O que você faz com os livros que lê?

O que você faz com os livros que lê? O que você faz com os momentos que aquele capítulo parece que te transborda e te coloca em outra condição de pensamento, como se o livro – mas todos sabemos disso, iluminasse com tanta força uma parte confusa aí dentro?

Nesta semana voltei com minha rotina de vida de professora, o que diminui consideravelmente a quantidade de conteúdos espalhados por aqui, no Instagram e no You Tube. Mas, é apenas uma parte muito maravilhosa da minha vida que não é registrada nas redes sociais, portanto, não se incomodem com o sumiço. Tá tudo bem.

Mas hoje, depois de uma semana olhando para o livro, ora jogado no sofá, ora na cadeira ao lado da cama, ora na minha bolsa de trabalho, e sem ser lido uma vez se quer, me peguei admirando demais A Casa dos Espíritos, da Isabel Allende. Como hábito, mantenho um caderninho de anotações por perto, mas com este livro as anotações estão escassas. O motivo: não sei explicar. Só sei que os longos capítulos é realmente um mergulho na vida de Clara, uma garoto que vê coisas; o seu marido – um personagem que ainda não sei definir por conta do machismo em sua volta; a irmã dele, uma típica senhora que viu a vida passar cuidando de outras pessoas e sem olhar para si mesma. Há outros personagens, mas esses três se parecem tanto com a vida da gente, que se tornam comoventes.

Em um momento do livro, Clara e Férula, a irmã de seu futuro marido se encontram em um café. Entre a mesa bonita, com pães, docês e lindas xícaras, as duas se olham e choram. Como se – mesmo tão diferentes – se reconhecessem. Como se para todas as mulheres, o ato de respirar e querer já fosse uma enorme conquista, apesar delas estarem tão derrotadas. Um tipo de revolta não reconhecida, mas não menos importante.

“Férula sobressaltou-se, perguntando-se se seriam certos os boatos sobre a habilidade de Clara para ler o pensamento alheio. Sua primeira reação foi de orgulho e teria recusado a oferta apenas pela beleza do gesto, mas Clara não lhe deu tempo.  Inclinou-se e beijou-a na face com tanta candura, que Férula perdeu o controle e começou a chorar. Fazia muito tempo que não derramava uma lágrima e comprovou, assombrada, quanta falta lhe fazia um gesto de ternura. Não se lembrava da última vez que alguém a havia tocado espontaneamente. Chrou longo tempo, libertando-se de muitas tristezas e solidões passadas, da mão de Clara, que a ajudava a assoar-se entre dois soluços lhe dava mais pedaços de bolo e goles de chá. Ficaram chorando e falando até as oito horas da noite e nessa tarde no Hotel Francês selaram um pacto de amizade que durou muitos anos.” (p. 108)

Então, apesar de eu não anotar muitas coisas sobre o livro, essa passagem, e tantas outras, me faz pensar sobre o feminismo, sobre o encontro das mulheres, sobre esse reconhecimento da luta no brilho dos olhos. E, sobretudo, o quanto é importante um gesto de gentileza até com pessoas desonhecidas ou que estamos conhecendo agora.

Interessante que muitos livros contam histórias de tanto tempo atrás, mas ainda são histórias do presente e também do futuro. Pois, talvez, o que importa mesmo na literatura é o sentimento das personagens; e o que elas passam para os leitores; e como uma história é poderosa no sentindo de acalentar os nossos corações.

Onde comprar A Casa dos Espíritos (Isabel Allende):

Amazon
Livraria da Folha


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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“Livros, o precioso sangue dos espíritos imortais” Virginia Woolf