Meu plano para 2019 é não fazer planos

O final de um ano e o início do próximo sempre são tensos para mim. A bad já começa por volta de meados de dezembro, por conta do meu aniversário, e se estende ao longo de janeiro, quando já é possível estabelecer uma certa rotina.

Até hoje não sei o motivo de me sentir tão mal nesta época. Talvez seja o balanço inevitável que fazemos ao final de um ciclo, talvez seja a obrigação de celebrar algo quando você não vê razões para isso, talvez seja a pressão de estabelecer novos planos e, após 365 dias, ver que boa parte deles não foi atingida e, então, ter que lidar com a sensação de fracasso.


Afinal, quem nunca prometeu que, após as festas de Natal e Ano Novo, iria fechar a boca e ir para a academia? Quem aqui não prometeu parar de fumar a partir do dia 1º de janeiro? Quem já planejou mudar de emprego, mudar de cidade, mudar de vida após a virada?

Pois eu confesso que já fiz muitos planos motivada pelo novo ano a caminho. Já prometi começar caminhadas para perder x quilos (sem nem pensar se era realmente necessário ou saudável, mas falamos sobre isso em outro momento), prometi tirar férias, prometi zerar minha lista de leituras, prometi me engajar mais em determinados projetos… É óbvio que não consegui cumprir nem metade e, diante de toda promessa quebrada, tive que lidar com um sentimento de incompetência, que só jogou mais pressão em uma mente já perturbada. Não recomendo, aliás.

Então, Bruna, você está dizendo que não é bom ter resoluções de Ano Novo? Não, não é isso. Acho que todo início de calendário traz, com ele, uma sensação de renovação que pode ser ótima para nos dar um ânimo. Mas talvez a saída não seja encher nossa cabeça com milhões de planos, às vezes, inviáveis, e que no final só nos deixarão tristes porque “não atingimos a meta” em determinado período.  Por isso, em 2019, eu não quero fazer qualquer plano do tipo. Na verdade, meu único plano é me manter viva. Sobreviver em um país onde ser mulher, feminista, professora etc. significa ser um alvo, especialmente após a eleição de um governo que já declarou que quer nos eliminar do mapa. Sobreviver contra todo esse cenário ameaçador e também contra os demônios internos, que a todo momento dizem que minha sina é falhar e desistir. Sobreviver para ajudar minhas amigas e meus amigos, que também estão com medo de si mesmos e dos outros.

Sobreviver. Possivelmente o plano mais difícil, do qual depende todos os outros.





Saraiva

Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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