Arte em Sorocaba: entrevista com Camila Fontenele

Dando continuidade ao nosso projeto de conhecer e divulgar, cada vez mais, as produções artísticas da nossa cidade e região, hoje trazemos uma entrevista linda com a fotógrafa e artista visual Camila Fontenele!

Livro & Café: Nos fale um pouco sobre você, suas influências artísticas etc.
Camila Fontenele: Sou a Camila Fontenele, 28 anos, nasci em São Paulo, radicada em Sorocaba desde 1998. Comecei a me interessar por fotografia em 2008, mas só me assumi nesse caminho em 2012, com a minha saída da área de publicidade e propaganda e com o inicio do projeto Todos Podem Ser Frida. Sendo assim, costumo dizer que a minha jornada oficial tem sete anos, pois foi nesse momento que pude me sentir inteira dentro da fotografia e das artes visuais. Minhas influências sempre foram de diversas linguagens e gosto daquilo que me conecta, que expressa subjetividades, ancestralidade, coisa que a gente se sente próximo mesmo no primeiro encontro, sabe? Destaco alguns artistas que fizeram (e ainda fazem parte da minha jornada): Patti Smith, Frida Kahlo, Antanas Sutkus, Helena de Almeida, Andrei Tarkovski, Miranda July, Duane Michals, Ana Tereza Barboza, Rosana Paulino, Rene Magritte, Nona Faustine, Hilda Hilst, dentre outros. Atualmente, sou membro e estou represento a YVY Mulheres da Imagem, em Sorocaba, faço parte da coordenação artística da Mofo Galeria [veja a nossa entrevista com o idealizador da galeria], juntamente com as artistas Flavia Aguilera e Alessandra Rodrigues. Tenho obras no acervo do Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba (MACS) e na Roberg Galeria. Já realizei exposições, entre individuais e coletivas, no Brasil, Inglaterra, México, Espanha e Alemanha.

Livro & Café: Enquanto artista visual e fotógrafa, como você entende o papel social e político do(a) artista em nossa sociedade? 
Camila Fontenele: Acredito que todas as coisas que fazemos no mundo tem seu viés politico e social, desde o plano micro até o macro. Sendo assim, entendo que o meu papel começa na consciência do lugar que ocupo dentro da sociedade, tendo consideração com as questões de gênero, socioeconômicas, de raça etc. Atualmente, além de produzir e expressar pesquisas que dialogam sobre o corpo feminino, relações humanas e autoconhecimento, também estou atenta ao que posso contribuir por outro viés que não seja a feitura de uma obra visual, como é o caso da YVY Mulheres da Imagem, uma iniciativa que reúne e busca fortalecer, defender e difundir, mulheres de todo o Brasil ligadas ao universo da imagem. A YVY começou com a fotojornalista carioca Marizilda Cruppe e, hoje, tem sua representação em Sorocaba também; nos encontramos mensalmente para reuniões e trocas presenciais, temos uma rede de apoio e a intenção é expandir ainda mais na cidade neste ano de 2019.

Livro & Café: No ano passado, a mostra do seu projeto “Todos podem ser Frida” no FLIV 2018 foi cancelada em Votuporanga, interior de SP, em uma clara demonstração de censura. Após o repúdio de diversos grupos e veículos de comunicação, a exposição foi realizada na cidade, em outro espaço e data. Qual foi o impacto deste acontecimento na sua vida e como você o relaciona ao momento político atual que vivemos?
Camila Fontenele: Foi estranho! Eu não estava no Brasil para acompanhar de perto e precisava esperar o parecer do Museu da Diversidade Sexual para compreender a situação e me manifestar. A própria prefeitura da cidade não escondeu que a censura partia de lideres religiosos, vereadores e famílias, na internet é possível encontrar um “quebra pau” na Câmara devido à exposição, e acredito que houve um julgamento conservador antes mesmo da população se deparar com a exposição e tirar as próprias impressões. Em seis anos de projeto, foi a primeira vez que isso aconteceu. Se tratando de um país que pouco entende sobre a importância da cultura (cadê o Ministério da Cultura?), que pouco se entende pelo viés não colonizado, dentre outras coisas das quais passaríamos horas e horas pontuando, essa maré de censura não surpreende, já está no script deles. Ontem mesmo, o governo do estado do Rio de Janeiro cancelou uma exposição na Casa França, onde ocorreria uma performance com crítica à tortura (incluiria nudez), e eles fazem isso, né? Censuram um dia antes, dão uma resposta superficial.

 

Projeto Todos Podem Ser Frida. Foto: Camila Fontenele/Divulgação.

Livro & Café: Como é fazer arte em Sorocaba? 
Camila Fontenele: Atualmente tem sido surpreendente, pois existe um movimento interessante nas artes visuais. É como se essa linguagem artística estivesse entrando em sincronia, uma máquina de desejos, sabe? Onde todas as pessoas, locais e movimentos afins se encontram para somar. Por isso, acredito que a partir desse ponto do coletivo conseguiremos transformar e modificar questões incômodas em cima do que é fazer artes visuais em Sorocaba. A priori, fazer/viver artes no Brasil. Não é fácil!

Livro & Café: Qual filosofia pessoal você carrega ao fazer arte?
Camila Fontenele: Parto do principio que a maneira pela qual eu me expresso vem da vontade de atravessar, permitir que o outro me penetre e que eu possa fazer o mesmo. A conexão absurdamente me atrai, é daí que vem o meu desejo de criar e manifestar.

Girls with Curves, 2017. Foto: Camila Fontenele.

Livro & Café: Qual obra artística, de sua autoria ou não, impactou a sua vida e por quê?
Camila Fontenele: Ao tentar escolher uma só para responder essa pergunta (eu poderia fazer uma enorme lista sobre impactos e atravessamentos), me lembrei do dia em que fui na exposição do fotógrafo lituano Antanas Sutkus, na Caixa Cultural de São Paulo, em 2013. A obra de Sutkus me desarmou e me deixou horas e horas atravessando (e sendo atravessada) pelos mesmos corredores, entrava e saía gente, eu continuava com os olhos vidrados. Na época da exposição, eu era uma viajante-estudante e andava pra lá e pra cá com uma mochila pesada, fazia um ano que tinha saído do trabalho formal e partido para a fotografia como meio de expressão e sustento. Me deparar com Antanas Sutkus foi como trocar saberes de forma silenciosa e muito íntima, e acredito que a imagem tem esse poder sobre a gente, principalmente quando estamos atentos aos sinais do universo. As fotografias que me levaram ao estado liquido foram: “Pioneiro cego. Kaunas, 1962” e “Último verão. Zarasai, 1968“.

“Pioneiro cego”, de Antanas Sutkus (1962).

Livro & Café: Quais dicas você daria para quem quer consumir mais arte ou para quem quer impulsionar seu trabalho criativo?
Camila Fontenele: Na cidade temos artistas visuais de tamanha qualidade, estamos sempre aprimorando nossa pesquisa e formação, e nesse ponto da formação destaco o Sesc Sorocaba como um grande aliado dos artistas e do público. Locais, como Roberg Galeria, a Mofo Galeria, Fernanda Monteiro Galeria, Matiz Ateliê Visual e o Museu de Arte Contemporânea (MACS), além de exposições, permitem a aquisição das obras. Também temos a Curva – Feira de Artes e impressos, a Feira do Beco e a Feira de Artes do Festival Febre, que ocorre anualmente. Para aqueles que querem impulsionar o seu trabalho criativo, eu diria que – quem quer viver faz mágica! Digo isso pelo viés do arquétipo do equilibrista, normalmente temos que fluir entre a administração/organização e a pesquisa/prática criativa, principalmente pra quem é artista independente. Entender o próprio processo é muito importante para impulsionar e comunicar ao mundo o que queremos, acredito muito que existe a possibilidade de se organizar, traçar metas e caminhar pelo mundo subjetivo sem abrir mão de nenhum desses aspectos, e isso também significa se deparar com falhas e acertos. A expansão parece assustadora em alguns momentos, mas temos que ter consciência que é de extrema importância se conectar com pessoas, grupos e lugares, pois afinal ninguém faz nada sozinho. Sintonize ao seu propósito. Para todos, visitem ateliês, galerias e os museus da cidade e região, com frequência. Comprem de artistas locais, divulguem e compartilhem!

Para conhecer mais, acesse o site da Camila Fontenele.

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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