Sala de armas: a colheita de Nélida Piñon

“Quando se fez homem encontrou a mulher, ela sorriu, era altiva como ele, embora seu silêncio fosse ouro, olhava-o mais do que explicava a história do universo.” (p.104).

Assim é Nélida Piñon, intensa, direta, asfixiante, mas sem excessos. Uma espada afiadíssima que nos corta sem fazer alarde. Nélida publicou em 1973 o livro Sala de Armas, uma coletânea de dezesseis contos de tirar o fôlego. Histórias atemporais, que valem a pena serem revisitadas a qualquer momento por leitores ávidos de uma literatura precisa e marcante.

Nélida Piñon nasceu no Rio de Janeiro, tem 78 anos e é imortal da Academia Brasileira de Letras. Faz parte de uma safra de ouro de escritoras brasileiras, ao lado de Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector. Sobre Sala de Armas, vou ater-me a um conto em especial, o Colheita. Nele, há o encontro de um amor profundo, já expresso na citação feita acima. Depois de alguns anos de relacionamento, o homem parte de casa, querendo independência. A mulher fica só, retirando o retrato dele do armário. Anos se passam, e ele regressa. Ela o recebe normalmente, continuando com suas tarefas de casa. Não ouve suas aventuras. Não se importa com elas. Em contrapartida, a mulher inicia o relato de suas aventuras domésticas, sobre como foi difícil resistir a galanteios. “No entanto, ela confessando a jornada dos legumes, a confecção misteriosa de uma sopa, selava sobre ele um penoso silêncio.” (p. 112).

O homem, estupefato com o longo relato, encontra o porta-retrato virado para baixo sobre o armário. Rasga a foto. E começa a fazer, ele próprio, as tarefas domésticas. Ele pensava em contar a ela sobre o mundo lá fora, mas ela o hipnotizou com o seu vasto mundo ali de dentro. “E quando a cozinha se apresentou imaculada, ele recomeçou tudo de novo, então descascando frutas para a compota enquanto ela lhe fornecia histórias indispensáveis ao mundo que precisaria aprender uma vez que a ele pretendia dedicar-se para sempre.” (p. 112).

A autora nos arrebata com suas frases curtas e fortes. Faz com que o leitor fique ansioso pelo futuro da narrativa, prendendo-o em seu universo imaginativo. Seus temas circulam por ambientes domésticos, como um novo mundo a ser explorado. Sua escrita é rápida, mas com a rapidez descrita por Ítalo Calvino, em sua obra Seis propostas para o próximo milênio: “o segredo está na economia da narrativa em que os acontecimentos, independentemente de sua duração, se tornem punctiformes, interligados por segmentos retilíneos, num desenho em ziguezagues que corresponde a um movimento ininterrupto.” (p. 48). A rapidez, de acordo com Calvino, portanto, não é um valor em si.

Ler Nélida Piñon é desembarcar em terra estrangeira, eternamente “ao nosso redor”. Seu recente lançamento foi A camisa do marido, pela Editora Record, em 2014. Um livro de contos que mais uma vez nos corta impiedosamente pela sua doce e asfixiante realidade. Em Colheita, ela não semeou lição de moral. Bons escritores não se atrelam a isso.

Sala de Armas
Nélida Piñon
Coleção Aché dos Imortais da Literatura Brasileira
153 pg.

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Munique Duarte

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