23 romances políticos sobre o Brasil

A literatura é uma forma de registrar, ver e entender o mundo, a vida e as pessoas. Portanto, a literatura é política. Apesar de alguns ataques que já sofremos por conta de nosso posicionamento político, acreditamos que não haveria sentido algum falar e escrever sobre literatura sem adentrar em um dos assuntos mais polêmicos da humanidade. E, sim, acreditamos que o fato de tanta gente achar que esses temas não se misturam é parte de um ideal de poder e que devemos quebrá-lo. Portanto, aqui nós falamos de política sim. E, pensando nisso, fizemos uma pequena seleção de romances políticos sobre o Brasil (alguns são mais fáceis de perceber o tema político, outros, no entanto, precisam de um olhar cuidadoso nas entrelinhas). Confira:

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1. O Quinze (Raquel de Queiroz)

Lançado originalmente em 1930, O Quinze foi o primeiro e mais popular romance de Rachel de Queiroz. Ao narrar as histórias de Conceição, Vicente e a saga do vaqueiro Chico Bento e sua família, Rachel expõe de maneira única e original o drama causado pela história da seca de 1915, que assolou o Nordeste brasileiro, sem perder de vista os dilemas humanos universais, que fazem desse livro um clássico de nossa literatura. + Amazon

2. Memórias do Carcere (Graciliano Ramos)

Memórias do cárcere é o testemunho de Graciliano Ramos sobre a prisão a que foi submetido durante o Estado Novo. Uma narrativa de alguém que foi torturado, viveu em porões imundos e sofreu privações provocadas por um regime ditatorial. No livro, Graciliano descreve a companhia dos mais variados tipos encontrados entre os presos políticos. Durante a prisão, diversas vezes Graciliano afirma destruir as anotações que poderiam lhe ajudar a compor uma obra mais ampla. + Amazon

3. Capitães da Areia (Jorge Amado)

Desde o seu lançamento, em 1937, Capitães da Areia causou escândalo: inúmeros exemplares do livro foram queimados em praça pública, por determinação do Estado Novo. Ao longo de sete décadas a narrativa não perdeu viço nem atualidade, pelo contrário: a vida urbana dos meninos pobres e infratores ganhou contornos trágicos e urgentes. + Amazon

4. Incidente em antares (Érico Veríssimo)

Em Incidente em Antares, Erico Verissimo faz uma sátira política contundente e hilariante que, mesmo lançada em 1971, em plena ditadura militar, não teve receio de abordar temas como tortura, corrupção e mandonismo. “Desta vez abri a veia da sátira e deixei seu sangue escorrer livre e abundantemente.” – Erico Verissimo + Amazon

5. Menino de Engenho (José Lins do Rego)

O romance de estreia de José Lins do Rego apresenta fortes traços autobiográficos. A obra relata a vida no Engenho Santa Rosa, com suas desigualdades e a permanência de traços da escravidão. Com uns quatro anos de idade, Carlinhos vê sua mãe estendida no chão, e “o pai caído em cima dela como um louco”. Órfão de mãe e separado do pai, que será internado num hospício, o menino é conduzido ao engenho do avô. + Amazon

6. Agosto (Rubens Fonseca)

1º de agosto de 1954, Rio de Janeiro, capital da República. Um empresário é assassinado e outro crime é planejado na sede do governo federal. O atentado frustrado contra o jornalista Carlos Lacerda, opositor de Getúlio Vargas, causará uma das maiores reviravoltas da história do Brasil. Um dos maiores sucessos de crítica de Rubem Fonseca, Agosto nos questiona: em que medida a história de uma pessoa e a história de um país se determinam, se diferenciam e se assemelham? Ao misturar com maestria história e ficção, o autor encontra a resposta: a boa literatura. + Amazon

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7. Parque industrial (Pagu)

Escrito em 1932, quando Pagu tinha apenas vinte e um anos, e publicado com o pseudônimo de Mara Lobo (por exigência do Partido Comunista), esta pequena obra-prima de estética modernista e militância revolucionária lançou as bases do sempre crescente mito de Patricia Galvão, a Pagu. Ao mesmo tempo datado e universal, Parque Industrial é leitura deliciosa, e obrigatória para quem conhecer Pagu e o ambiente cultural e político do Brasil nas primeiras décadas do século XX. + Amazon

8. Feliz ano velho (Marcelo Rubens Paiva)

Feliz ano velho é o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva. Aos vinte anos, ele sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo. Escrito com sentido de urgência, o livro relata as mudanças irreversíveis na vida do garoto a partir do acidente. Ele é transferido de um hospital a outro, enfrenta médicos reticentes, luta para conquistar pequenas reações do corpo. Aos poucos, se dá conta de sua nova realidade, irreversível. E entende que é preciso lutar. O texto expressa a irreverência e a determinação da juventude, mesmo na adversidade, e a compreensão precoce “de que o futuro é uma quantidade infinita de incertezas”. + Amazon

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9. Úrsula (Maria Firmina dos Reis)

Combinando esse enredo ultrarromântico com uma abordagem crítica à escravidão, Maria Firmina dos Reis compõe Úrsula, um dos primeiros romances brasileiros de autoria feminina, em 1859. Por dar voz e agência a personagens escravizados, é vista como a obra inaugural da literatura afro-brasileira. Retrata homens autoritários e cruéis, mostrando atos inimagináveis de mando patriarcal e senhorial em um sistema que não lhes impõe limites. + Amazon

10. Vidas Secas (Graciliano Ramos)

Vidas secas, lançado originalmente em 1938, é o romance em que mestre Graciliano ― tão meticuloso que chegava a comparecer à gráfica no momento em que o livro entrava no prelo, para checar se a revisão não haveria interferido em seu texto ― alcança o máximo da expressão que vinha buscando em sua prosa. O que impulsiona os personagens é a seca, áspera e cruel, e paradoxalmente a ligação telúrica, afetiva, que expõe naqueles seres em retirada, à procura de meios de sobrevivência e um futuro. + Amazon

11. As Três Marias (Raquel de Queiroz)

Em seu quarto romance, As três Marias, a escritora cearense Rachel de Queiroz foi ainda mais fundo em um tema que já estava presente em todas as suas obras anteriores: o papel da mulher na sociedade. A história tem início nos pátios e salas de aula de um colégio interno dirigido por freiras: Maria Augusta, Maria da Glória e Maria José são amigas inseparáveis que ganham de seus colegas e professores o apelido de “as três Marias”. + Amazon

12. Caetés (Graciliano Ramos)

Primeiro romance de Graciliano Ramos, Caetés foi publicado inicialmente em 1933. João Valério, o personagem principal, introvertido e fantasioso, apaixona-se por Luisa, mulher de Adrião, dono da firma comercial, onde trabalha. O caso amoroso é denunciado por uma carta anônima, levando o marido traído ao suicídio. Arrependido, João Valério afasta-se de Luisa, continuando, porém, como sócio da firma. + Amazon

13. Tropical sol da liberdade (Ana Maria Machado)

Sinopse: ‘Tropical sol da liberdade’ tem como protagonista Maria Helena, Lena, uma escritora que vive uma crise e se recupera ao lado da mãe, em uma casa de praia. Construída entre passado e presente, memória e consequências, a narrativa leva o leitor ao período da Ditadura brasileira, enquanto Lena traz à tona as traumáticas vivências desses anos em uma tentativa de cura, para retomar sua caminhada ao futuro. Amazon

14. K – Relatos de uma busca (Bernardo Kucinski)

Em 1974, a irmã de Bernardo Kucinski, professora de Química na Universidade de São Paulo, é presa pelos militares ao lado do marido e desaparece sem deixar rastros. O pai dela, dono de uma loja no Bom Retiro e judeu imigrante que na juventude fora preso por suas atividades políticas, inicia então uma busca incansável pela filha e depara com a muralha de silêncio em torno do desaparecimento dos presos políticos. K. narra a história dessa busca. + Amazon

15. Não falei (Beatriz Bracher)

Um professor, militante da educação, que tinha 24 anos em 1964. Quarenta anos depois, à beira da aposentadoria e prestes a mudar de cidade, ele se vê às voltas com a visita de um irmão, o convite para uma entrevista e a necessidade de organizar seus papéis na casa que já foi vendida. Com uma prosa ímpar, espécie de “invenção reflexiva” que combina devaneio e esforço de investigação, Beatriz Bracher criou uma narrativa arriscada, necessária e incomum no panorama da nossa ficção contemporânea. + Amazon

16. Ainda estou aqui (Marcelo Rubens Paiva)

Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento negro da história recente brasileira para contar – e tentar entender – o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971. + Amazon

17. Cinzas do Norte (Milton Hatoum)

A fim de realizar suas inclinações artísticas, ou quem sabe para investigar suas angústias mais profundas, um jovem engalfinha-se numa luta contra o pai, a província, a moral dominante e, para culminar, os militares que tomam o poder em 1964 e dão início à vertiginosa destruição de Manaus. Nessa luta que se transforma em fuga rebelde, o rapaz amplia o universo romanesco, que alcança a Berlim e a Londres irrequietas da década de 1970, de onde manda sinais de vida para o amigo Lavo, agora advogado, mas ainda preso à cidade natal. + Amazon

18. Desmundo (Ana Miranda)

Leia a resenha aqui.

Este belo romance de Ana Miranda é o relato de uma jovem que atravessou não apenas o oceano Atlântico, mas a linha imaginária que separa a realidade e o sonho, a liberdade e a escravidão, o amor e o ódio, a virtude e o pecado, o corpo e o espírito. Numa noite do ano de 1555 chega ao Brasil uma caravela trazendo uma leva de órfãs mandadas pela rainha de Portugal para se casarem com os cristãos que aqui habitavam. + Amazon

19. A Hora da Estrela (Clarice Lispector)

Confira a resenha aqui.

Entre a realidade e o delírio buscando o social enquanto sua alma a engolfava Clarice escreveu um livro singular. “A Hora da Estrela” é um romance sobre o desamparo a que apesar da linguagem todos estamos entregues. + Amazon

Edição 2019 – Companhia das Letras. Essa nova edição conta com novo estabelecimento de texto, cronologia ilustrada, indicações de leituras e textos sobre o romance.

20. Grande Sertão Veredas (Guimarães Rosa)

Nesta obra de Guimarães Rosa, o sertão é visto e vivido de uma maneira subjetiva e profunda, e não apenas como uma paisagem a ser descrita, ou como uma série de costumes que parecem pitorescos. Sua visão resulta de um processo de integração total entre o autor e a temática, e dessa integração a linguagem é o reflexo principal. Para contar o sertão, Guimarães Rosa utiliza-se do idioma do próprio sertão, falado por Riobaldo em sua extensa e perturbadora narrativa. + Amazon

21. As meninas (Lygia Fagundes Telles)

Obra de grande coragem na época de seu lançamento (1973), por descrever uma sessão de tortura numa época em que o assunto era rigorosamente proibido, As meninas acabou por se tornar, ao longo do tempo, um dos livros mais aplaudidos pela crítica e também um dos mais populares entre os leitores da autora. + Amazon

22. Zero (Ignácio Loyola Brandão)

No momento em que este livro que assombrou o Brasil durante a ditadura e continua fascinando as novas gerações pela ousadia e pelas inovações completa 35 anos, trazemos a palavra de Armindo Blanco, jornalista e crítico de cinema, que combateu Salazar, teve de se exilar e aqui morreu: “Espantoso romance. Às vezes, dá a impressão de uma reportagem crua, despojada. Outras, de um filme correndo à velocidade de um milhão de imagens por segundo. Ignácio de Loyola Brandão supera o âmbito do individual para nos dar o retrato de corpo inteiro de uma cidade. De um parque industrial. De um caldeirão fervente de raças. De um país. De um continente. + Amazon

23. Seu amigo esteve aqui (Cristina Maria Bicalho Chacel)

Em 15 de fevereiro de 1971, Carlos Alberto Soares de Freitas, conhecido como Beto pelos amigos e Breno pelos companheiros de militância política, foi preso no Rio de Janeiro, e nunca mais foi visto. Ele era um dirigente da organização clandestina de esquerda VAR-Palmares. Pela força de sua liderança, Beto era capaz de atrair para a resistência política inúmeros jovens – entre eles a então secundarista de dezesseis anos Dilma Rousseff, uma das personagens dessa trama. Uma década após seu desaparecimento, descobriu-se que ele foi assassinado em uma casa em Petrópolis, onde presos políticos eram mantidos em cárcere privado, sendo torturados e quase sempre mortos. + Amazon

Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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