Anedotas do Destino (Karen Blixen)

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“Ficaram num abraço apertado, carregados e elevados pela mesma onda. Mas não se beijaram; um beijo não caberia naquele instante de eternidade” (Anedotas do Destino, p. 99)

Foram os livros de contos que me serviram de pontapé inicial para eu ter me tornado uma leitora assídua, então, quando estou com eles sinto que em algum momento e por algum motivo especial eu vou ganhar um empurrão rumo ao aprendizado mágico que a leitura provoca. Então, é uma enorme satisfação. A certeza de subir mais alguns degraus do meu próprio conceito de leitura, literatura, arte e escrita.

Há muita coisa para analisarmos num conto, e pelo seu formato curto, em relação a um romance, por exemplo, percebo que ele é capaz de “abraçar” o leitor de uma forma enxuta e agradável e, mesmo com aquela sensação de que alguma coisa fica de fora, como disse Katherine Mansfield, ler um conto é como apreciar a safra especial de um bom vinho.

Os 5 contos presentes no livro “Anedotas do Destino”, da escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962), chamada de “a Sherezade dos tempos modernos”, além do tema comum sobre as mudanças bruscas do destino, há a religião que aparece em todos eles e fortes personagens que dificilmente irei esquecer.

Sobre os contos

O primeiro conto chama-se “O Mergulhador”. É a história de um jovem estudante de teologia que acredita que se conseguir construir asas para si mesmo, ele estará mais perto de Deus, assim como os pássaros.

O segundo conto é “A festa de Babette”. A religião aparece em torno da família onde vive Babette, uma excelente cozinheira que, após um presente do destino, resolve preparar um grande jantar.

O terceiro conto, “A Tempestade”, é um dos meus preferidos, pois além de personagens interessantes, há a intertextualidade com a peça de Shakespeare, de mesmo nome. Um grupo de teatro monta e vive a peça shakespeariana. É maravilhoso!

E quando eu imaginei que não leria um conto tão bom quanto “A Tempestade”, leio “A História Imortal”, o penúltimo conto do livro que mistura uma antiga história de pescadores com o desejo de um velho avarento em transformá-la numa história real.

O último conto, “O Anel”, mostra uma moça recém casada que, ao passear sozinha, vive um momento de terror, porém nega-o ao seu marido. Achei um pouco estranho e bem diferente dos anteriores, que mantém uma estrutura de narração comum: Karen Blixen divide os contos em pequenos capítulos. Eles começam mostrando uma parte da história, com foco em um personagem. Depois volta ao passado, muda o foco para outros personagens e depois retorna para algum ponto importante da história para apresentar o “grand-finale”.

Portanto, Anedotas do Destino pode ser compreendido como aquele momento que a vida, ora ingrata, ora grata, ora estúpida, ora doce, apresenta uma situação contrária ao esperado, e isso pode ser muito bom ou muito ruim.

Sobre o posfácio

Essa coletânea de contos foi publicada em 1958 e, segundo o Posfácio escrito por Per Johns (escritor e tradutor brasileiro), “devem ser lidas como um conjunto e interpretadas como um único texto, à maneira de uma peça musical que expõe as múltiplas variações de um mesmo tema.”

Realmente ele tem razão, pois, ao final da leitura de todos os contos, começamos a perceber pequenas nuances que conectam um ao outro, que transformam todos eles, apesar de tão distintos, numa única obra.

Assista ao vídeo no canal Livro&Café:

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

5 Comentários
  1. Ótima resenha!

    Eu adoro a Karen! E essa edição da Cosac é muito papa fina! Kkkk…O filme baseado n’A festa de Babette é de encher os olhos, um clássico!

    1. Eu quero ter todos os livros dessa coleção da Cosac, é LINDA DEEMAAISS. Já tenho 6 livros, faltam uns 10 rsrs
      Quero ver o filme! Estou curiosa para ver desde que vc sorteou o livro aqui no blog 🙂

  2. Chega logo!!! Chega logo!!! (o meu livro lindo rs)
    Eu vi que tem um filme baseado no A festa de Babette. Já viu?

    Beijos! 🙂

    1. Eu ouvi dizer q tem também, mas não vi. Deve ser bem interessante. As imagens que o conto provoca são lindas! 🙂

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