O Clube de Boxe de Berlim (Robert Sharenow): uma nova perspectiva do holocausto

O Clube de Boxe de Berlim – Uma nova perspectiva do holocausto

Cada um com suas exigências literárias, uma das minhas é que todo livro tem que surpreender o leitor de alguma maneira: o estilo da escrita, algum personagem, o cenário, o enredo… enfim, alguma coisa naquele livro precisa fazer os meus olhos brilharem. Mas entendo também que muitas vezes a culpa por algum livro não trazer a surpresa está no próprio leitor, que não está entregue à leitura por algum motivo, um exemplo, as preocupações da vida. O que me ajuda no processo de permitir a surpresa do livro – porque é necessário estarmos dispostos para tal – é não ler o prefácio, nem as informações de capa e contracapa, e, caso eu esteja lendo um autor até então desconhecido para mim, também procuro não me informar sobre ele. É uma das formas que encontrei para que a minha leitura fique o mais longe possível de conceitos e preconceitos.

livro-o-clube-de-boxO Clube de Boxe de Berlim (Robert Sharenow, tradução de Raquel Zampil, Editora Rocco) me surpreendeu muito. Foi mais um caso de escolha apenas pelo título do livro e não me arrependi, pois a história da família Stern realmente me conquistou.

Karl Stern é o nosso narrador, ele é um garoto judeu que mal sabe que é judeu, pois a sua família não faz parte da religião judaica, mas possui o que os nazistas chamam de “sangue judeu”. E a partir da confirmação de que sim, ele é um judeu e toda a sua família também, a história, que se passa durante a Alemanha Nazista, começa a ganhar corpo.

O pai de Karl possui uma galeria de arte que está sofrendo muito por conta da política alemã de não aceitar certos autores, considerados desrespeitosos. A mãe dele, é uma mulher com uma forte depressão, mas que em dias importantes para a família, marca presença. A sua irmã, uma garotinha muito doce, o vê como um herói e grande amigo.

A descoberta que Karl é judeu acontece na escola, quando ele está indo para casa e um grupo de estudantes nazistas montam uma emboscada para Karl ser humilhado. Nesse momento também acontece a primeira luta de Karl, que leva uma surra terrível de um dos garotos e volta desiludido para a sua casa e cheio de perguntas sobre quem ele é, o quanto ele é medroso, covarde, etc.

Por meio da galeria de arte de seu pai é que Karl conhece um dos grandes nomes do boxe alemão, Max Schmeling (que existiu de verdade) que vê no garoto traços de um bom pugilista e o convida para fazer parte do O Clube de Box de Berlim. Karl, quase atordoado pela oportunidade de ser treinado por um dos mais importantes atletas da época, fica extremamente empolgado com a oportunidade e jura para si mesmo que fará todos os treinos rigorosamente para um dia também se tornar um bom boxeador.

O que tinha tudo para resolver o problema de Karl em ser muito magro e apanhar dos garotos nazistas na escola, ganha um sentido mais profundo, pois estar envolvido num esporte que até mesmo Adolf Hitler considerou essencial para os jovens, o fez se transformar numa nova pessoa, de um menino judeu assustado a um homem corajoso, capaz de enfrentar, acima de tudo, o vazio de viver num país que não o respeita.

Há uma harmonia inimaginável entre o boxe e as obras de arte. Karl, além do Boxe também sabia sobre Artes, herança aprendida com o seu pai que também foi um bravo soldado na guerra. Karl mergulhou no mundo dos quadrinhos (ele era excelente ilustrador) e do boxe, construiu uma união que se tornou a sua base para uma vida equilibrada, mesmo quando o mundo, literalmente, parecia desmoronar pelas mãos de Adolf Hitler.

“Depois me deitei na cama e folheei minhas velhas revistas de boxe, tentando me perder no mundo de Barney Ross, Max Schmeling, Tony Canzoneri, Jimmy Braddock, Henry Armstrong. Raça e religião não pareciam ter importância no ringue, ou, se tinham, eram motivo de orgulho ou distinção. Os judeus eram descritos como “Martelos Hebreus” e “Filhos de Salomão”. Os lutadores negros eram “Brutamontes Negros” e “Bombardeiros Negros”. Gostaria que a Alemanha fosse tão acolhedora como o mundo do boxe parecia ser.” (p. 181)

No site do autor, você pode assistir às lutas de Max Shmeling narradas no livro.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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