A filha perdida

A filha perdida: mães reais em um mundo que ainda cobra perfeição

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Novo filme da Netflix adapta livro de Elena Ferrante que repensa o ideal de maternidade

Cada vez mais a crítica à romantização da maternidade se torna comum em livros, séries e filmes: esse é o caso do recente lançamento da Netflix, “A filha perdida”.

Adaptação do livro do fenômeno literário Elena Ferrante, autora da tetralogia “A amiga genial”, o filme dirigido por Maggie Gyllenhaal traz a incrível Olivia Colman (a rainha Elizabeth em “The Crown”) no papel de Leda, uma professora universitária que está passando férias sozinha em uma ilha na Grécia e que se envolve com os dramas de uma família nova-iorquina suspeita, especialmente com Nina (Dakota Johnson), uma jovem e exausta mãe de uma filha pequena e esposa de um homem, no mínimo, ameaçador (Oliver Jackson-Cohen).

A película não segue cegamente o livro, mas traz os elementos essenciais e característicos da obra de Ferrante, como a boneca perdida, que parece ser a catalisadora de relações viscerais e sutis entre as mulheres, permeadas pelo amor, pelo desejo, pela amizade, pela maternidade, pelas dores.

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Em “A filha perdida”, vemos esse universo da maternidade ideal – e da própria feminilidade ideal – sendo destruído pelos embates entre passado e presente, evidenciados em flashbacks da vida de Leda, que vão mostrar uma mulher longe da imagem de “bela, recatada e do lar”. Uma das cenas mais comoventes e honestas (e também que mais nos toca e nos desconstrói) se encontra justamente no diálogo entre Leda e Nina, quando aquela conta como foi passar uma temporada longe das filhas.

Olivia Colman em cena de “A filha perdida” (Imagem: Reprodução/Netflix)

E Maggie foi muito perspicaz em trazer para as telas esses traços singelos, mas poderosos da escrita de Ferrante, que nos fazem transitar por memórias, fragmentos claustrofóbicos, dúvidas e nebulosas fronteiras entre certo e errado. É impossível não se sentir mexida pelos dramas de Leda com a maternidade, casamento e fidelidade sufocantes, questões que encontram eco em Nina, o que mostra que esses tabus não foram superados entre as gerações.

Talvez até por isso que o livro e o filme ainda possam soar chocantes para muitas pessoas. Um choque que não pode impedir de sentir empatia por essas mulheres, um choque que sequer deveria existir, porque, sim, há mães que estão muito cansadas, frustradas, mães que querem viver sua sexualidade e sua carreira plenamente, amando – mas não sem uma ponta de ódio – os seus filhos.

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Imagem: Reprodução/Amazon
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Bruna Bengozi

Bruna é mestre em História pela USP e graduanda em Letras pela Univesp. Redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome da impostora".

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