O encontro marcado (Fernando Sabino): um clássico e um alento

O livro “O encontro marcado”, de Fernando Sabino, começa com uma epígrafe de Hélio Pellegrino. Numa rápida pesquisa no Google, descubro que o personagem Mauro é Hélio Pellegrino, assim como o protagonista Eduardo Marciano é o próprio Sabino. Completa a tríade dos amigos mineiros o personagem Hugo, que é Otto Lara Resende.

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Isso não passa de mera curiosidade secundária. Não tentarei traçar aqui algum paralelo entre os personagens da ficção e seus correspondentes na vida real. Por que então começar um texto assim? Por que chamar a atenção para o que é secundário?

Confesso que não sei. Era preciso começar por algum lugar e comecei por aí. Cavocando meu confuso cérebro em busca de alguma justificativa, achei uma. Talvez saber que Eduardo Marciano é o alter ego de Fernando Sabino, escritor reconhecidíssimo, faça com que o final do livro traga algum conforto ao aspirante a escritor. Pois, no fundo, o enredo de “O encontro marcado” é a senda de frustrações de um talentoso aspirante a escritor que pouco a pouco se afasta de seu caminho.

Paradoxalmente, tal afastamento não elimina o compromisso assumido desde a adolescência com a literatura. A vida exigia de Eduardo uma série de coisas, como emprego, ganhar dinheiro, cuidar da esposa. Tudo isso o afasta do seu antigo desejo de escrever um romance, um grande romance, nos moldes dos de seus ídolos literários que tanto o encantaram na adolescência. Mas o romance nunca sai. A insatisfação com a vida faz com que seu tempo seja dilapidado em horas de barzinhos, fofocas amorosas, amantes ocasionais, porres recorrentes, crises.

No entanto, mesmo a literatura sendo escanteada, ela permanece ali, empoçada dentro de seu cérebro. Ou seria dentro do seu coração, o lugar marcado pelas primeiras paixões? O fato é que tal poça literária estagnava também sua vida. Seus movimentos eram curtos, pois mesmo inconscientemente não quer afastar-se tanto da literatura. Como o romance não sai, vai preenchendo seu tempo com distrações que só o afundam numa crise profunda.

Dos seus amigos, assim diz um trecho: “E assim eram todos – escritores sem livros, poetas sem versos, pintores sem quadros, arraia miúda da arte que vicejava ao seu lado, tirando-lhe o que lhe restava de melhor – entusiasmo, idealismo, mocidade.” Ambições insatisfeitas, paixões encapsuladas. E a coragem necessária para movimentar tais paixões? Onde o ímpeto para cumprir as exigências da arte? Onde a força para deixar de ser o que se é para ser o que se quer? Em nenhum lugar. Eduardo escrevia no máximo artigos para jornais. Fez uma série sobre literatura. Como diz sua ex-esposa Antonieta, já pelo fim do livro, “ninguém lia.” Mas escrevê-los fazia com que Eduardo sentisse que ainda era um escritor, que ainda estava atado a esse velho sonho literário, ou à ilusão literária, para usar um termo de outro escritor mineiro. Um trecho do livro é revelador:

“Seus artigos. Eternamente se preparando para tornar-se escritor, eternamente começando, em pouco seria tarde, não mais teria direito de escrever asneiras, teria de começar com uma obra-prima. […] Quando iria ele, afinal, levar sua vocação a sério, começar?”

Eduardo nunca começa. Desiste. Que pesadelo maior para quem ama os livros do que doar toda a sua biblioteca para alguém? Foi o que fez Eduardo, ao dar todos os seus livros para o filho de seu amigo Misael, jovem aspirante a escritor, um novo Eduardo. Ao fazê-lo, diz, condoído: “– Não sei se estou lhe fazendo um bem ou um mal…”. Ao que Misael replica: “– Por que você fez isso? (…) Quer matar meu filho de tanto ler?” Lembrou-se de Toledo, o escritor mais velho com quem conversava na adolescência sobre seu ofício. Via-se agora frustrado como Toledo, e tendo que prevenir o jovem a não cometer o mesmo erro que eles cometeram. Que erro mesmo? Eduardo nem se lembra. Mas Toledo o expressava assim: “- Meu erro foi acreditar que a vida poderia fornecer material para a minha literatura. Viver escrevendo. Não escrevi o que devia – este foi meu erro.”

Dar toda a sua biblioteca era o ato final de Eduardo para tentar se livrar de vez dessa tortura literária que lhe estragou toda a vida. Era sua derradeira tentativa de abandonar o papel do escritor e encontrar algum outro, mais adequado e consolador. Numa brincadeira adolescente entre ele, Hugo e Mauro, em que cada um devia falar o que pensava do outro, Hugo foi certeiro:

– E você Eduardo. Você, o puro, o intocado, o que se preserva, como disse Mauro. Seu horror ao compromisso porque você se julga um comprometido, tem uma missão a cumprir, é um escritor.

Esse é, afinal, o drama de Eduardo. Já é um comprometido e não consegue se comprometer com mais nada. Só que também não consegue cumprir seu compromisso. Agita-se inutilmente numa areia movediça da qual não consegue sair. Mas não é esse o drama de todo escritor? Querer escrever e não conseguir? Querer viver escrevendo e não conseguir viver? Por que se dedicar a algo cujas promessas de remuneração, status e reconhecimento são tão baixas? Não seria melhor fazer qualquer outra coisa?

Mas a mente não opera sempre com tal razoabilidade. As paixões impregnam-se no corpo e são difíceis de tirar. Temos ambições que só o correr da vida nos mostra serem inalcançáveis. Será que são mesmo? Será que ali, na prorrogação da partida, não resta uma esperança de realização? Quem sabe com mais paciência, quem sabe com mais insistência, quem sabe com mais fé? Ilusão, ilusão.

Eduardo não se fez escritor. Mas ele é Sabino, que se fez um belo escritor. Fiquemos com esse alento. Mas é inegável que ler “O encontro marcado” é uma boa forma para que qualquer escritor perceba e, quem sabe, se previna, das marcas e dores fundas que o compromisso literário, essa ambição alucinante, causa em uma vida. Um livro clássico que, não à toa, alcançou sua centésima edição no ano passado.

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Cahoni Chufalo

Cahoni Chufalo, formado em Letras, com pós-graduação em crítica e curadoria de arte. Fez a curadoria das exposições Memória Imprensa, em Ouro Preto e Figuras Recorrentes, em Novo Hamburgo. Mantêm o blog fiaposblog.wordpress.com

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