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Todos os nomes (José Saramago): para massagear o cognitivo do leitor

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Além da história maravilhosa do livro Todos os nomes (e muito bem arquitetada), vale ressaltar a genialidade da escrita de Saramago e apontar para uma característica dessa que achei a mais interessante, que é a de como o autor consegue massagear o cognitivo do leitor ao desmascarar e dar sentido às coisas mais simples…

Tem-se uma sensação incrível quando, ao ler um livro (no caso aqui Todos os Nomes, de José Saramago), sabe-se que ele entrará para sua lista de favoritos. E algo mais palpável, que é o frio na barriga quando se começa a fazer um post sobre ele.

O Sr. José vive sua sexta década no momento em que acontecem os fatos do livro. Há 25 anos ele trabalha na Conservatória Geral do Registo Civil, um imenso pavilhão Kafkiano no qual as estantes contento os arquivos manuscritos chegam ao negrume do infinito céu, e altíssimas escadas colaboram na obtenção de arquivos muito acima do rés-do-chão.

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O autor José Saramago

Alguns anos passados os funcionários da Conservatória Geral do Registo Civil tinham como suas casas pequenos cômodos adjacentes ao pavilhão principal, de tal forma a não poderem se atrasar para o expediente. Mas o tempo transcorreu, as casinhas em anexo foram deitadas abaixo restando apenas uma, a do Sr. José.

O Sr. José era um ser disciplinado, exemplar no trabalho, e tinha uma vida simples que se restringia ao seu ofício de escrivão. Para matar o tempo no pequeno espaço que lhe é concedido como casa, O Sr. José começou a colecionar notícias sobre pessoas famosas que ele encontrava em jornais e revistas. Ao final de um tempo o Sr. José tinha uma espécie de arquivo com perfis de tal sorte de pessoas que eram devidamente atualizados.

Certo dia, porém, o Sr. José chegou à conclusão de que seu arquivo ficaria melhor provido se as informações sobre os respectivos personagens que se encontravam logo ali, do outro lado da porta que antigamente dava acesso à Conservatória Geral do Registo Civil, fossem adicionadas à seu dossiê. Assim o Sr. José usou a antiga chave e passou suas noites a encontrar os mencionados arquivos para dar mais crédito aos que ele já colecionava de jornais e revistas.

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Mas nessas buscas pela Conservatória Geral do Registo Civil um acontecimento está para mudar definitivamente a vida do Sr. José, e talvez não ainda seja tarde para isso. O Sr. José, numa de suas idas (que acontecem à noite, após o expediente), leva consigo 5 registos de pessoas que ele gostaria de completar sua coleção com informações como data de nascimento, local de nascimento etc. O que ele não se deu conta é que levou sem querer um sexto registo, e que esse não é a respeito de uma pessoa famosa. Diante do acontecimento, o Sr. José começa um dos vários monólogos sensacionais que nos ganham a leitura. Em suma, o Sr. José mexe com seus botões e se pergunta se uma pessoa sem fama não valeria o mesmo que as 100 famosas do seu pequeno arquivo. Se ele ou até mesmo aquele registo de uma mulher não famosa não equivaleriam à todas pessoas famosas do mundo, e se elas todas também não equivaleriam tanto à ele quanto à mulher.

Desse momento em diante, o Sr. José toma como obsessão a procura da história completa dessa mulher simples, como ele nunca havia feito com nenhuma celebridade. E também, desse momento em diante, o Sr. José extravasa a cápsula que era sua vida até aquele momento, do pequeno cubículo que tinha como casa e o trabalho da Conservatória Geral do Registo Civil. O Sr. José, depois de muitos anos, começa a travar relações sociais, começa a se atrever a ultrapassar limites, e como ele próprio diz, começa a viver. Tudo em órbita da busca de mais informações sobre a mulher incógnita que por algum acaso veio na remessa de cinco registos que afinal se tornaram seis.

Esse é o exato início do livro. Mas além da história maravilhosa e muito bem arquitetada, vale ressaltar a genialidade da escrita de Saramago e apontar para uma característica dessa que achei a mais interessante, que é a de como o autor consegue massagear o cognitivo do leitor ao desmascarar e dar sentido às coisas mais simples, que de outra maneira, a não ser lendo Saramago, poderíamos não nos dar conta. Vai me ser difícil dar um exemplo, pois estava a gostar tanto do livro que pensei em dá-lo a alguém após a leitura, de tal forma que tirei todas a inúmeras marcações. Mas ao fim de tudo quis ficar com o livro e me acabei sem marcações ou compartilhamento da leitura.

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Alister Vieira
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1 comentário

  1. Boa noite.

    Como leitora de Saramago, que livro do escritor me aconselharia sobre a procura da nossa identidade?

    Atenciosamente
    José Nuno

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