Arte em Sorocaba: entrevista com Mariana Mendes

Em fevereiro, a Revista Digital Livro & Café se dedica à um tema delicado, mas essencial: a linguagem. Para conversar um pouco sobre o poder das palavras e outros assuntos igualmente importantes, convidamos a escritora mineira de nascença, mas sorocabana de criação e coração, Mari Mendes.

 

Livro & Café: Nos fale um pouco sobre você.
Mari Mendes: Primeiro gostaria de agradecer ao convite da Bruna Bengozi, é um honra poder contribuir. Meu nome é Mari Mendes, sou mineira, nascida em Itaúna, mas moro em Sorocaba desde pequena. Atualmente sou redatora, já escrevi sobre maternidade, gestação, cultura da tatuagem e hoje me dedico ao delicado tema “desenvolvimento pessoal”. Uso esse termo entre aspas porque ele dá a impressão de que sozinhos conseguimos nos tornar pessoas melhores, quando, na verdade, percebo por meio de leituras e pesquisas que a resposta para o desenvolvimento é muito mais coletiva e relacionada à conexão entre as pessoas do que individual e isolada em cada um. Sou estudante de jornalismo e escritora. Esse ano lançarei meu primeiro livro de contos pela Editora Patuá e estou trabalhando num livro-reportagem sobre a experiência das pessoas com hidradenite supurativa, uma doença de pele, crônica e debilitante.

Livro & Café: Como você vê a atuação do(a) jornalista no Brasil atual, em que a liberdade de imprensa vem sendo ameaçada tantas vezes?
Mari Mendes: Nesse cenário de autoritarismo cada vez mais explícito, ser jornalista é um risco. Vivemos um momento de cerceamento do Estado que pretende diminuir o acesso à informações sobre o que o governo faz. Presenciamos as manobras do presidente eleito, que usa táticas de desinformação para distrair a opinião pública e a imprensa. Sem contar assédio, ameaças e perseguições nas redes sociais vividas por jornalistas. E a tendência, infelizmente, não é de melhora. Acredito que existe uma crise de credibilidade que setores da grande mídia vêm passando e ela pode ser uma oportunidade para que outras formas de trabalho jornalístico possam se fortalecer, como o jornalismo independente, a imprensa comunitária e outros. Ao mesmo tempo, existe uma movimentação de outros conglomerados da mídia que já estão se alinhando ao discurso e aos interesses do governo e isso é preocupante. Por isso, fortalecer a mídia alternativa não será fácil, ainda mais se pensarmos na herança violenta que os setores militares acabam trazendo de volta, já que agora eles estão no poder novamente. Nunca foi simples ser jornalista, mas, hoje, mais do que nunca, é preciso ter responsabilidade social e política em nosso trabalho, apesar do risco.

Livro & Café: Aliás, o que você pensa sobre as fake news e o que nós podemos fazer para combatê-las
Mari Mendes: O debate sobre as fake news tem girado, majoritariamente, em torno das agências de checagem. E isso é complicado. Em minha perspectiva, existe um aparato muito bem estruturado e financiado com o objetivo de disseminar notícias falsas. Mas não só. Esse mesmo aparato também divulga uma ideologia de cunho fascista que alimenta pensamentos do senso comum e inflam um autoritarismo latente na sociedade. Além disso, essa estrutura também contribui para a crise de credibilidade de parte da mídia tradicional. O problema das agências de checagem é que elas continuam a lógica de centralização do poder e da informação, conferindo autoridade a uma agência que possui em seus bastidores os mesmos interesses econômicos e políticos da grande mídia. Como acreditar totalmente nesse trabalho de checagem? Como garantir que esse trabalho não continua reproduzindo uma lógica de favorecimento desses grandes grupos econômicos? A questão da credibilidade continua emperrando o processo. E tem mais: as agências de checagem não fazem frente, pelo menos não diretamente, à propaganda ideológica dos disseminadores das fake news. Acredito que não se trata apenas de desmentir as informações distorcidas ou inventadas, embora seja importante fazer isso. É preciso seguir um caminho da democratização, de fortalecimento da mídia alternativa e comunitária, especialmente em um possível futuro em que justamente esse tipo de mídia será perseguida e censurada. Porque essa mídia não tem rabo preso com interesses estranhos ao povo, ela poderá minar ideologicamente a torrente de informações falsas e a apologia ao fascismo.

Livro & Café: Seu livro de contos, Potências do Encontro, será publicado em breve e um deles, “O escorpião-amarelo”, já saiu como zine. Como foi o processo de se lançar como escritora?
Mari Mendes: Não foi fácil. Antes de me lançar no mundo, precisei me aceitar como escritora. Precisei entender mais sobre quem sou e qual é o papel que vou desempenhar no mundo. Acho que existe muita gente que escreve, e faz isso muito bem, muito melhor do que eu, mas não se acha bom o suficiente. Talvez porque a figura do escritor seja romantizada, talvez porque escrever pareça ser coisa de homem branco de 40 anos, heterossexual, com pós-graduação e de classe média alta. Por isso, aceitar-me como escritora passou por compreender que ser uma mulher trabalhadora que escreve e que isso é diferente, porque as questões de gênero e classe acabam atravessando quem eu sou, minha história de vida e, consequentemente, o que escrevo. Confesso que ainda não me sinto totalmente confortável neste lugar. Às vezes, parece que ele não me pertence, às vezes parece que não sou boa o suficiente e que deveria deixar isso pra lá. O apoio das pessoas próximas a mim e os projetos que incentivam a leitura e a escrita de mulheres, como o Leia Mulheres e o Mulheres que Escrevem são essenciais,  eles me permitem acreditar que o que escrevo é importante, que na sociedade que a gente vive esse lugar que ocupo ainda é incômodo, mas ocupá-lo faz parte de um processo maior, histórico. E aí conhecer as escritoras que vieram antes de mim é revelador e se transforma numa fonte de força. Sigo, apesar de tudo, fazendo o melhor que posso nas condições que tenho.

Zine “O escorpião-amarelo” lançado em 2018, com revisão de Bruna Bengozi e capa de Alex Trimurti.

 

Livro & Café: Você está escrevendo um livro-reportagem sobre a hidradenite supurativa, uma doença de pele rara e sem cura. Nos conte um pouco sobre como você concebeu este projeto e quais os desafios que vem enfrentando.
Mari Mendes: Às vezes, grandes janelas de oportunidade surgem diante da gente. Quando não as deixamos passar, arejam a mente e oferecem momentos de crescimento. Esse livro é uma janela que fiz questão de agarrar. Na época eu trabalhava no site Tudo Ela e uma das leitoras entrou em contato com a gente para falar sobre um artigo publicado sobre a hidradenite. Era a Alba Franco. Naquela época eu tinha acabado de ler Vozes de Tchernóbil para o encontro do Leia Mulheres Sorocaba e estava profundamente impactada. Comecei a procurar formas de mostrar a experiência das pessoas no que eu escrevia. Quando Alba veio falar comigo, entendi que a comunidade de pessoas com HS precisavam de um espaço de escuta e divulgação de um sofrimento apagado, negligenciado e deslegitimado na sociedade. A janela se abriu: escrever sobre a experiência dessas pessoas. Mas eu não tinha dinheiro para viajar e fazer entrevistas. A Camila Fontenele, maravilhosa, me incentivou a fazer a campanha de financiamento coletivo e consegui o dinheiro para viajar. Pedro Mendes, dono da empresa na qual trabalho, não apenas me concedeu dias de folga como também contribuiu para a campanha. Entre entrevistas pessoalmente e à distância, ouvi oito pessoas. E agora trabalho na transcrição e escrita do livro. No início, a ideia era fazer tudo rápido. Comecei o projeto em junho e pretendia finalizá-lo em outubro. Doce ilusão. Aconteceram muitas coisas nesse meio tempo e muito aprendizado também. Um deles é sobre paciência. Outro é sobre planejamento. Outro, ainda, é sobre respeitar meus limites. Acabei tendo que aceitar que o projeto se estenderia muito mais. São histórias fortes, complexas, é uma doença pouco conhecida e estudada. Hoje percebo que me identifico muito com a deslegitimação do sofrimento, por vários motivos, e fazer esse trabalho tem mexido comigo e isso torna o processo mais lento. Acho que mais pessoas podem se identificar com essas experiências, tanto as que vivem com hidradenite, quanto seus familiares, amigos, médicos e qualquer um que já tenha sofrido com o silenciamento de sua dor.

Livro & Café: Você também escreve sobre gestação e maternidade. E a literatura tem vários títulos que tratam do assunto, como Alegrias da Maternidade, da Buchi Emecheta, e Contra os Filhos, da Lina Meruane. Como mãe e escritora, qual a sua opinião sobre a abordagem dada pelas mídias e pela cultura em geral à maternidade? Você enxerga alguma transformação no modo como vemos as mães e as mulheres que não querem ter filhos?
Mari Mendes: Tem uma frase sobre maternidade que muita gente não gosta: ser mãe é padecer no paraíso. Acho que ela pode nos trazer uma reflexão interessante sobre a maternidade. Ser mãe é mergulhar em contradições da sociedade. A mãe é uma figura sagrada, no sentido de ser inviolável, respeitável e purificadora. Ser mãe é fazer o bem, é optar pelo que é certo e bom ao seu filho, independente de qualquer coisa. Essa cobrança, sobretudo por ser individual, é muito pesada. Se pensarmos que o trabalho da mãe envolve educar, cuidar e tornar aquela pessoa um cidadão apto para viver em sociedade no futuro, podemos perceber o quanto é injusto imputar uma tarefa social a um indivíduo, uma mulher, no caso. O papel das mães, em sua esmagadora maioria, é de produtoras de trabalhadores, que servirão para a manutenção e produção de riqueza para uma elite econômica. Nesse sentido, o exercício da maternidade é trabalho não pago e, portanto, servil. Por isso, existe uma maternidade compulsória, que pressiona todas as mulheres a cumprirem com essa demanda. Seria anacronismo dizer que ainda vemos as mulheres da mesma forma como elas eram vistas no século XIX, mas seria igualmente incoerente dizer que não existe mais pressão social e política sobre as decisões das mulheres sobre seus corpos e sobre exercer ou não a maternidade. Essa pressão é real e contemporânea e faz parte dessa lógica de servidão. Recusar-se a exercer a maternidade, a meu ver, é um ato político de recusa a este papel. No meu caso, sou mãe e, ao receber esse papel, passei a viver todas as contradições desse lugar na sociedade. Como mulher, tenho feito o máximo para que a responsabilidade da criação de meu filho seja algo que não diz respeito apenas a mim, mas também ao pai, de forma equilibrada. Uma coisa trabalhosa que exige um esforço constante para organizar a rotina e pensar em soluções. E, mesmo assim, há momentos em que me sinto sobrecarregada. Tenho que lidar com feridas abertas em mim todos os dias por essa condição de mãe. A solidão, a falta de tempo para relaxar, a dificuldade de encontrar lugares adequados para sair com crianças, os julgamentos e expectativas que se projetam sobre o cuidado diário que tenho com a vida de meu filho. Ser mãe envolve todas essas questões, ainda mais se considerarmos o amor materno como algo que não está dado, mas que se constrói com o tempo. Essa ideia de que quando o bebê nasce, vem ao mundo junto com ele um amor inquestionável e absoluto é um mito. O amor é construção, todas as formas de amor o são. E construção leva tempo, dá trabalho e exige maturidade. Você precisa se doar o tempo todo. Gosto muito de As alegrias da maternidade porque é um livro que deixa explícito esse eterno doar a que as mães são submetidas. O título é irônico e a história, angustiante, pois mostra a responsabilidade enorme que é colocada injustamente nas costas das mães. E tudo isso num contexto de colonização violenta de um país africano onde as relações são permeadas pelo machismo. Sou favorável a uma percepção coletiva do cuidado das crianças. Não digo que o Estado deve educar meu filho por mim, nada disso. Estou querendo dizer que a criação do meu filho, a educação do filho da minha vizinha, os princípios passados para o filho da minha colega de trabalho não são um problema restrito às mães. É um problema nosso e que precisa ser entendido como nosso. Isso significa não ignorar crianças em locais públicos, isso quer dizer que os lugares devem ser adaptados para crianças, isso dá a todas as pessoas a responsabilidade de atenção e cuidado às crianças. Significa ter o dever de entender como elas se desenvolvem e como lidar com elas, não com o objetivo de poupar ou aliviar a carga de uma ou outra mãe, mas com um sentido de responsabilidade coletiva, de retorno a uma ideia de comunidade, sabe? Ainda tenho muito o que estudar sobre esse tema, inclusive não conhecia Lina Meruane. E também muito o que viver, já que meu filho ainda tem dois anos. Mas isso é o que penso hoje.

Mari Mendes em apresentação no Sesc Sorocaba.

 

Livro & Café: Para você, qual é o poder – ou poderes – da palavra?
Mari Mendes: A palavra concentra poder. O que dizemos cria um discurso e o discurso atravessa a realidade, transforma a realidade. O discurso dominante dita como a sociedade funciona. As palavras que conhecemos e usamos são as peças com as quais construímos nosso pensamento. Dar nome às coisas, conceder e conceber palavras, nos ajuda a compreender a realidade, a lidar com ela e agir sobre ela. É impalpável e concreto. Então, tomar para si a palavra é tomar para si poder. Especialmente hoje, na Era da Informação, a palavra é arma, escudo, bálsamo e cura. Para mim a palavra tem sido uma forma de ocupar um lugar do mundo, uma forma de luta, de autoconhecimento e de refúgio.

Livro & Café: O que te motiva a escrever?
Mari Mendes: Escrevo porque me quero. Por amor e aceitação. Escrevo para ser eu, porque escrever faz parte de mim. Minha escrita não é perfeita, nem sublime, apenas é, apenas sou.

Livro & Café: Quais são os seus projetos futuros?
Mari Mendes: Para 2019 recebi a tarefa de começar um site novo, o Em Beta, onde escreverei sobre esse tal desenvolvimento pessoal. Continuarei o trabalho com o livro-reportagem sobre a experiência das pessoas com hidradenite. Também participarei do Clube de Escrita Sorocaba, organizado pela Fabiana Ferraz. Continuarei frequentando o Leia Mulheres Sorocaba, uma das melhores coisas que me aconteceram no ano passado. E também pretendo lançar o meu livro de contos, Potências do Encontro, pela Editora Patuá, como já mencionei. Tenho gestado algumas ideias para escritos futuros, mas nada suficientemente maduro para compartilhar. A única certeza é que continuarei escrevendo e isso é reconfortante.

Quer conhecer mais? Acesse o site da Mari Mendes.

Foto de capa: Camila Fontenele

Anúncio
Avatar
Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

6 Comentários
  1. As Malvinas acabaram de sair. Podemos trocar, o que acha? ?. Tem de varias cores. Acho que tenho seu e-mail, continuamos por lá essa troca boa?! ?

  2. Que saudades de você, Vivi! Agradeço muito muito. Tenho como imprimir a zine se você quiser. E quero uma Malvina! Como faz?

  3. Bruna, adorei a entrevista. Pelo pouco que conheci da Mari me pareceu muito ela, modesta, honesta e sonhadora. O legal foi que a Mari não parou, mesmo cheia de coisas pra fazer, mesmo às vezes não acreditando, mesmo se achando sem lugar. E Tudo isso, segundo ela, está em sua escrita. Essa pungência na literatura me fascina. Mari, parabéns pela entrevista e pelo livro que será lançado, vou comprar! ! #leiamulheres hehe 🙂 Ah, ainda tem o zine?

    1. Oi Vivianne, tudo bem? Que legal que você gostou! Me sinto muito grata por conhecer e partilhar uma parte da caminhada com a Mari! Ela só nos enche de inspiração, não é mesmo? Beijos!

Deixe um comentário

O seu e-mail não será publicado