Sempre tentei, como um propósito de entendimento humano e político, compreender como uma população reage após alguns anos ouvindo certos discursos e como isso se reflete nas relações sociais. Li recentemente O Holocausto – uma nova história, de Laurence Ress, autor que, logo no primeiro capítulo do livro, intitulado “As Origens do Ódio”, mostra quais foram os argumentos que levaram milhares de alemães a justificar o extermínio bárbaro, cruel e sádico de milhões de judeus – e alguns outros não judeus.

A princípio, as políticas nazistas e fascistas têm sempre uma metodologia de repetição. Os discursos são os mesmos e justificados com práticas de impor medo perante um inimigo comum – e invisível. Hitler, durante anos, amedrontou a população afirmando que existiria uma ameaça comunista feita por judeus e que a invasão bolchevique, vinda da Rússia, iria acabar com a Alemanha.

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Em nome do conservadorismo

Em síntese, Hitler inventou também, que o “volks” – termo alemão referente ao modo de vida camponês- seria destruído pelo judeu. Algo como se o conservadorismo perdesse espaço para uma nova cultura com viés de esquerda, que, no seu entendimento, seria o judaísmo.

Assim como em 2018 ouvimos repetidamente que existe uma ameaça comunista pairando sobre nossa Constituição, os nazistas entenderam que esse discurso funcionava e, durante anos a fio, com seus discursos inflamados, disseram:

“Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana”
“Não hesito em declarar que julgo os homens que arrastam o movimento de hoje na crise de divergências religiosas piores inimigos da pátria que qualquer comunista com tendências internacionais, pois converter o comunista é a tarefa do movimento nacional-socialista” (trecho do livro Mein Kampf, de Adolf Hitler)

Portanto, é nesse momento que tudo começou: um microfone, um palanque, uma retórica imbecil e o trabalho de convencimento. Nesses momentos de campanha, ninguém falava em assassinar crianças judias. Eram apenas homens de bem, preocupados com o futuro de sua nação, lutando contra uma ameaça. Todos religiosos e em nome de deus.

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O que a história nos ensina sobre o fascismo

É impossível não ver a relação do passado com os períodos atuais. A história está se repetindo. Já tivemos medo de ameaça comunista em 1964, os conservadores estão mantendo algo muito importante e com medo de perder. E o causador de tudo isso continua sendo um inimigo comum e invisível que, incansavelmente, os violentos, racistas e homofóbicos homens de bem, empenham suas vidas em lutar contra.

Entretanto, nenhum alemão imaginava o que viria pela frente. Sempre pensaram que Hitler e seus amigos eram apenas homens com uma personalidade muito forte e que, às vezes, falavam muito. Mas, durante esses anos de discurso, uma máquina pública se formava nos bastidores do poder.

Isto é, amigos, parentes, apreciadores do nazismo foram se reunindo, ajudando um ao outro e montando a máquina de guerra que, enfim, não era democrática. O medo do tal regime comunista judaico criou o autoritarismo de extrema direita do nazismo.

Quando meus avós eram jovens

Alguns relatos do grau de sadismo que Laurence Rees mostra no seu livro são assustadoramente não-humanos. É difícil imaginar que o Holocausto aconteceu em 1940, quando meus avós eram jovens.

Os homens de bem do exército nazista tinham práticas tão cruéis e sádicas, como pegar crianças pelas pernas e bater com a cabeça num muro até o crânio explodir. Também há relatos de bebês sendo jogados vivos em grandes valas para queima de corpos. Tiro ao alvo nos seios de mulheres. Estupros violentos seguidos de mortes sádicas, pois o nazista, na sua figura patriarcal de estado, julgou que judias não serviam para nada, a são ser para estuprar e morrer logo depois.

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O caminho do discurso violento

Com muita alegria em lembrar do que fizeram, os nazistas matavam crianças antes de matar as mães, apenas para ver o pavor estampado nos rostos. Um dos relatos conta que um oficial nazista estava muito feliz, pois descobriu que sua arma conseguia matar duas pessoas com um tiro e ferir uma terceira que estava na fila. Caso esta última não morresse, era jogada viva na vala de fogo para não gastar mais uma bala.

Após fazerem tudo isso, eles terminavam o dia com uma missa, um beijo na esposa e iam dormir. Mais um dia cumprindo os seus papeis e, então, poderiam relaxar, satisfeitos de salvar a Alemanha de mais uma ameaça comunista judaica.

Portanto, a obra de Laurence Rees nos mostra que a insanidade dos perigos de um discurso violento chegou neste ponto. Tudo começou com um homem prometendo uma nova política, conservador e religioso.

Por fim, o livro traz respostas e reflexões sobre algo que jamais podemos esquecer de perguntar: como a violência começa? Quais articulações sociais, culturais e políticas criam sociedades tão dispostas a violência? E quais tipos de discurso compactuam com o ódio?

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Carlos Belo
Carlos Belo

Engenheiro Civil, Químico, gosto de cerveja, tenho uma gata e "a religião é o ópio do povo". Dizem que sou comunista, mas eu não sou. Morte ao capitalismo.

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