Minhas leituras favoritas em 2018, por Rossana Pinheiro-Jones

Janeiro de 2018 mal tinha começado e minha lista de leitura para me acompanhar durante o ano já estava pronta. A proposta incluía, principalmente, livros clássicos de autoras de língua inglesa. As escritoras haviam se escondido atrás de um anonimato, de um pseudônimo masculino para poderem publicar suas obras e… simplesmente escrever. Eu queria acompanhar o percurso do descortinar de escritoras até o ponto em que elas puderam ter e assumir a própria voz, o próprio nome. Minha lista passava por George Eliot, Mary Shelley, Jane Austen, Virginia Woolf. Fevereiro começou e eu já estava bem distante de cumprir com meu projeto literário quando me caiu na mão um livro de Elena Ferrante. Eu já havia ouvido coisas boas sobre a autora, e, durante uma viagem de avião, devorei Dias de abandono. E foi assim que meu projeto literário 2018 não se realizou, mas foi permeado de descobertas incríveis, então deixo aqui para vocês os meus escolhidos de 2018, a começar, claro, com Elena Ferrante.

 

Dias de abandono, de Elena Ferrante

Escrita de forma direta, sem floreios, quase como um soco a cada página, a obra trata de abandono, como o próprio título sugere, de solidão, mas de superação e dos meios que encontramos para seguirmos adiante dia após dia depois de separações e frustrações que decorrem de expectativas quebradas. Como é possível dar a volta por cima quando tudo a sua volta desmorona? Como voltar a amar, a confiar, em dias de abandono? Essa porta de entrada para a escrita ácida de Ferrante me convenceu de que ela foi, para mim, uma das grandes descobertas de 2018. + Compre na Amazon

 

Os anos, de Virginia Woolf 

Para não dizer que não li nenhuma autora da lista original, Virginia Woolf me acompanhou em 2018, quando li seus livros de contos A brevidade e o romance Os anos. Woolf é, já há algum tempo, uma das minhas escritoras favoritas, quase como uma obsessão. Não consigo passar muito tempo sem recorrer a ela, sem me deixar encantar por sua escrita, sua criatividade, sua honestidade em falar de assuntos difíceis, em defender a importância da voz feminina ainda quando emitida em lugar de marginalidade. Os anos tratam da saga da família Pagiter desde os finais do século XIX até meados do século XX. Não só podemos acompanhar o desenrolar da família, como Woolf nos dá a chance de conhecer como ela própria presenciou a mudança da história, da sociedade e da Inglaterra entre o seu nascimento, em cerca de 1888, até 1940. Definitivamente, um livro para quem gosta de história, da Inglaterra, de discussões sobre narrativas de memória. + Compre na Amazon

 

Frankenstein, ou o Prometeu moderno, de Mary Shelley
Outra autora consagrada na lista inicial esteve entre minhas mãos em 2018. E como diz o ditado, “antes tarde do que nunca”! Frankenstein já é considerado um clássico, daquelas obras obrigatórias que marcam época, mas resistem ao tempo. Publicada como anônimo e assumida como obra do companheiro de Mary, o poeta Pierce Shelley, logo na introdução somos informados que a obra surgiu de um desafio proposto certa noite por Lord Byron: deveriam inventar uma história de terror, monstruosa, que suscitasse o medo nos ouvintes. Mary Shelley concebeu um humano monstruoso que, com o auxílio da descoberta da Eletricidade e dos avanços da Filosofia Natural, cria um monstro humano. Uma obra genial, que merece ser lida, relida e estudada. + Compre na Amazon

 

O sol é para todos, de Harper Lee

E por falar em clássico, foi somente em 2018 que descobri a obra de Harper Lee, O sol é para todos. E que descoberta agradável! Harper Lee tem uma narrativa clara, direta, e consegue construir uma história sob a perspectiva de uma criança sem ser infantil ou faltar em profundidade. Ela permite que acompanhemos o crescimento da pequena Scout, protagonista que, diga-se de passagem, só descobrimos ser feminina já avançada a leitura, o que faz da obra um Bildungsroman. Mas não se trata da apresentação de um amadurecimento físico, moral e psicológico qualquer, já que Scout, junto com seu irmão, cresce em uma cidade dos EUA, marcada por questões de desigualdade racial no despontar do fascismo europeu. + Compre na Amazon

 

Anjos caídos, de Tracy Chevalier

O último livro da minha seleção seria Kindred de Octavia Butler, se ele não fosse entrar em todas as listas que serão publicadas neste site! Por isso, deixo aqui a dica de uma obra da autora de Menina com brinco de pérola, que trata sobre a relação de duas famílias do norte de Londres, também na virada do século XIX para o XX! A escritora fornece descrições maravilhosas sobre o Cemitério Highgate e mostra como era lugar não só de celebração dos mortos, mas de sociabilidade para os vivos. Trata também sobre a permeabilidade das camadas sociais, o que parece ser uma temática importante durante a Inglaterra Eduardiana, e escolhe como um dos assuntos principais o surgimento e fortalecimento do movimento sufragista, que, neste ano, comemorou seu centenário em um ano particularmente apropriado para discussões como a importância do voto e do sufrágio universal. + Compre na Amazon

 

***

O ano não terminou, e por aqui ainda há livros para serem concluídos. Mas vou ficar ligada neste canal para já começar a preparar a lista de 2019 que, certamente, não cumprirei, pois há sempre uma infinidade de preciosidades que cruzam nosso caminho de forma inesperada.

Imagem: Acervo pessoal/Rossana Pinheiro-Jones

Anúncio
Avatar
Rossana Pinheiro-Jones

Rossana Pinheiro-Jones é Doutora em História e Bacharel em Direito. Gosta de linhas, letras, gatos e café. Atualmente, vive em Londres com uma estante em busca de novos livros.

Não há comentários. Seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu e-mail não será publicado