Entre amigos (Amós Oz): contos como pequenas fotografias

Composto de 8 contos interligados sobre a realidade do Kibutz, “Entre amigos”, do escritor nascido em Jerusalém Amós Oz, foi traduzido do hebraico em sua 1º edição para a Editora Companhia das Letras em 2014.

Kibutz: sm (hebr qibbus) fazenda ou colônia coletiva, cuja organização se baseia na cooperação voluntária e gratuita dos coproprietários contra garantia da subsistência para as famílias cooperadoras. Pl: Kibutzim.

“Lea não gostava de contatos físicos desnecessários e de conversas desnecessárias e acreditava em princípios sólidos. Cumpria todos os regulamentos do kibutz com furiosa devoção. Tinha a convicção de que a vida de um casal no kibutz deve se basear na simplicidade” (pg. 66)

Cada um dos contos envolve um ator central e se desenrola em torno da rotina desse personagem e de seu círculo de convivência no Kibutz “Ikhat”, ou, a relação “entre amigos”. O primeiro conto, por exemplo, meu preferido, nos revela um pouco sobre a vida de Tzvi Provizor, responsável pela manutenção dos jardins do Kibutz e possuidor de uma marcante característica: a de ser conhecido por noticiar tragédias. Achei genial.

“Tzvi (…) trazia pendurado no cinto um rádio transístor do qual extraía uma corrente perpétua de péssimas notícias:
– Você ouviu? Um grande massacre na Angola!”Ou
– Morreu o Ministro das Religiões. Deram a notícia há dez minutos” (pg. 8)

Por causa disso, Tzvi é evitado pelos membros da comunidade e é chamado por muitos de “Anjo da Morte”. Sempre antenado em seu rádio, ele não consegue estabelecer um diálogo que não envolva algo ruim. Mas, o interessante é que com o desenvolvimento do conto, Amós sutilmente mostra para o leitor que Tzvi é, ao contrário do que parece, não uma pessoa sádica, mas sim um ser extremamente sensível, que parece ocultar um passado cheio de dores ao ponto se sentir no dever de ter um papel ruim no Kibutz, por ser incapacitado de fazer o que realmente gostaria.

“Luna disse:
– Por que você toma sobre seus ombros toda a aflição que há no mundo?
E Tzvi lhe respondeu:
– Fechar os olhos para os aspectos cruéis da vida, em minha opinião, é uma tolice e também um pecado. Fazer, nós podemos muito pouco. Então pelo menos é preciso dizer” (pg. 12)

No começo do livro fiquei com a sensação de que as histórias acabavam no meio, mas depois me acostumei com a ideia e passei a ver aqueles contos como pequenas “fotografias” do kibutz, como se fossem a retratação de um momento de um dia qualquer, sem finais, felizes ou infelizes.

Apesar de ter sido o meu primeiro contato com o autor e de (confesso!) não ser a maior conhecedora sobre os Kibutzim até então, a leitura de cada uma das histórias contidas nas 136 páginas me teletransportou de uma forma tão incrível que foi como se eu também estivesse “entre amigos”.

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