “contanto que você escreva o que quer escrever, é só isso que importa; e se isso importa por eras ou apenas por horas ninguém pode dizer...”. E assim cumpriu Carolina de Jesus uma missão oferecida por Virginia Woolf às mulheres. Ela, que nasceu em 1914 e faleceu em 1977, brasileira, negra e pobre, seguiu fielmente uma ideia woolfiana e deixou para o mundo a sua literatura feminina que representa a história das mulheres na ficção.virginia-woolf

Chega a ser profético tudo o que foi escrito por mulheres após a publicação de Um Teto Todo Seu, pois, por mais que naquele momento as mulheres já conseguissem editoras que as publicassem e já faziam um certo “sucesso” na literatura, quando Virginia Woolf, analisando o conteúdo de uma biblioteca percebeu a escassez da literatura feminina, e registrou que seria importante escrever de tudo; que tudo era literatura; marcou na história o quanto as mulheres ainda precisavam de um teto todo delas. Um teto que precisa ser interpretado corretamente, pois não é apenas um quadrado sobre a cabeça.

Quando escrevi sobre Um Teto Todo Seu, (em 19 de julho de 2014) registrei a frase:

“Um teto é o que pode dar segurança à liberdade da mulher, ao ponto dela poder ir e vir para onde quiser e o teto ser a sua maior e verdadeira proteção própria, dela para ela mesma. Não no sentido de proteger do medo; no sentido de acompanha-la como se fosse uma luz a iluminar tudo.”

Carolina de Jesus, primeiro que eu, também registrou sobre o que é preciso para escrever, conforme informou o site Obvious:

E então que aquela brasileira catadora de lixo assumiu o corpo da irmã de Shakespeare e construiu uma história diferente daquela escrita por Virgínia Woolf. Carolina de Jesus não ganhava quinhentas libras por mês e não tinha um teto todo seu – embora enquanto escrevesse, se imaginava num “castelo cor de ouro que reluz na luz do sol (…) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela.”

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É Virginia Woolf conectando mundos! Além da boa surpresa em conhecer um pouco da obra de Carolina de Jesus, nesta semana também li um artigo muito interessante sobre literatura feita por mulheres, Onde estão as mulheres na literatura?, escrito por Martha Lopes. No texto, além de mencionar o projeto #ReadWoman2014 (ou #LeiaMulheres2014), ela comenta sobre a pouca participação das mulheres na Flip, o site VIDA, o SheBooks, o twitter KdMulheres (que eu não conhecia e achei incrível) e outras questões muito importantes sobre como é recebida a literatura feita por mulheres.

Sempre que alguém ponderar, analisar, discursar, propôr, fomentar qualquer coisa a respeito das mulheres (não só na literatura, mas em tudo) se torna importante, pois é uma ajuda para uma sociedade melhor, que amplia e colabora para a iluminação de novos tetos.


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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“Livros, o precioso sangue dos espíritos imortais” Virginia Woolf