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Uma Duas (Eliane Brum): para desconstruir as relações, a maternidade e o grito

Uma Duas é um livro da escritora Eliane Brum, brasileira, jornalista e cronista há mais de 20 anos, que mostra uma história muito diferente dos padrões, sobre amor, família e laços afetivos.

É muito importante quando os livros desconstroem alguns conceitos românticos que parecem enraizados no nosso cotidiano, principalmente quando o assunto é relacionamento. A relação mãe e filha é um bom exemplo disso que, sempre presente como um comercial de margarina, por muitas vezes, pode ser algo muito mais complexo e dilacerado que uma vida linda e feliz à luz do sol.

Uma Duas é um livro da escritora Eliane Brum, brasileira, jornalista e cronista há mais de 20 anos, que mostra uma história muito diferente dos padrões, sobre amor, família e laços afetivos. Na obra, mãe e filha vivem uma constante batalha para se comunicarem. Vivem juntas, mas estão distantes, ao mesmo tempo que se sentem parte uma da outra. Porém, um grande vazio mora ali. Então, é sobre esse vazio – os motivos da escuridão interna das duas que a história se desenrola.

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A filha

uma duas eliane brumLaura, a filha. Recebe um telefonema avisando-lhe que há dias ninguém consegue falar com a sua mãe e que, por isso, o apartamento dela precisa ser invadido. Neste momento, Laura prevê um certo tipo de reencontro, que ela não quer, ao mesmo tempo que tem a certeza que o pior aconteceu com a sua mãe. E assim, após entrar no apartamento e encontrar a sua mãe, Laura revisita a sua vida e as suas escolhas, desde a infância, como querer dormir ao lado da mãe, até a sua vida presente que, morando em outra casa, parece que ainda precisa buscar o cheiro, o toque, o corpo de sua mãe, como se o cordão umbilical ainda estive ali, unindo-as.

A mãe

A mãe, Maria Lúcia, ganha voz própria na narrativa, porque decide voltar a escrever e assim, as primeiras impressões que o leitor terá de Laura, vai se modificar por meio do olhar da mãe. O que poderia ser uma coisa, acaba se transformando em outra. E o mesmo acontece com a filha, que, como jornalista, acaba também escrevendo sobre a sua mãe. Assim, alternando diversos pontos de narrativa. Ora mãe, ora filha, ora uma voz em terceira pessoa, o livro reconstrói os laços invisíveis que mantinham mãe e filhas unidas, apesar dos silêncios.

“Finalmente o grito preso ali se solta. E ela sente que nunca mais o grito cessará, que aquele grito é para sempre, é um grito para toda a vida e para além da vida. Porque agora ela alcança a inteireza do horror. E gritos são coisas que não viram palavras, palavras que não podem ser ditas. Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre” (p. 14)

O livro possui 178 páginas e pode ser lido rapidamente, porém o conteúdo não é simples, no sentido do tema que ele desconstrói, assim, a leitura se torna algo visceral, intenso e provocador.

Um livro provocador!

O tom provocador se dá em diversos momentos. Em alguns, parecem que estão ali apenas para chocar o leitor, como um elemento apenas de ação, sem profundidade. É difícil dizer sobre o efeito final da história caso não houvesse esses elementos. Por outro lado, fica evidente que para o desfecho da história eles não tiveram importância, mas sim a provocação maior, o contexto, as entrelinhas.

Há um conceito conhecido sobre as entrelinhas. Todo texto ou fala, exibe também uma comunicação silenciosa, que não é dita, mas percebida no silêncio, nas entrelinhas. Então, todo texto pode ser considerado um discurso muito pessoal, mas também que exibe naturalmente características de nossa sociedade. A minha fala é diferente da fala de um índio, as minhas entrelinhas são diferentes das entrelinhas dele, mesmo se falarmos a mesma língua, porque vivemos em ambientes diferentes, porque o grito interno vem por outros caminhos. Dessa forma, em Uma Duas, conforme o leitor conhece o passado da mãe, principalmente, mas da filha também, fica visível que o fato das duas terem problemas psicológicos profundos, vem da construção social sobre a vida da mulher e sobre como o homem acaba por torná-la prisioneira, mesmo com boas intenções.


A essência da minha e da filha; da filha e da mãe

Maria Lúcia é uma outra versão de Laura; Laura uma outra versão da mãe, como se fosse uma pequena evolução, por conta da natural passagem do tempo que modifica as relações sociais, mas lá dentro, no íntimo das duas, ainda há o desespero, o grito que silencia a alma e que provoca cortes profundos na pele, na essência do ser, literalmente.

Clarice Lispector, no livro A Maça no Escuro, descreve sobre o grito silencioso, sobre o que acontece com uma pessoa que está tomando calmantes. Ela continua a gritar, sabe que está gritando, mas não escuta o próprio grito. Acrescento que não é apenas os remédios de tarja preta que produzem o grito silencioso, isso acontece também porque recebemos diariamente doses sobre regras de conduta, sobre como se comportar, sobre como a mulher deve ser. Isso também nos silencia e nos faz gritar lá dentro, mesmo que, muitas vezes, não sabemos de nosso próprio grito.

“(…) É assim: vamos dizer que uma pessoa estivesse gritando e então a outra pessoa punha um travesseiro na boca da outra para não se ouvir o grito. Pois quando tomo calmante, eu não ouço meu grito, sei que estou gritando, mas não ouço, é assim, disse ela ajeitando a saia” (Clarice Lispector, A Maça no Escuro, p. 187)

Assim, Uma Duas é um bom modo para iniciar um debate sobre a romantização da maternidade, as relações e definições sobre o que é amor e ódio, o casamento tradicional, a fragilidade da mulher e a sua força para se reconstruir, mesmo que o resultado não seja o esperado pela sociedade patriarcal, que de tão grande, parece não saber dos problemas que causa, se tornando algo insuportável e dilacerante para todas as mulheres.

Assista ao vídeo no canal Livro&Café:

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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