O que é lugar de fala? (Djamila Ribeiro): para aprendermos a ouvir

Djamila Ribeiro é mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, ocupou o cargo de Secretaria Adjunta de Direitos Humanos de São Paulo, em 2016. Ativista do feminismo negro, a sua voz ecoa cada vez mais no Brasil e no mundo. Por meio de suas análises sociais, culturais e feministas, podemos descobrir um novo olhar e, principalmente, um novo jeito de deixar nossos ouvidos atentos às lutas das mulheres negras.


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O seu livro “O que é lugar de fala?” foi lançado em 2017, faz parte da série Feminismos Plurais, do Grupo Editorial Letramento e traz a perspectiva do feminismo negro, por meio de sua voz e de outras mulheres tão importantes que colocaram o movimento negro como uma pauta fundamental para a sociedade.

Antes de adentrar no lugar de fala, Djamila traz um breve panorama sobre a posição social e histórica da mulher negra – escravizada, sexualizada, violentada e apagada no sistema branco patriarcal a qual todos nós estamos inseridos. E, dependendo da visão pessoal que cada um tem sobre o nosso passado – aqui já insiro um pouco sobre o que é o lugar de fala – será possível, a partir da própria experiência pessoal e social, abrir ou fechar o caminho tão necessário para se encontrar com as palavras da autora. Como ela mesmo informa em seu livro, não são só palavras: “o falar não se restringe ao ato de emitir palavras, mas de poder existir. Pensamos lugar de fala como refutar a historiografia tradicional e a hierarquização de saberes consequente da hierarquia social.” (p. 64)

Há um ponto de extrema importância sobre o movimento feminista. Ele, iniciado pela luta das mulheres brancas por melhores condições de trabalho, não convergiu com a luta das mulheres negras, pois elas, enquanto essa luta acontecia, estavam apenas tentando sobreviver e existir em um sistema que as silenciaram. Sabemos que a escravidão em seus moldes tradicionais acabou, por outro lado, o que foi feito com todas as pessoas negras quando, no caso do Brasil, foi assinada a “Lei Áurea”? O povo negro foi silenciado de todas as formas, não tiveram as mesmas oportunidades de emprego, de moradia e de estudo, por exemplo, e assim o Brasil foi crescendo sem se importar com tamanha violência social e racismo.

Portanto, o feminismo negro caminha em outras pautas. Ao ouvir as mulheres deste movimento, o lugar de fala delas traz uma nova perspectiva: mais humana, mais social, mais justa e, principalmente, o branco no lugar de ouvinte.

As pessoas brancas possuem um mundo que as legitimam em diversos aspectos. Assim, a fala da pessoa branca está mais propícia a ser ouvida e levada em consideração do que a fala da mulher negra, uma vez que – por tanto tempo silenciada e violentada, a sociedade foi construída em moldes culturais, sociais e políticos que não a considera. Na introdução do livro, Djamila esclarece “a importância de pautarmos como sujeitos as questões que são essenciais para o rompimento da narrativa dominante e não sermos tão somente capítulos em compêndios que ainda pensam a questão racial como recorte.” (p. 15)

Sojouner Truth (1797-1883)

“E eu não sou uma mulher?”

Impossível não destacar o discurso de Sojourner Truth (afro-americana, abolicionista, escritora e ativista dos direitos da mulher) denominado “E eu não sou uma mulher?”. Em 1851, durante a Convenção do Direito da Mulher, as palavras – de improviso – tornaram-se um ponto chave para a pluralidade do feminismo. Djamila nos conta que hoje podemos ver esse tema ser abordado no que é chamado de “Terceira Onda do feminismo“.

Veja abaixo um vídeo com a atriz americana Kerry Washington lendo o discurso de Sojourner Truth:

Mas, enfim, e o lugar de fala?

Nós vivemos em uma sociedade que nos marca de acordo com os grupos (culturais, raciais, políticos, religiosos etc) a qual nos pertencemos. Alguns desses grupos são privilegiados por estarem ligados às identidades dominantes. Essas identidades, como exemplo, temos o padrão heteronormativo.

Então, o cotidiano, como exemplifica Djamila Ribeiro, possui um discurso autorizado por nossos processos históricos violentos e silenciadores, que:

“(…) faz com que pessoas brancas, por exemplo, ainda insistam no argumento de que somente elas pensam na coletividade; que pessoas negras, ao reivindicarem suas existências e modos de fazer político e intelectuais, sejam vistas como separatistas ou pensando somente nelas mesmas. A persistirem na ideia de que são universais e falam por todos, insistem em falarem pelos outros, quando, na verdade, estão falando de si ao se julgarem universais.” (p. 31)

Cada pessoa tem o seu ponto de vista. No entanto, dependendo de como esse indivíduo está inserido no mundo, o seu ponto de vista mora em um espaço muito confortável, ao ponto dele achar que o seu lado é único, correto e melhor que das pessoas que não estão confortáveis em seus lugares, como se representasse, por meio de suas experiências pessoais todas as pluralidades capazes de reconstruir as diferenças sociais, culturais, econômicas e afins.

Então, o lugar de fala é o existir como indivíduo, poder se comunicar e ser ouvido em seu ponto de vista. E cabe àqueles confortáveis em seus mundos, ouvirem e respeitarem para podermos partir para a perspectiva da mudança.

Lugar de fala é uma localização social

Se o homem cis não reconhece a sua localização social – como é tão comum, infelizmente, ele apenas corrobora para o padrão vigente que consiste no silenciamento, por exemplo, da mulher negra. Porém, afirma Djamila Ribeiro da importância do homem cis adquirir consciência sobre o seu lugar de fala e ampliar seus estudos para outros lugares de fala.

“Assim, entendemos que todas as pessoas possuem lugares de fala, pois estamos falando de localização social. E, a partir disso, é possível debater e refletir criticamente sobre os mais variados temas presentes na sociedade. O fundamental é que indivíduos pertencentes ao grupo social privilegiado em termos de locus social consigam enxergar as hierarquias produzidas a partir desse lugar e como esse lugar impacta diretamente na constituição dos lugares e grupos subalternizados” (p. 86)

Assim, o lugar de fala, além da ação verbal, é também um agente transformador que confronta o poder e o discurso autorizado, pois dá a oportunidade de rever o mundo e suas estruturas; de ouvir quem representa a história silenciada pelos colonizadores; de reconstruir nossas relações sociais com mais humanidade. Djamila Ribeiro afirma que “o lugar social não determina uma consciência discursiva sobre esse lugar. Porém, o lugar que ocupamos socialmente nos faz ter experiências distintas e outras perspectivas.” (p. 69)

Alcançar essa consciência sobre o nosso discurso e estar atento às experiências e outras perspectivas. Lugar de fala, ao que vejo, é uma oportunidade de derrubar esses muros invisíveis que nos separam e construir laços a partir do ato de ouvir e saber o seu lugar.

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Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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