O Iluminado (Stephen King): livro e filme

iluminado-capa-livro-400A boa sensação de ter lido o melhor livro do autor aconteceu durante a leitura do livro O iluminado, lançado em 1977 e que faz enorme sucesso até hoje, por si só, mas também por conta da adaptação feita por Stanley Kubrick (1928 – 1999). Livro e filme são bem diferentes, cada um, por sua particularidade, possui algo muito especial que realmente consegue marcar o cenário cultural a qual pertence. O livro, caminha para o suspense psicológico, a violência familiar (uma marca de Setephen King) e o sobrenatural. O filme, possui cenas incríveis, a atuação maravilhosa de Jack Nicholson, porém termina de um jeito trash-pastelão.

No livro, Jack Torrance é um homem casado com Wendy, uma mulher compreensiva, porém a beira de pedir o divórcio, pois em um passado recente, Jack se tornou alcoólatra, quebrou o braço do próprio filho e perdeu a profissão de professor porque agrediu um aluno. Então, o emprego de zelador de um hotel nas lindas montanhas do Colorado, no período de inverno, quando o hotel fica fechado, é a única chance de recuperar o amor de sua família e ter um emprego que o permita correr atrás de sua ambição de se tornar escritor.

O filho do casal chama-se Daniel, é uma criança com poderes especiais, que lê a mente dos outros e pode ver pessoas que já morreram. O nome “iluminado” é apresentado pela primeira vez por Dick Hallorann, cozinheiro do famoso Hotel Overlook e também uma pessoa “iluminada”, que acaba ajudando muito a família Torrance.

O Hotel Overlook é como um personagem do livro, pois a partir das coisas estranhas que acontecem dentro dele, a família Torrance vive num perigoso limite entre a sanidade e a loucura. Wendy e Danny conseguem ser mais fortes que o hotel, porém Jack, um homem com tantos problemas desde a sua infância, sucumbe ao terror proposto pelo hotel, com a presença de pessoas que já morreram, elevadores fantasmas, quartos misteriosos e algo que parece convidá-lo a se tornar um assassino.

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Nos primeiros meses da família Torrance no hotel tudo acontece de forma satisfatória, nenhum incidente estranho, muito menos desentendimento do casal, que se esforçam muito para amar um ao outro. A criança Danny, mesmo com seu amigo imaginário dizendo que é melhor ele não ir ao hotel, parece se divertir no gigantesco espaço. Mas tudo é passageiro e junto com o rigoroso inverno que deixa o lugar sem comunicação com o mundo, o hotel Overlook começa a mostrar a sua verdadeira identidade.

Antes da família se instalar no hotel, Danny teve terríveis visões sobre o que poderia acontecer a ele e sua família caso o pai aceitasse o novo trabalho, ao ponto de ficar catatônico. Sua mãe, preocupada, chega a repensar a ideia de ir para o hotel, mas compreende que é a única e última oportunidade para a sua família ser feliz. A possibilidade de ficar na casa da mãe, enquanto Jack cuida sozinho do hotel é descartada rapidamente, uma vez que Wendy tem sérios problemas de relacionamento com a mãe. Então, os três não possuem outra opção a não ser o Hotel Overlook, como se fosse uma escolha do destino: Jack está desesperado por um trabalho e por querer recuperar o amor de sua família. Wendy quer ter um casamento feliz, ainda ama Jack e quer ficar ao lado dele. Danny, que não quer ir para o Hotel, sabe dos pensamentos de seus pais e entende a necessidade desesperadora dos dois em manter a família unida e dar uma oportunidade para Jack, que abandonou o álcool após ter machucado o próprio filho.

Assim, um clima inicial de recomeço é perdido quando Jack encontra um álbum no porão do hotel, que revela a ele todos os horrores que já aconteceram por lá, que rementem desde a construção do hotel, os inúmeros donos do espaço e as mortes bizarras que ocorreram nas dependências de seu novo local de trabalho. No porão, também há uma máquina antiga, em que ele deve prestar muita atenção, pois controla a temperatura do hotel. Se ele não descer diariamente até o porão para verificar os ponteiros da calefação, conforme avisado por um funcionário do hotel, pode acontecer uma explosão, o que podemos pensar numa metáfora sobre a vida da família Torrance que, se os três não controlarem seus impulsos, a tragédia vai acontecer.


Dia após dia, Jack se vê mais próximo dos mistérios do hotel. Suas crises de abstinência do álcool criam momentos de muita tensão, uma vez que ele acredita conversar com hóspedes e garçons que não existem. Em sua memória, o leitor acompanha a decadência de um homem arrependido, querendo corrigir suas falhas, porém com um temperamento explosivo, obsessivo e descontrolado.

Antes de sair de férias, o chef de cozinha, também uma pessoa iluminada, avisa o garoto Danny de que é melhor ele não entrar no quarto 287, porém, comum a toda criança curiosa, ele descumpre o prometido, ficando, mais uma vez, catatônico com o que vê dentro do quarto. Neste momento os pais já estão se odiando, Wendy, desesperada, mas muito segura, de que precisa salvar o filho e a si mesma, enfrenta as loucuras de Jack. E ele, da mesma forma, disposto a cumprir o desejo do hotel e acreditando cegamente que seu filho e sua mulher estão contra ele, enlouquece de vez.

O livro prende o leitor por conta da tensão que é colocada em cada página, uma vez que é possível saber o pensamento dos personagens, que difere muito das atitudes deles. Um exemplo, é quando Jack conversa com o gerente do hotel, que conta em detalhes sobre as maravilhas do Overlook, mas o seu pensamento é sobre o quão chato é o gerente. Wendy, dá uma chance para o marido, mas o seu pensamento é permeado pela desconfiança de que Jack voltou a beber e que pode, mais uma vez, fazer mal para o seu filho. E a criança, iluminada, assustada, com medo, diz para os pais que está tudo bem, quando na verdade não está.

Portanto, O Iluminado é uma narrativa grandiosa sobre perder a sanidade, sobre vencer os medos, sobre a fragilidade do ser humano, pois mostra, em níveis altíssimos, do que somos capazes quando o isolamento e a solidão engolem todo sentimento bom que se pode depositar na própria vida.

Filme x Livro – contém spoilers

Stanley Kubrick é considerado um gênio do cinema porque construiu novas formas de se fazer a sétima arte. De seus filmes, muitas técnicas e estilos são copiados até hoje, o que mostra o quanto era grandiosa a mente do cineasta.

É importante lembramos que uma adaptação para o cinema é apenas uma interpretação de um leitor comum. Kubrick foi leitor de O Iluminado, gostou da história e criou o seu filme, baseado na ideia do que pode acontecer quando uma família fica isolada num hotel.

Porém, cinema e literatura são linguagens muito diferentes, pois no livro, por exemplo, a apresentação de uma personagem, suas características, seu modo de dizer, pensar e sentir, podem ser narradas em longos capítulos, quanto ao filme, apenas uma boa imagem durante alguns segundos, é possível reconhecer um grande personagem. Assim é Jack Torrance, que no livro é um cara normal, tentando se ajustar na vida; no filme, logo no começo ele já é um cara com um aspecto mais sinistro. Ou seja, nesta questão o livro se mostra mais suave, como um elemento essencial para criar a tensão lá na frente. E no filme, quem o assiste precisa saber que a loucura do personagem ficará pior. No livro, nós temos o recurso de saber cada pensamento do personagem, no filme não.

Outra diferença é sobre o menino Danny, que no filme mais parece uma criança assustada a uma criança que compreende muito mais sobre a vida do que se imagina. O Danny do livro, enfrenta a loucura do pai, enquanto o Danny do filme é apenas um garotinho assustado.

Uma gigante diferença é na personagem Wendy, que no livro é uma mulher forte, controlada e mostra confiança até no leitor, como se ela estivesse preparada para o pior. No filme ela é uma mulher frágil e que parece estar lá apenas para gritar quando o marido quer matá-la com um machado. Aliás, no livro não tem machado, tem apenas um taco, que é usado pelo marido, enquanto ela o atinge, pelas costas e não na cabeça, com uma faca, após uma violenta briga entre os dois. A violência entre os dois também não aparece no filme, ficando apenas uma cena (muito boa) em que Wendy, desesperada, sobe a escada enquanto o marido a persegue. A posição da câmera nesta cena, mostra certinho todo o desespero da mulher. Linda cena, mesmo não existindo no livro, mesmo com a forma tosca que Wendy segura o taco, que evidencia mais uma vez o quanto ela era frágil e despreparada para a vida, muito diferente do livro.

E sobre outras coisas que não existem no livro: a aparição constante das duas crianças (que já morreram) nos corredores do hotel, o jeito como Jack morre (que cena ridícula!), o labirinto, os gritos de Wendy, a morte de Dick Hallorann (a pior coisa do filme) e o fim da história.

No livro, é muito importante o porão e a máquina que Jack precisa manter na temperatura ideal. O livro que ele encontrar por lá também tem uma importantíssima missão na história. O jeito como Jack se livra do rádio (único jeito de conversar com o mundo externo) e depois do trator (que Wendy e o filho sugerem a partida imediata do hotel) também difere muito, pois no livro são cenas que ainda revelam uma possível reconciliação do casal, quanto no filme, nestes dois momentos a loucura de Jack já domina tudo.

Até a metade do filme, mesmo com todas as diferenças, há uma igualdade em relação ao livro no sentido de manter o mesmo clima de uma boa história de suspense, porém, quando Jack enlouquece de vez, o filme caminha para algo muito grotesco, trash, que não parece em nada com o livro.

A decepção maior é sem dúvida com a morte de Dick, a ausência da explosão do hotel, o final que mostra Danny e Wendy a salvos, em um lugar seguro, e as grandes conclusões do garoto iluminado. No livro ele diz que sente muito a morte do pai, mas que ele morreu muito antes de agredir a própria mãe, pois ali era outra coisa que estava presente. Assim, a criança permanece com a boa lembrança do pai e, com a ajuda de Dick, começa a compreender melhor as suas habilidades especiais. Outro momento importante no livro é a constatação, logo no início, que Wendy também tinha um certo tipo de iluminação, comum a todas as mães, então, a personagem Wendy no filme, sem dúvida, é o que mais decepciona. E o que mais agrada é o personagem de Jack Nicholson, que com aqueles olhos tão expressivos e o dissimulado presenteia o leitor com cenas maravilhosas, engraçadas e trágicas.

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Francine Ramos

Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

6 Comentários
  1. Acabei de ver o filme e não gostei tanto assim, apesar de algumas cenas serem realmente perturbadoras. O visual também é muito bem feito. Quanto ao livro, tenho vontade de ler!

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